Curry

-Já refletiu sobre a galera que morreu pra você poder usar essa cuequinha grená aí?

- Como assim?

- Antes dos europeus chegarem ao oriente, as roupas eram todas marrons, tristes, um horror. Não tinha corante, não tinha brilho.

- Quem te contou isso?

- Também enfrentaram tormentas para que o boyzinho pudesse usar um perfuminho — dá uma fungada no cabelo do namorado — Gosta de perfuminho, não gosta?

- Deixa de ser ridícula.

- Perfuminho atrai femeazinha feito eu. Mas de que adianta, né?!

- Já entendi aonde quer chegar.

- Agora vamos falar de temperos?

- Não, não vamos.

- Imagina a merda que era o gosto da comida antes da Rota das Índias. Nem sal direito tinha. Imagina curry.

- Sabia.

- Eu não sei quantos barcos afundaram para a gente ter curry na nossa mesa, mas posso pesquisar na internet. Peraí.

- Bia, chega! Eu não consigo e pronto. Sente esse cheiro.

- Você é um fresco! Queria o quê? O restaurante indiano é meu vizinho. Vai ter cheiro de curry pra caralho sim! Ou se acostuma ou não trepamos mais.

- Desculpa, curry me brocha.

- Eu preciso de uma paciência de Gandhi com você.

- Gandhi não era paciente, era pacifista.

- Então vamos pra sua casa.

- Meus pais estão lá, esqueceu?

- E aquele motel, o Plexus?

- Acho motel nojento.

- Você tá querendo levar uma porrada ou um chifre?

- Quer gastar dinheiro a toa?

- Interessante, Cadu. Nojo de curry, nojo de motel e nojo de buceta. Que bela época pra estar viva.

- Não tenho nojo de buceta.

- E não faz oral por quê?

- A gente tava falando de curry.

- Mas eu quero falar de buceta. Primeiro dizia que menstruação te afastava, mesmo quando mal tinha descido, eu entendi, apesar de contrariada, aí depois parou de vez com o oral.

- Eu peguei trauma de menstruação porque um dia…

- Já sei, a menina não te avisou e você foi lá e caiu de boca. É psicológico, querido.

- Chegou a comida — levanta-se Cadu ao ouvir o interfone.

- Vai lá. Pelo menos pra comer você é de boa.

Minutos depois:

- Que massa boa.

- Gostou do molho que eu escolhi?

- Amo molho branco. Que restaurante é esse?

- Não viu o folder?

- Não veio.

- Se chama O Sabor da Saroba, cozinha experimental.

- Sucesso. Mas experimental por quê?

- Porque usa ingredientes novos, super nutritivos.

- Uai, isso é creme de leite, não?

- Sim, também tem gengibre e esperma, que harmonizam bem.

- Vai se foder.

- Qual o problema? Faz bem pra saúde.

- Filha da puta! — revolta-se Cadu, largando a quentinha e trancando-se no banheiro.

- Amor, é brincadeira — bate na porta — Você é caipira mesmo em achar que existe delivery de sêmen. Se tivesse, eu já tinha pedido. Amor, tá vomitando?