Ritmo, interação e aprendizado.

Esse texto experimental foi produzido a partir de reflexões em sala e minhas anotações durante a disciplina de “Tópicos Especiais em Comunicação e Mediações Culturais II” com a temática das linguagens e comunicação na cobercultura, ministrada pela Dra. Lúcia Helena Vendrúsculo Possari, docente do programa de pós-graduação em Estudos de Cultura Contemporânea (ECCO-PPG). Toda redação do conteúdo foi feita pelo celular, visando uma aplicação das potencialidades do ciberespaço (Conceito aqui adotado sob a ótica de Pierre Levy em “Cibercultura”) e das mídias que caracterizam pontos nevrálgicos da comunicação contemporânea. Toda redação será feita em locais públicos e em alguns momentos, enquanto me movimento e propositalmente desempenho tarefas paralelas, procurando vivenciar ao máximo a experiência do leitor contemporâneo que usa constantemente seus dispositivos móveis. As referências serão expostas a partir de hyperlinks, no intuito de adaptar o formato do texto às necessidades do leitor móvel, ou ubíquo, imagens e vídeos também comporão o presente texto. A rede social Medium foi escolhida por ser destinada a produção de textos mais longos do que geralmente se vê em outras redes sociais e abre espaço para comentários e contribuições, possibilitando um diálogo contínuo.

Com o advento da internet e das mídias sociais (como essa, que dá suporte ao texto), o processo de aprendizado contemporâneo passa por ressignificações em um ritmo acelerado. A própria noção de ritmo pode ser posta em pauta quando se pensa em como aprendemos nos dias de hoje, uma vez que recebemos, diariamente, minuto a minuto, uma grande quantidade de informações, nas mais diversas formas (visuais, auditivas, textuais, hiperlinks, etc…), de origens diversas. Como conceber o tempo/espaço frente a esses processos cognitivos que surgem ao aprendermos?

Ritmo pode ser entendido como: “Sucessão de tempos fortes e fracos que se apresentam alternada e regularmente” ou “cadência”. Proponho que emprestemos a aplicação da ideia de ritmo na música, cadência, para essa reflexão. Na música, é a cadência do artista que “organiza os sons”, ora, se pensarmos os sons como formas de interação decodificadas por nós, ouvintes, contribuintes na construção do sentido da obra, poderíamos ampliar essa noção para toda a comunicação? Presumindo que ritmizamos o fluxo de informações que recebemos, organizamos esses dados e seus estímulos ao ponto de podermos desempenhar tarefas, de ordens variadas de dificuldade, simultaneamente, como caminhar por uma rua movimentada, trocando mensagens e navegando por redes sociais, enquanto nos esquivamos das pessoas e obstáculos, paramos e olhamos se há a possibilidade de atravessar a rua em segurança, sem, em nenhum momento, “desligar-se” do aparelho celular ou do mundo “real”, empreende-se um equilíbrio, um malabarismo da atenção.

Organizamos as interações a ponto de nos tornarmos leitores extremamente complexos, acelerados e, possivelmente, ansiosos. Leitor aqui, assume o sentido proposto pela Dra. Lúcia Helena Vendrúsculo Possari, uma vez que lemos textos e esses não são apenas escritos - como o logocentrismo nos leva a pensar - mas um todo de significações, passíveis de compreensão e atribuição de sentidos, esteja no formato verbal, na pintura, na música, no gesto, enfim, em tudo que fizer sentido.

A transterritorializaçãodo ciberespaço implica na noção de tempo/espaço, como conceber da mesma maneira a interação humana quando se pode conversar e ver uma pessoa localizada em qualquer parte do globo que tenha acesso à internet? Os programas de mensagens instantâneas colocam a distância geográfica como questão em partes resolvida pelos dispositivos móveis. Ainda que o surgimento da telepresença não tenha sido dependente dos celulares, a popularização destes, que passam a se tornar acessório básico, transforma o íntimo das relações humanas.

Aludindo ao ritmo musical para se pensar na organização das interações do indivíduo com o mundo, é necessário recorrer ao conceito de tempo musical. O tempo na música corresponde a uma unidade de medida, assim, o ritmo é aplicado dentro das unidades temporais propostas, dentro das medidas da música. Paralelamente, podemos pensar nos contextos comunicacionais em que nos inserimos. Penso em tempo aqui, como contexto. Qual o ritmo, a cadência, a organização mental, necessária ao leitor contemplativo? Seria a mesma presente no tempo do leitor virtual?

Lúcia Santaella apresenta um quarto tipo de leitor no desenvolvimento de seu pensamento, o leitor ubíquo. A ubiquidade que se apresenta como característica desse leitor só é possibilitada pelos dispositivos móveis, o grande diferencial é a possibilidade de comunicar-se, mediado por dispositivos incorporados ao ciberespaço, sem a necessidade de um local fixo. Os computadores pessoais ampliaram o universo de significações do leitor virtual, no entanto, dependem de uma base física (computador de mesa), agora essa barreira é quebrada, tornando a mobilidade, física e virtual, como condicionante desse leitor.

Dentro dessa lógica, a autora propõe o “apendizado ubíquo”. Aqui, a autora fala em linhas gerais sobre o conceito:

A união do conceito de ubiquidade a educação confronta as tradicionais e antiquadas abordagens que marcam o ensino. Esse leitor ubíquo que na palma da mão o acesso à fontes oceânicas de informação colocam a hierarquia das relações acadêmicas — em especial professor-aluno — em questão. Para o crítico de arte, Nicolas Bourriaud, a internet e seu sucesso evidenciam o desejo de sociabilização (p.45), as novas gerações de alunos imersos no universo cibercultural certamente se acostumarão a ser co-autores do conteúdo, científico ou não, uma vez que em seus relacionamentos sociais (on e offline) são constantemente vistos como tal.

O tempo musical de um jazz difere do rock, assim, a interação do músico, a maneira como esse toca seu instrumento, também. Ainda que Santaella afirme que não há distinção fixa entre seus tipos de leitores, que se fundem, se hibridam, me pergunto quanto ao ritmo da interação para cada um desses leitores, como soa a interação do leitor ubíquo em comparação ao virtual?

Mesmo com formações musicais distintas, é possível formar uma banda com um saxofonista, acostumado aos longos compassos do jazz, e um baterista do rock n’ roll. Por meio do diálogo e da adaptação pode ser criado uma experiência musical inédita.

A alusão à musica aqui tem como ponto central o diálogo, a descentralização do conhecimento, uma vez que a interatividade, em múltiplas faces, é cada vez mais presente no cotidiano. Alunos e professores como coautores de um mesmo conteúdo.

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