Fungos emocionais

Londres, 30 de janeiro de 1969

Em meio ao movimento anormal da rua Savile Row, Stu ergue-se na ponta dos pés para tentar localizar alguém.

- Nicky, aqui! — identifica a moça de casaco pesado que se acotovela entre transeuntes e curiosos.

-Sem beijinho — evita o cumprimento do rapaz — Pode ir falando.

- Vamos subir.

- Por que essa galera aqui na porta? Eles estão aí? — arregala os olhos — Stu, eles estão?

- Você vai ter que merecer essa informação — ri sem ser correspondido.

- Sai, groupie suja! — Nicky afasta uma menina de poncho que obstrui a porta do prédio.

Stu puxa Nicky pra dentro do famoso edifício da Apple Records. Abre a porta do elevador e sinaliza para ela entrar.

- Me conta o que tá rolando, Stu! Você disse que tinha a ver com eles.

- Calma — aperta um botão e se mantém de costas.

Pouco depois o elevador enguiça entre dois andares.

- Ué, parou?
- Parece que sim.
- Por isso que eu não entro em elevador sem ascensorista.

- Nicky, eu vou ser bem direto: tenho sentido coisas estranhas, não vou suportar essa nossa situação.

- Que situação? Faz essa merda funcionar, tenho claustrofobia.

- Eu tenho uma surpresa pra você, mas antes quero me certificar de que tudo vai voltar a ser como antes.

- Como antes? A gente terminou, esqueceu?

- Você terminou. Eu ando doente, arrasado, sem saber o que houve.

- Não fode! Aconteceu que você é um ciumento psicótico que desconfia até do meu pôster do Ringo.

- O Ringo é a ponta do iceberg. Você vive na cola de tudo quanto é roqueiro piolhento desta ilha.

- Começou, né?! Depois pergunta por que foi chutado.

- Groupie do Ringo, como pode? — pergunta-se baixinho.

- Groupie é a sua mãe!

- Você quer que eu morra?

- Seu problema é mental, não físico. — empurra o rapaz e aperta o alarme.

- Ninguém vai aparecer. Tá todo mundo no terraço.

- O que tá acontecendo, afinal?

- Eu te digo: minha imunidade baixou e eu contraí fungos no pé. O médico disse que é depressão — começa a desamarrar os tênis.

- Fungos emocionais? Conte-me mais.

- Começou aqui na sola e agora tá chegando à planta do pé — exibe um dos pés descalços — Não imagina como isso dói. Pelo menos alivia a dor do coração.

- Se é o melhor que pode fazer pra me comover, já era.

- A tristeza é feia, Nicky.

- E também fede!

- Não é o único sintoma. Também tenho furúnculos no quadril e ouvidos entupidos, mal escuto.

- Deve ser a natação.

- Meu ouvido fabrica mais cera quando fico angustiado.

- A sua hipocondria não tem limites.
- Não é psicológico. Tô mostrando os efeitos no meu corpo.

- Foda-se com as suas ecas.

- Nicky, minha carcaça tá literalmente apodrecendo. Não posso viver assim.

- Surreal! Você não quer reatar porque se arrepende, ou coisa do tipo, mas por estar coberto de bolor.

- Meu antídoto é você.

- Chega, maluco, vou gritar.

Stu a segura pelo braço.

- Por que o Ringo?

- Ai, Deus! Porque ele não é estrelinha. Por isso.

- Você que pensa.

- Além do mais, todos têm um beatle preferido.

- Eu não tenho.

- Tem sim, é o tal do Martin.

- George Martin.

- Ter o produtor como beatle favorito diz muito sobre seu caráter.

- Ele é gênio, é o meu guru.

- Guru de quê? Você é só um auxiliar de técnico de som.

- Mas é graças ao meu emprego que você tá aqui dentro.

- Presa no elevador? Ainda não vi vantagem alguma.

- Se não fosse tão teimosa…

- Peraí! Você parou o elevador de propósito?

Stu se cala, um tanto corado, enquanto Nicky se distrai com algum som externo.

- Tá ouvindo isso? — ilumina-se, tremendo de emoção.

- O quê?

- Don`t let me down — aperta o braço do ex.

- Não é minha intenção.

- É a música, idiota.

- Ah sim.

- Stu, eles estão tocando em algum lugar do prédio!

Nicky pega Stu pelos ombros e o chacoalha.

- Você tem que me levar lá!

- A ideia era essa, mas antes você tinha que me perd… — é interrompido por uma nova chacoalhada.

- Faz essa porra funcionar!

Stu aperta botões, mexe na grade da porta, mas nada.

- Com esse macete era pra funcionar.

- Get Back! Get Back!

- Não adianta.

- É a música, porra!

- Deve ter enguiçado de verdade, desculpe.

- Eu não acredito! — escorre pela parede até o chão, dramática.

- Calma — tenta afagá-la.

- Não chega perto de mim — reage, abatida.

- Isso aqui tá me lembrando a situação do fab four — pronuncia fab four com ironia explícita.

- Por quê? — Nicky parece a beira das lágrimas — O que eles tem a ver com essa doença que a gente vive?

- Eles também estão doentes, Nicky.

- Eu só tô nessa merda de elevador por causa deles.

- E eu tô aqui por sua causa.

- Você me enganou.

- Pra mim a causa era justa.

- Pois é, somos dois interesseiros.

- Feito o John e o Paul. Entendeu?

- Do que você tá falando, seu lunático?

- Eles só estão nessa por causa da grana. A casa caiu faz tempo.

- Não fala bobagem, essa parceria é pra sempre.

- Também achei que a nossa fosse. Agora a gente tá aqui assim, unidos pelo interesse. O elevador é o nosso Fab Four.

- Nossa, que inteligente sua analogia — desdenha.

- O tempo me dará razão, mesmo se eu já estiver morto.

- A diferença é que os Beatles estão presos em um sonho bom, enquanto eu tô presa em um conto mal escrito.

- O pesadelo deles é estarem juntos.

- Para de falar isso, por favor, ou meu mundo vai deixar de fazer sentido.

- Ok, então não falo.

Após vinte torturantes minutos aprisionados no que Stu, em momento de perspicácia duvidosa, definiu com “submarino de mágoa”, sons de engrenagens e cordas pouco lubrificadas trazem alívio. O elevador ruma para o ultimo andar.

- Tá subindo! Tá subindo! — Nicky vibra

- Até que enfim! Nunca uma viagem de elevador durou tanto.

Nicky cantarola The long and winding road e os dois riem. Por um momento dividem uma expectativa boa. O elevador chega, finalmente.

- E agora, como faz pra chegar ao terraço? — pergunta Nicky, sem conter a ansiedade.

- Tem que subir a escada e…

- Ok, eu acho! — abre a grade do elevador com vitalidade, mas é inesperadamente barrada por alguém.

- Vai aonde, moça? — pergunta o sujeito fardado — Senhor, achei quem tava impedindo o acesso.

Um policial mais velho se aproxima sacudindo a cabeça com ar de reprovação.

- O senhor pode nos dar licença? — pede Nicky — Temos autorização pra subir. Ele trabalha aqui — aponta para Stu.

- Vocês descem com a gente — conduz os dois de volta para o elevador.

- Descer? Por quê?

- Tentar barrar a justiça é crime, moça.

- Como assim barrar, seu policial? — pergunta Stu, timidamente.

- Acha que é mole subir esses andares todos de escada?

- Ninguém é preso por ficar em elevador enguiçado.

- Não é prisão, rapaz. Por enquanto só vão nos explicar umas coisinhas.

- Mas os Beatles estão lá no terraço. Não faz isso com a gente! — implora Nicky.

- Estavam. Já mandamos parar.

- Stu, pelo amor de Deus — choraminga — quero vê-los.

- Acho que não vamos ter outra chance.

- Eles vão acabar mesmo? — aterroriza-se Nicky, indo da desilusão à ira em um segundo — Eu vou pegar aquela japa de porrada!

- Calma, moça. Você não tá em posição de ameaçar ninguém — intervém o policial velho.

- Seu covarde! Vai lá prender o Lennon. Quero ver!

- É o que eles querem — responde o policial — Não vou dar esse gostinho.

- Nicky — susurra para a ex-namorada — Vai me dar outra chance?

- Stu, a gente tá sendo preso, percebeu? Olha o embaraço.

A porta se abre e os dois são escoltados em meio a uma pequena multidão. Ao ver um dos policiais se distanciar com Nicky, Stu grita, quase em pânico:

- Ei, nao pode me dizer?

- O sonho acabou! — grita de volta.

Os dois são colocados em viaturas separadas.