Cu

- Bel, sobre ontem, eu…

- Gostou, né?! — sorri enquanto coloca o sutiã.

- Não é isso.

- Não? Poxa…

- Nunca tínhamos feito aquilo, mas ainda assim não vai dar.

- Não vai dar…?

- Não quero voltar a namorar.

- Quem pediu isso?

- Você tava bêbada, parecia frágil. Só quis te tirar daquele bar, te consolar.

- E aí aproveitou o embalo pra comer meu cu.

- Péra, foi você que ofereceu.

- Foi um teste.

- Sei bem o que você queria.
- Queria ver se o seu oportunismo te ajudaria dessa vez.

- Oportunismo? Você usou o seu… usou essa tática aí.

- Eu usei meu cu pra te segurar?

- Não?

- Agora meu cu virou super trunfo? — veste a calça de moletom — Acha que eu preciso disso?

- Precisar não precisa, mas usou o ânus como carta coringa sim.

- Você não me conhece mesmo.

- Não tem problema nenhum.

- Caio, quer saber mesmo o que eu queria?

- Acho que não.

- Pois eu digo: queria simplesmente dar o cu.

- Isso esclarece tudo.

- Mas NÃO pra te segurar, querido, e sim porque gosto de sentir prazer.

- Claro.

- E por gostar de sentir prazer, quis te dar a última chance de me proporcionar algum.

- Que feio, vai cuspir no prato que comeu?

- Sim. Até gostava de você, mas vivia frustrada.

- Então tomara que tenha aproveitado ontem, pois não vai rolar mais.

- Só constatei o óbvio: você não sabe comer cu, Caio.

- Avaliou isso em uma noite?

- Todo sem jeito, afobado, como se estivesse em vaga proibida com pisca alerta ligado, nem uma maldita cuspidinha. Se eu não tivesse tanta paciência, teria te mandado ir dormir na sala.

- Dormir na sala? É você que me persegue desde o nosso fim.

- Pois o teste foi bom pra eu me desiludir de vez.

- Acabei com minha noite pra cair nessa arapuca e tu ainda vem me esculachar?

- Quer que eu minta? Você no papai e mamãe, vá lá, mas pra sodomia ainda é mirim.

- Recalcada.

- Caio, você não gosta de variar. Que mal há nisso? Vai evoluir.

- Acho anal supervalorizado sim, porém não significa que não goste.

- E praticar com a namorada que é bom, nada, né?!

- Não achei que a EX-NAMORADA gostasse.

- Xô te explicar: a mina que disser que não gosta tá mentindo.

- E se eu não quisesse? Acha seu cu tão irresistível assim?

- Acho. E também acho você incompetente. Quem negligencia anal é incompetente sim!

- Você nunca me deu chance.

- Caio — fecha os olhos, dramática — eu tô lá toda molhada, pensando no beijo grego, enquanto você ainda tá na mordidinha na orelha. Tem que se ligar!

- Beijo grego?

- Olha, vai buscar conhecimento e não me amola mais.

- Então é assim? Vamos generalizar os costumes sexuais da humanidade. É a ditadura do cu!

- Isso aí! Geral cultua o cu.

- Era só me dizer que gostava.

- Cadê feeling, querido? — levanta-se e abre a porta do quarto.

- Vai aonde?

- Duda! — grita para a irmã.

- Quié? — grita de volta a irmã, de algum ponto da casa.

- Gosta de dar o cu?

- Claro, por quê?

- Pergunta pra Clarinha aí.

- Perguntar o quê?

- Se ela também curte dar o cu.

- A Clarinha tem dezesseis anos — susurra Caio, quase tendo um derrame.

- Pergunta aí, Duda!

- Falou que não gosta. Ama!

As irmãs riem juntas. Enrolado no edredom, encolhido na cama, sentindo os pilares de sua masculinidade rachando, Caio enxerga algo de diabólico na cena toda.

- Agora vamos perguntar pra mamãe — provoca Bel.

- Ok, chegamos ao limite — o rapaz começa a se vestir apressadamente.

- Se liga na rima: cu não é areia movediça, não prende ninguém. Caio, você tá livre, e eu também.
- Você sempre foi boa de improviso.
- Já você, nem tanto.

- Não queria mesmo voltar?

- Você é complicado demais. Precisa superar essa repulsa anal.
- Vamos conversar direito?

- Sonha — coloca a blusa e sai do quarto.

Caio desce as escadas. Detém-se ao ver mãe e filhas tomando café da manhã na mesa da sala. Parecem nem notá-lo. Ele se esgueira até a porta da rua.

- Ei, Caio! Toma café? — oferece a mãe.

- Obrigado, Dona Vitória! Tenho que ir — destranca a porta — Não precisa se levantar.

- Tchau, meu filho. Espero que você supere.

- Eu não tenho nenhuma repulsa anal pra superar, Dona Vitória.

- Supere o fim do namoro, Caio — corrige a mãe.

Caio bate a porta e Dona Vitória fica sem entender as gargalhadas na mesa.