Mais leve que o ar

Leonardo Mion
Aug 27, 2017 · 7 min read

O perfil a seguir foi construído a partir de uma entrevista de algumas horas com um amigo de infância. Por privacidade, ele preferiu não se identificar, mas pediu que fosse escrita.

Para que cada leitor pegue um pouco do peso de seus ombros.

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Minha mãe tinha saído, era aniversário de uma de suas irmãs. Meu pai fez uma janta simples e depois ficamos vendo TV. Perto da meia-noite ele estava consertando alguma coisa na sua oficina no fundo de casa, enquanto eu balançava na nossa rede de pano e ouvíamos o jogo do Coritiba. Ao fim do jogo ele desliga o rádio, apaga as luzes, me senta no seu colo e fala:

“Deixa eu te perguntar uma coisa.”

“Você tem medo de mim?”

Eu engoli em seco e disse que não. Mas eu tinha.

Naquela noite, minha mãe chegou e meu pai cumpriu sua rotina: assim que ela entrava em casa e virava as costas ele corria para o carro dela, um Escort 1997, e checava a quilometragem. Ele sabia exatamente a quantos quilômetros ficava a casa de cada um dos meus oito tios e tias. Depois, ele ia pra dentro e, enquanto ela contava como foi a festa, ele preenchia como um escrivão todo um relatório na sua cabeça, para ver se o tempo das coisas e conversas que ela contou somavam o tempo que ela ficou fora. Meu pai era uma pessoa ruim. Custa entender como um homem no seu nível de misoginia consegue viver em sociedade, e sempre que tentei refletir ele me fugiu, assim como fugiu de diversas fases de sua vida. Pode ter sido algo de infância, ou um sentimento que minha mãe despertava nele que se transformava em violência, talvez eu nunca saiba.

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Meu pai nasceu em Colombo/PR, no dia 21 de dezembro de 1957. Filho de uma empregada doméstica e um pintor de construção. Frustrado com a morte dos dois primeiros filhos, gêmeos, meu avô culpou minha vó até o fim dos seus dias. Meu pai foi o mais velho. Deixo para a imaginação de quem estiver lendo que seu nome completo consistia no nome do médico que o pariu, um personagem bíblico importante para minha avó , e o sobrenome de meu avô, porque minha avó analfabeta perdeu seu sobrenome quando se casou e nunca tinha aprendido a escrever o seu. Depois dele vieram seis irmãs, não posso dizer que lembro o nome de todas as minhas tias, mas lembro que nunca gostaram de mim, talvez pelo fato de todas apanharem dos maridos, e minha mãe e eu não.

Meu avô não parecia gostar de suas filhas. Desde pequeno convivi com meus pais debatendo se meu pai deveria interferir ou não na relação do vô com as prostitutas do bairro. A relação dele com os netos era cômica para não dizer triste, convivia bem com os meninos, mas as meninas, filhas das mulheres em que batia, eram suas princesas. Nunca gostou de minha mãe, uma mulher que não aceitava ser mandada, que sempre trabalhou fora e não dava satisfações. Um absurdo.

Minha vó, sempre acuada, encolhida, como todas as suas filhas nunca aprendeu a ler nem escrever direito. Tratava todos os netos como se fosse a sua última visita. Via em minha mãe uma esperança e um espelho da mudança que queria. Sempre teve vergonha de sua casa humilde na favela da entrada de Colombo, mas nem por isso, quando íamos visitá-la, deixava de colocar as toalhas novas que tinha feito na mesa, sempre nos recebia com a casa arrumada e perguntava o que eu queria comer — algo raro para um menino que tinha 18 primos.

Sempre me questionei por que meu pai era tão diferente do resto da família, um dia resolvi perguntar. Ele me contou que, quando tinha 12 anos, apanhava muito na escola por defender suas irmãs dos meninos que só queriam “se engraçar”. Depois de diversas suspensões, um professor pediu para ser seu tutor e o manter na linha. Meu pai me contou que a cobrança foi tanta que, quando chegou ao ponto de fugir da escola para evitar o professor, ele fez questão de perguntar o porquê da implicância. Acontece que a minha vó era empregada do professor, e quando ele descobriu, prometeu para si mesmo que ia compensar o esforço dela e fazer meu pai estudar. Ele foi o único que terminou a escola.

Aos 18 anos ele fugiu do inferno. Era um jovem bonito e atlético, trabalhava como operário e jogador de futebol quando conheceu a primeira mulher. Fugiu de casa para casar, abandonando as irmãs e a mãe. Desse casamento, vieram seus primeiros dois filhos, um menino e uma menina. Meu irmão, Junior, via meu pai como um herói, Andressa, minha irmã, como quase um semiDeus. Quando a mais velha tinha 5 anos, ele resolveu que não era aquela a vida que queria, os conflitos em casa eram muitos para pouco retorno emocional. Então ele se foi. Abandonou meus irmãos em uma casa de um cômodo só e com uma mãe que saía na segunda e voltava na sexta. No fundo acho que meus irmãos não gostavam de mim também.

Prestou concurso da policial civil e progrediu em uma carreira como investigador de polícia. Não seria uma profissão que eu recomendaria se o conhecesse na época. Meu pai sempre foi extremamente volúvel, arranjava brigas no meio em que estivesse e podia mudar do céu ao inferno em questão de quinze minutos. Uma pessoa extremamente geniosa com uma instabilidade incrível, seu humor flutuava como uma pena em um furacão. E foi disso que ele fez as nossas vidas.

No começo, quem conhecesse percebia uma pessoa extremamente vaidosa, mas em profundidade o real era uma pessoa sem nenhum sinal de autoestima ou amor próprio, preocupada o tempo todo com o que as pessoas diziam e obcecada por saber exatamente o que todos estavam pensando, mesmo sem mostrar interesse.

Em 1993, um amigo pede ajuda com uma colega de outro setor que precisava de assistência para uma amiga que havia comprado um carro roubado. Aí ele conheceu minha mãe.

Morena, ruiva, loira, depende do mês, muito alta, totalmente desprendida de rotina, fã das bandas de rock mais populares nos bares menos populares da cidade, caçula de oito irmãos. Minha mãe sempre foi um circo. Se tinha vontade ela me colocava no carro e iríamos passar um fim de semana em uma praia de que nunca havíamos ouvido falar, e se estivesse chovendo poderíamos ficar horas ouvindo rádio, ela me contando histórias de livros ou filmes que nem ela se lembrava como eram mais.

Por motivos pelos quais nem ela consegue dizer, ele a convenceu de que a culpa do abandono dos filhos não era dele. Por diversas vezes quando eu era criança, testemunhei minha mãe tentar levar meus irmãos para nossa casa, alfabetizá-los, educá-los. Não houve efeito. O personagem de meu pai é emblemático por isso. Por 15 anos, minha mãe feminista, independente, diminuiu seu brilho lentamente, e foi sufocada por um rotina violenta e instável.

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A rotina era sempre a mesma: todos os dias meu pai chegava em casa, entrava e deixava a chave na porta, depois seguia pelo corredor da sala até chegar na lareira, que dividia um balcão em dois pelo meio. Ele seguia até o balcão do lado esquerdo e esvaziava os bolsos metodicamente, primeiro a carteira e distintivo, depois a chave do carro e por último o revólver, que ficava no ponto mais alto para eu não alcançar. Depois seguia até a cozinha onde nos cumprimentava, ia para a sala, tirava os sapatos e ligava a tv. Isso era um dia bom.

Conforme fui crescendo, percebi um aumento na frequência do que eu e minha mãe secretamente chamávamos de dias ruins. Quando às 23h ainda não havia sinal, era hora de fingir estar dormindo: duas quadras antes de embicar no portão já ouvíamos a música alta do seu carro. Meu pai abria a porta e não fazia questão de trancar, caminhava fora de ritmo e tropeçando em diversas coisas pelo caminho. Sem esvaziar os bolsos ele ia direto para o quarto e discursava em alto e bom tom sobre seja lá o que fosse que minha mãe tinha feito para deixá-lo com ciúmes. O cheiro de álcool era perceptível no nível do chão no colchão em que eu dormia.

Nossa vida girava em torno do humor e de qualquer acaso que deixasse seu dia desagradável. Entre pratos quebrados no chão e ter que esconder meu pai desmaiado na sala de meus amigos da escola, minha mãe e eu criamos uma sintonia de fuga, hoje nosso relacionamento é cheio de falhas por causa disso. Nenhum trauma passa em branco.

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Levou tempo para minha mãe me convencer do tamanho do perigo que corríamos, eu valorizava mais ter uma família simbólica do que o bem-estar em casa, coisa de criança. Seu argumento para me convencer foi me fazer pensar “você tem medo do seu pai?”, e eu tinha, tanto que quando ele descobriu e me perguntou eu congelei.

Ao longo dos anos fugimos diversas vezes para a casa de parentes por conta de pratos quebrados, humilhações públicas ou só porque ele mesmo nos expulsou. Inexplicavelmente sua capacidade de manipulação era tão grande que em todas as vezes minha mãe e seus psicólogos eram convencidos de que tudo seria melhor. Até não ser mais.

Quando eu tinha 13 anos, minha mãe, em um ato de coragem, aproveitou um dia ruim em que eu tinha ido dormir fora. Empacotou tudo que pôde, fotos, brinquedos, roupas, colocou no porta-malas do carro e foi embora. Vi meu pai cinco vezes depois daquilo, em cada uma parecia mais desgastado e revoltado. Nunca mais vimos nada que deixamos na casa.

Hoje casado de volta, adotou os filhos da mulher e mora a uma quadra de onde o deixamos. Meu pai me disse a vida toda que seu maior esforço era de não ser igual ao meu avô, mas parece que não foi possível. Ele nunca saiu de Colombo.

Hoje se debate muito o que gera a misoginia e o ódio desproporcional de alguns homens por mulheres. É fato que isso vem de um formato de sociedade antiquado e que, tanto para homens ou mulheres, se tornou um senso comum a ser quebrado. Mas meu pai era mais complexo que isso. Não parece haver uma explicação razoável de por que pessoas como meu pai são o que são. Você pode argumentar que o sofrimento dele na mesma idade que eu explica qualquer desvio, mas não justifica.

O medo intenso que sofri por metade da minha vida me deixou inseguro, danificado. A última vez que vi o homem foi em agosto de 2008. Hoje ouvi dizer que ele continua se sentindo o dono de um mundo que deu errado, e eu me sinto fadado a me sentir uma formiga que deu certo

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    Leonardo Mion

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    jornalista por insistência,