A morte do tempo

Por acaso dirá alguém que nunca ouviu quem se lamentasse da brevidade da vida, da inconsistência do tempo, da fugacidade do presente? Experiência semelhante à observação atenta de um punhado de areia que, evanescente, nos foge por entre os dedos. Já dizia Sêneca, porém, que o problema não está na duração da vida. Está em cada segundo que dela desperdiçamos.

O tempo é um fenômeno curioso cuja estrutura consiste em contínua autodestruição. Viver é caminhar por essa ponte envelhecida, decadente, em que a cada passo um pedaço da estrutura é solto em direção ao abismo, o abismo do passado. E esse aparente paradoxo, esse conflito, ao mesmo tempo fascinante e inescapável — a saber, que é a morte que dá significação à vida — nos traz invariavelmente a uma questão: como aproveitar o tempo que cada um tem para si?

Dirão alguns fatalistas que a solução é não se importar com nada, apenas deixar-se levar pelas águas de um rio cujo controle não nos é dado; outros, inocentes, dirão para se atentar para cada detalhe, nada deixar passar pelo nosso planejamento e controle pessoais. Os primeiros serão meros joguetes das circunstâncias, bonecos inumanos. Os últimos, decidindo em tudo focar, nada de específico farão, pois que se estará sempre na metade do caminho, em um contínuo vir-a-ser, que jamais vira coisa alguma.

Evidente que nenhuma vida é assim tão simples. Menos simples será — se existente for — uma solução universal que abranja todas elas. Cada vida humana escapa a seu modo do modelo que a reduz, do padrão que a limita. Mas a verdade, a essência que dá razão a cada história individual, para longe de qualquer estereótipo, pressupõe ao menos uma intensa busca por fundamento dentro da própria consciência; uma raiz que não é encontrada na coletividade confusa dos medíocres, mas no interior mesmo da humanidade de cada um.

“Não procures fora, mas dentro de ti; é no interior do homem que habita a verdade” — Santo Agostinho

Ignorar esse chamado é ignorar o próprio futuro, é perdê-lo de vista. E assim perde-se o tempo. Perde-se a vida. Perde-se, inexoravelmente…

Quem não busca executar esse projeto único, esse movimento incessante em busca de si, que se eterniza no momento da morte e completa o ciclo da existência, deixa de realizar-se; abdica da liberdade possível e consente com a escravidão autoimposta. Viverá, portanto, pelo resto dos dias como massa, como homem de papel: alguém que a ventania leva para todos os lados, por não ter ele direção a seguir.