O declínio em uma década

Os motivos da crise do futebol brasileiro e o que pode ser feito para que dias melhores possam surgir

Seleção em 10 anos: Do “quadrado mágico” para a eliminação da Copa América na fase de grupos. Foto: SporTV

Sinônimo de técnica, habilidade, espetáculo, qualidade e admirado no mundo inteiro, o futebol brasileiro sempre foi motivo de orgulho no país e apreciado até por aqueles que não acompanham o esporte ao redor do mundo. Entretanto, na última década, os resultados, assim como a plasticidade do jogo,caíram muito: eliminações vexatórias nas últimas edições da Copa América, falta de protagonismo dos jogadores brasileiros nos principais clubes europeus (exceção de Neymar), clubes brasileiros endividados, baixo nível técnico do futebol nacional e o inesquecível 7 a 1 na Copa. Afinal, por que o futebol brasileiro está em decadência?

Em conversas com os analistas e estudiosos de futebol, há um motivo que é comum para todos: O futebol brasileiro não evoluiu e parou no tempo, enquanto os europeus conseguiram impor um novo modelo de jogo mais coletivo, que superou as individualidades, marca registrada de brasileiros e argentinos. Para Nando Gross, comentarista da Rádio Guaíba de Porto Alegre/RS, a carência do futebol divide-se em duas questões, a econômica e a tática:

Em virtude dos clubes brasileiros estarem endividados, nossos grandes jogadores deixam o país antes de completar 20 anos. Consequentemente, cai o nível técnico da competição, que é atrapalhada pela própria CBF, que não respeita a data Fifa, convoca jogadores e desfalca as equipes em meio ao campeonato. Outra questão é que nós também temos uma crise de atualização tática. O treinador brasileiro não é referência em lugar nenhum, e não é só por causa da língua.

Para Carlos Guimarães, da Rádio Guaíba, o Brasil não evoluiu por culpa do que ele chama de “Cultura da Gambiarra”:

Sempre achamos que somos os melhores independentemente de época, geração e planejamento, um sentimento de empáfia. Os calendários são desorganizados, os dirigentes são defasados e preferiram buscar interesses pessoais ao invés de consolidar nosso futebol. Eles alimentam a cadeia Fifa- Confederação — Federação- Clubes, ainda acreditam que temos os melhores jogadores do mundo e que tudo é feito da noite para o dia, no pensamento mágico e exigem no imediatismo resultados em 24 horas. Sabemos que não é assim que se faz futebol.

Alexandre Perin, do blog Almanaque Esportivo, diz que o Brasil ficou para trás porque não se adaptou a mudança do futebol na última década:

Depois de 2006, os clubes e seleções europeias entenderam que era necessário mudar e o futebol passou a ser coletivo ao invés de depender das individualidades. Os treinadores brasileiros, que estavam no topo, ficaram para trás porque o ainda trabalhavam com o fluxo do individual. Hoje, os times são montados a partir dos meio-campistas, não mais dos atacantes. Evidente que um ótimo jogador que atua na frente pode decidir a partida, mas o jogo é construído a partir de um trabalho coletivo.

Nando também acredita que a imprensa tem sua parcela de culpa ao não discutir tanto as questões táticas do jogo e priorizar outras situações, como especulações e sensacionalismos:

Nós analisamos pouco taticamente um jogo. Quando a partida termina, você assiste a uma coletiva de imprensa de um treinador, jogador ou dirigente e tem apenas uma ou duas perguntas sobre o jogo. O resto é sobre contratação, polêmica de arbitragem ou declaração polêmica de determinada pessoa. Ninguém quer saber das questões táticas. Até hoje há comentaristas mais antigos que debocham de quem tenta aprofundar a questão dos esquemas táticos e mudanças de posicionamento, quando se trabalham com dados estatísticos como posse de bola, finalizações, desarmes, dribles e passes. Tem gente da imprensa que reluta contra isso, o que também atrapalha.
Times brasileiros não chegam a final da Libertadores desde 2013. Foto: Raul Arboleda

Na última década, o futebol brasileiro foi menos protagonista na Europa. Depois de Romário, Rivaldo, Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho ganharem o prêmio de Melhor Jogador do Mundo da FIFA entre o fim da década de 1990 e a metade dos anos 2000, o último brasileiro que chegou ao topo foi Kaká, uma década atrás. Desde então, Neymar virou o único jogador extra-classe do país, que nos últimos anos se notabilizou por negociar em altos valores zagueiros, laterais,volantes e goleiros. Agora, existem grandes expectativas sobre Gabriel Jesus, recentemente contratado pelo Manchester City. O atacante, campeão da Copa do Brasil 2015 e do Brasileirão 2016 pelo Palmeiras, jogou muito bem tanto no clube quanto na Seleção, onde marcou cinco gols em seis jogos nas Eliminatórias.

Na visão de muitos, o fato de as categorias de base priorizarem a força e o resultado ao invés da técnica e de um estilo de jogo tem muita relação com uma suposta piora da qualidade técnica da nova geração de jogadores brasileiros.

Neymar e Gabriel Jesus: “Esperanças” como protagonistas na Europa. Foto: Tim Clayton/Corbis via Getty Images

Outro fator é o atraso das questões táticas no Brasil. A não definição de uma cultura e estilo de futebol prejudica a qualidade dos clubes e na revelação dos jogadores. Embora existam críticas aos técnicos desatualizados, “boleiros” e “ultrapassados”, também é verdade que existe uma nova safra de treinadores interessados e que trabalham na parte tática. Alguns nomes: Roger Machado, Milton Mendes, Guto Ferreira, Fernando Diniz e o principal deles: Tite, técnico da Seleção Brasileira.

Tite é o expoente da metodologia de trabalho moderna adotada por novos treinadores no Brasil. Foto: Lucas Figueiredo/CBF
Nós nunca ligamos muito para as mudanças táticas porque tínhamos os melhores jogadores, os mais técnicos. Ficamos alheios a tudo isso. O Brasil acreditou por muito tempo que o treinador “boleirão”, que foi jogador e é experiente ia ajeitar as coisas pelo fato de falar a “linguagem do boleiro”. Hoje, não é mais assim. Um treinador tem que saber trabalhar com os setores táticos, técnicos, físicos e emocionais. Por outro lado, a “ditadura tática” é perigosa — disse Carlos Guimarães.
O Barcelona trabalha táticas nas categorias de base com os garotos desde quando eles são pequenos. No Brasil, a ideia é de que se deve trabalhar pouco porque a criança tem que aprender a ter o improviso, o drible, como se uma coisa fosse diferente da outra. As equipes precisam ter filosofia de jogo. A seleção brasileira e o Barcelona são da escola de imposição: Não basta ganhar, tem que se impor, jogar bem. São estilos que gostam de jogar, não do contra-ataque. — afirmou Nando Gross.
Notam-se mudanças, mas pontuais e graduais. A Alemanha trabalha treinos de seis contra seis, sete contra sete e vai aumentando gradativamente o número de jogadores conforme aumenta a idade. No Brasil não. São 11 contra 11 desde os nove anos de idade, e acontece o “bolinho” de um lado e de outro, não há coletividade. Com o passar dos anos, os clubes pegam os meninos que nascem no início do ano e fazem trabalho físico para ter um time mais forte. O dirigente é cobrado por não ganhar títulos na base. O correto deveria ser “quantos jogadores bons eu revelei esse ano?”, mas isso é só da boca para fora. Não ganhou, eles demitem — critica Alexandre Perin.

A corrupção e a má gestão financeira são os principais vilões

Foto: Divulgação/CBF

Em 2015, o escândalo envolvendo dirigentes da FIFA e das Confederações de Futebol teve consequências gravíssimas, principalmente nos países sul-americanos. Joseph Blatter, que comandava a FIFA desde 1998, renunciou, assim como o secretário-geral Jérome Valcke, ambos envolvidos em casos de corrupção. Na UEFA, o lendário ex-jogador Michel Platini também foi afastado de suas funções. No Brasil, José Maria Marin foi preso na Suíça e hoje está em prisão domiciliar nos Estados Unidos. Ricardo Teixeira, ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol e Marco Polo Del Nero, atual presidente, não saem do país por medo de serem pegos pela Interpol. O país foi o único onde o presidente da Confederação não renunciou ao cargo, embora Del Nero tenha se licenciado por alguns meses da função, substituído pelo coronel Antônio Carlos Nunes de Lima.

Na visão dos entrevistados, é preciso mudar essa situação, embora a impunidade seja um empecilho determinante para que o Brasil não organize a estrutura de comando do futebol:

Se uma instituição é governada por corruptos, a pessoa fica desacreditada do processo. Por isso, acredito que o futebol precisa fazer uma limpeza nessas coisas, embora ache difícil. É como diz aquela frase: “Basta estar no poder para se corromper” — afirmou Carlos Guimarães.

Para o comentarista Nando Gross, os escândalos têm uma consequência pior: a perda de patrocinadores, que investem menos no futebol, o que afeta a qualidade do jogo e endividam os clubes, que não pagam os atletas.

Com pouca arrecadação, o nível técnico do jogo fica pior. Futebol se faz com dinheiro. Para ter um bom time, é preciso investir muito. A crise da seleção brasileira não é a crise do futebol brasileiro. Há uma massa de clubes falidos, salários atrasados e pouquíssimos jogadores ganhando bons salários. À exceção de atletas que atuam nos 13 principais clubes do futebol brasileiro, a maioria esmagadora dos jogadores de futebol do Brasil ganham um salário miserável.

Na visão de Alexandre Perin, apenas os torcedores podem mudar a situação.

Quem vota nesses dirigentes da CBF são os clubes, que também escolhem o presidente das Federações Estaduais. Os torcedores podem mudar, elegendo e mantendo uma gestão responsável nos seus clubes. Se cada time fizer sua parte, vai chegar o momento em que a maioria dos clubes estará com gestões sérias, responsáveis e organizadas. Com isso, eles terão estofo e cacife para exigir mudanças da CBF, como por exemplo o calendário, a janela de transferências e, o mais importante, os dirigentes. Se isso não for feito, não vai mudar nada. Do contrário, já teria acabado com isso há muito tempo.

É unânime o desejo de que seja adotado o profissionalismo na gestão do futebol, contratando gestores capacitados e deixando de lado “torcedores” e dirigentes sem estudo, que estão apenas compondo a parte política da gestão do clube. Um clube melhor administrado tem maior chance de realizar investimentos certeiros, o que solucionaria um dos problemas dos clubes brasileiros: o mau uso das receitas, que são oriundas, em sua maior parte, dos acordos com a TV.

Não falta dinheiro para os clubes. É falta de visão e má gestão. Enquanto na Europa um CEO faz curso, tem MBA e se prepara adequadamente para o cargo, no Brasil o cara que administra o clube é um político amigo do presidente. Ele deixa de ser conselheiro e vira diretor remunerado. Isso é errado. Tem que contratar um cara capacitado, que se preparou para a função. Os clubes contratam sem nenhum plano de negócio e tampouco sabem como recuperar os investimentos absurdos. Quem toma essa decisão? Não há profissionalismo. É inadmissível um clube grande brasileiro ter salários e direito de imagem dos jogadores atrasados. A péssima administração se reflete nos resultados dentro de campo e também na relação com o consumidor — criticou Perin.
Os dirigentes gastam mal o dinheiro dos clubes porque esse dinheiro não é deles. Eles não fazem isso com suas finanças. O principal desejo é se perpetuar no poder. Como se consegue isso? Ganhando títulos. Hoje, para ser campeão, é necessário ter bons jogadores. Só é possível contratá-los se tiver muito dinheiro. Em muitos casos, o clube se endivida porque gasta o que não tem e o legado fica com o próximo presidente. Os dirigentes precisam calçar a sandália da humildade e entender que futebol é uma prestação de contas — afirmou Carlos Guimarães.

A Seleção Brasileira, com a chegada de Tite, teve um crescimento muito grande. O Brasil saiu da sexta posição nas Eliminatórias para alcançar a liderança da classificação, com seis vitórias em seis jogos, com 17 gols marcados e apenas um sofrido. Além dos resultados, o futebol vistoso, a organização e a aplicação tática da equipe são evidentes. O Brasil, que chegou a ter sua participação para a próxima Copa como incerta por alguns torcedores e jornalistas, agora está praticamente classificado para o certame da Rússia.

Foto: Globoesporte.com

Os clubes brasileiros precisam ser geridos por profissionais, separando a razão da emoção. E a imprensa, como pode ajudar nesse processo? Para Nando Gross, é necessário quebrar o monopólio dos direitos de transmissão do futebol no Brasil, pertencente a Rede Globo na televisão aberta e as empresas Globosat nos canais fechados, embora a ESPN Brasil transmita a Copa do Brasil, assim como a FOX Sports, que também exibe as reprises dos jogos do Campeonato Brasileiro e detém os direitos de transmissão da Libertadores e Copa Sul-Americana. Recentemente, muitos clubes anunciaram que assinaram um acordo com o Esporte Interativo para a transmissão de jogos na TV fechada. O contrato com essas equipes entra em vigor em 2019.

Os clubes precisam criar uma Liga para negociar os direitos gerais das competições, incentivar a concorrência na televisão para que haja mais receita — concluiu Nando Gross.

Perin acredita que a imprensa tem um papel fundamental na questão de manter o futebol atrativo para a audiência, mas que precisa rever algumas linhas editoriais:

Que imprensa estamos consumindo? Os programas esportivos ficam a maior parte do tempo falando de arbitragem, questionando a idoneidade do juiz e outras polêmicas sensacionalistas ao invés de falar de tática, técnica e estatísticas. A imprensa é importante porque fomenta as discussões de forma positiva e negativa. É bom quando há espaço para que sejam debatidos outros aspectos como a gestão e a qualidade dos jogadores. Assim como o futebol, boa parte da imprensa ainda não mudou e continua repercutindo as mesmas coisas, que são absorvidas pelos dirigentes, que também pensam a mesma coisa há décadas. O paradigma não muda. Se a imprensa se reinventar, ela vai formar uma massa crítica que irá olhar e consumir o produto de forma diferente.
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