Universo Infinito

A expansão do colecionismo de carros em miniaturas atrai cada vez mais pessoas para a compra, venda e troca em feiras e exposições

Há quatro anos é realizado em Porto Alegre um encontro mensal de exposição, troca e venda de carrinhos. A Expominis é realizada em um restaurante no bairro Santa Cecília. No estabelecimento de dois andares, é possível encontrar milhares de miniaturas de diversos tamanhos, divididas em várias mesas, no espaço destinado para os expositores.

Um deles é Luciano Machado da Rosa. Ele e a esposa, Cíntia, são os fundadores e organizadores dos encontros. Natural de Bagé, o turismólogo gostava de brinquedos em geral na infância. Com o passar do tempo, priorizou a variedade de carros em miniaturas, se tornando colecionador aos 22 anos.

Luciano sempre teve muito interesse em expor sua coleção em eventos e feiras de miniaturas.

Em 2010 teve o primeiro (e único) evento da Hot Wheels aqui na cidade, mas só soube depois. Ali, um monte de gente passou a colecionar — lembra.

A partir desse “boom” que surgiu a Expominis:

Descobri que existiam alguns encontros organizados no Orkut, mas eram raros e começaram a enfraquecer. Foi aí que falei para a Cíntia: “Vamos encarar de fazer um encontro de miniaturas por mês?” Ela topou. — conta.

Os encontros da Expominis são realizados entre os meses de março a dezembro aos sábados, das 10h às 15h. Ele deixa claro que é um evento de miniatura e colecionismo em geral, embora mais da metade das exposições sejam de carros.

O propósito da reunião é aumentar o número de colecionadores e de pessoas envolvidas com o colecionismo. Luciano sente-se satisfeito com o andamento e crescimento das exposições.

A cada evento que nós fazemos, um amigo leva o outro, que espalha para outras pessoas e curte a página no Facebook. Nossa rede cresce. Isso nada mais é do que um hobby, um lazer, que serve para desopilar. O colecionismo e os encontros agregam pessoas, você faz amizades e constrói um relacionamento com muita gente — disse.

Luciano conta que não é sua prioridade expandir a Expominis para mais encontros durante o mês ou realizar grandes exposições com vários estados.

Isso é uma diversão, um momento relax para confraternizar com os amigos e é isso que me satisfaz. Tem gente que vive de vender miniaturas, mas é um hobby, uma coisa supérflua. Você compra porque gosta, mas não é uma coisa que o pessoal tem dinheiro para gastar. Tem que se policiar, deixar de comprar ou comprar depois, quando ficar mais barato
Desde 2013, a Expominis permite a exposição, compra e venda de miniaturas por colecionadores e aficionados
Luciano e Cíntia: os idealizadores da Expominis

Não muito longe de Luciano está Ricardo Fraga Gomes, 46 anos, com a mesa repleta de miniaturas para vender, com a promoção “um por R$ 8, dois por R$ 15 e três por R$ 20”. O autônomo ingressou no colecionismo aos 14 anos, na linha do plastimodelismo (miniaturas de plástico). Seu pai era dono de uma oficina mecânica.Criado nesse ambiente, se apaixonou pelos carros.

Há 20 anos, ‘Rick’ começou a customizar seus próprios carrinhos porque queria ter modelos que o mercado não oferecia. No entanto, há apenas seis que o negócio passou a ser um trabalho.

O pessoal perguntava o porquê de eu não divulgar as fotos nas redes sociais. Comecei postando de brincadeira, as pessoas gostaram e começaram a me pedir carros personalizados — conta.

Rick também negocia as encomendas pela internet e tem clientes espalhados pelo Brasil inteiro. O autônomo alertou para um problema que surgiu no meio do colecionismo nos últimos anos: as pessoas querem tirar vantagem umas das outras, cobrando valores exorbitantes pelas miniaturas:

O pessoal sabe que você quer tal miniatura e te cobra 1500 reais, o olho da cara. Isso estragou o colecionismo. Não é hobby, é desproporcional, acabou virando um mundo cruel. Muita gente do meu tempo abandonou e vendeu suas coleções por conta disso. O que era para ser um hobby acaba se tornando algo estressante. Gostaria que voltasse o tempo em que uma miniatura era R$ 1,99

Apesar desse “mundo cruel”, Rick acredita que a indústria do colecionismo seguirá crescendo nos próximos anos por conta da transmissão do gosto pelo colecionismo de pai para filho.

É a história do menino que acompanhava o pai nas feiras com dez anos, gostou, guardou as miniaturas que comprou e hoje segue a coleção — explica.
Ricardo customiza miniaturas há 20 anos, mas que virou negócio há apenas seis
Uma de suas coleções é o acervo de miniaturas da Volkswagen, no tamanho de 1/43

Na mesa ao lado de Rick está o amigo Newton Sheng. O farmacêutico de 30 anos começou a colecionar miniaturas aos “treze ou quatorze anos” por influência de seu pai, que tem uma loja de modelos de aeromodelismo. Ele realiza compras, trocas e vendas pela internet desde 2007 e está presente na Expominis desde as primeiras edições.

No início, como todo colecionador, acabava comprando as miniaturas por impulso, mas depois de um tempo acabou priorizando uma coleção e se desfez de outros carrinhos. “Cheguei a ter três mil miniaturas. Hoje, tenho 1450”, conta.

Newton endossa o discurso de Ricardo e lamenta o crescimento do “mercado pirata” do colecionismo.

Comecei a colecionar na chamada ‘época de ouro’, entre 2000 e 2007. As miniaturas eram baratas e dava para negociar a compra e venda por um preço justo. Hoje, muita gente que trabalha em lojas de brinquedo seleciona as miniaturas e vende por um preço 300% acima do valor original. Eles dizem que são colecionadores mas não são — criticou.

Por outro lado, ele acredita que os próximos anos serão de queda na indústria do colecionismo e apontou a convenção de carros antigos como nova alternativa de renda nas trocas e vendas das miniaturas. “Em virtude da crise econômica, nem todo mundo tem condições de comprar carrinhos. Antigamente, os da HotWheels eram cinco reais, hoje é R$ 10, R$ 12. É inviável. Os encontros de carros sempre têm um bom público, estou conseguindo vender mais. Lá você acaba criando colecionadores, alguns deles gostam e facilita porque é do mesmo tema”, disse.

Newton é colecionador há 10 anos. Hoje, ele participa de encontros de carros antigos e consegue vender mais miniaturas
Newton coleciona caminhonetes e carrinhos de desenhos e séries, como Scobby Doo e Speed Racer

“Para quem acha que é apenas um brinquedo…”

Luiz Pedro Kunkel, 36 anos, chega para prestigiar as exposições dos amigos Rick e Newton. De folga no fim de semana, ele trabalha como customizador, que cria novas miniaturas personalizadas e que realiza reparos em outras. Engana-se quem pensa que os carrinhos são apenas para diversão. É possível viver apenas com a customização deles. Desde os dezenove, Luiz já mexia nas peças:

Estava estudando para ingressar na faculdade e mexia nos carros no tempo livre. Meus pais e amigos me incentivaram para seguir no ramo, fui me aprimorando, conseguindo contatos e pegando gosto. Estava em um estresse e em um dilema muito grande. Encarei como um alívio essa mudança brusca no meu caminho, uma pressão a menos — conta.

Luiz trabalha apenas com os modelos 1/18. Ele realiza o serviço de vender miniaturas novas, usadas e a comercialização de peças e serviços. Sua renda mensal depende dos pedidos.

Para quem acha que é só um brinquedo… dá para tirar uma grana considerável, entre dois e seis mil reais por mês

Luiz começou a exibir os modelos, onde começou o “boca a boca”. Hoje, ele garante ter 200 clientes, a maioria no eixo Rio-São Paulo, um pouco na Região Sul e o resto espalhado pelo país.

Sua maior dificuldade é encontrar peças com os fornecedores para fazer as customizações.

Ninguém faz o que eu faço. Quando uma pessoa contrata o serviço, ele quer uma qualidade de uma miniatura que sai de fábrica. É aí que reside o meu trabalho, afirmou.

Luiz não foi atingido pela crise. Ele teve, de fato, uma diminuição no número de clientes, mas qualificou o serviço.

Talvez eu tivesse 20 ou 30 clientes por mês e ficaram 10 ou 15, mas esses validam os outros que eu tinha anteriormente, explica.

Em 2014, formou-se em design de produto. Para se dedicar aos compromissos pessoais e otimizar o trabalho, Luiz não descarta contratar um ajudante, mas ainda não tem verba para isso. Ele sente-se realizado com o seu trabalho:

É um trabalho que me relaxa, mas ao mesmo tempo me estressa por questões de qualidade, o cliente que é mais exigente. Eu curto, porque geralmente a maioria das miniaturas que estão a venda eles têm uma certa tiragem. No momento em que você customiza uma peça, ela é um modelo único. O prazer é poder ter um carro que só você tem — finalizou.
Luiz customiza miniaturas há 15 anos. Incentivado pela família e os amigos, transformou o hobby em trabalho rentável
O trabalho de customização de Luiz é detalhista. Ele mexe em pequenas peças

“A enciclopédia das miniaturas”

Em uma casa em Cachoeirinha onde vive com a esposa e a sogra há cinco anos está Guybor Jan Maurício Brasil Kun, de 47 anos .Ele foi introduzido ao mundo das miniaturas aos “seis ou sete anos”, por intermédio do tio, que trazia carrinhos diretamente do Uruguai. Apesar disso, por volta dos “oito ou nove anos” acabou se interessando pelo plastimodelismo (miniaturas de plástico), deixando o colecionismo de lado por 20 anos, até o início da década de 2000.

Encontrei por acaso em oferta no supermercado um modelo antigo que lembrava a minha infância. Aquilo me despertou. Comprei dois, depois mais dois, depois mais um… — relembra.

O interesse foi aumentando e o preparador de automóveis passou a garimpar modelos que não tinha em feiras de antiguidades e em outras exposições no Brique da Redenção. Nesse mesmo período, ele trabalhava em um estacionamento e passava tempo restaurando miniaturas.

Guybor começou a ficar fascinado não só em colecionar como também em customizar e restaurar miniaturas. Para ele, o “boom” do colecionismo de carros em miniaturas no Brasil se deve ao sucesso do filme Velozes e Furiosos, no início dos anos 2000.

“Era tuning pra lá, customização pra cá”, afirmou. Com isso, Guybor enxergou um mercado embrionário e passou a trabalhar com o restauro e customização de miniaturas.

Por 10 anos, cheguei a praticamente trabalhar só disso, 80% da minha renda era a customização e personalização de miniaturas. Comecei a ver que tinha um nicho de mercado bem interessante, era o engatinhamento da Internet. — recorda.

Hoje, Guybor não trabalha mais com restauro, virou apenas um hobby. Com o passar do tempo, começaram a surgir vários negócios de customização, o que inviabilizou como fonte primária de renda. Entretanto, continuou participando de fóruns de miniaturas, postando fotos de seu trabalho e ganhando concursos de customização.

A maior parte dos seus quatro mil carrinhos estão encaixotados e organizados na garagem. Apesar de ter trabalhado durante uma década no ramo das miniaturas, Guybor critica o valor dos carrinhos e a importância que é dado ao lucro e em “sair com vantagem”. Para ele, o colecionador tem que conciliar a relação custo-benefício de acordo com sua vontade e que o mais importante é a satisfação pessoal.

Vivemos em um contexto exacerbadamente materialista e consumista. Tenho trocado serviços por modelos, peças ou até prestação de serviços porque eu gosto da sensação de ‘pô, fiz algo bacana que eu queria e recebi algo em troca, fiquei feliz e fiz alguém feliz’, sabe? Não só o ‘eu preciso lucrar, vou comprar por 500 e vender por 1000’ — criticou.

Guybor não sabe se a “indústria do colecionismo” irá crescer nos próximos anos devido a atual conjuntura econômica do país, mas que isso depende dos fabricantes, do engajamento dos colecionadores e do empreendedorismo de comerciantes.

O mercado tem vezes que está aquecido por conta de filmes e seriados, por vezes está morno por conta de falta de estímulos de convenções ou algo assim. Depende muito do ponto de vista dos comerciantes terem uma visão de mercado e acompanhar o que está acontecendo, seja em fóruns e núcleos de bate-papo, encontros informais e por conta do pessoal divulgar. O mote principal para o colecionismo ser viável é ter comunicação, encontros, grupos de troca de ideias, de bate-papo. Mercado há. — finalizou.
Um truque de Guybor nas exposições é quando a miniatura é “abduzida”
O preparador de automóveis participa de diversas exposições e competições de customização na internet

O publicitário Lauro Pillar, 57 anos, começou a se envolver no colecionismo na década de 1990. Apaixonado por automobilismo, gosta muito de ler revistas de carros. Diferentemente da maioria dos colecionadores, Lauro optou pelas compras de miniaturas maiores, no modelo 1/18.

Gosto mais desse tamanho (1/18) porque eles são maiores, sendo mais fácil de mexer. A partir daí, fui comprando os carros que eu gostava — conta.

O foco de sua coleção são os modelos dos anos 1950 e 1970. As motocicletas da MotoGP também compõem o seu acervo. Ele acredita ter 300 ou 400 miniaturas no total, espalhados em sua casa e na da irmã, onde tem mais espaço para armazenar as miniaturas.

Por ser maior e mais detalhado, o carro de escala 1/18 é mais caro. Ele custa a partir dos cem reais, mas Lauro já viu vendas na Internet no valor de cinco mil. “São peças raras”, argumenta. Esses modelos são mais difíceis de serem encontrados nas feiras de exposição, dominadas pelos 1/64. “Não é minha praia”, diz.

Lauro conta que, “no seu tempo”, ele ia para o Brique da Redenção conversar sobre carrinhos, trocar, comprar e encomendar miniaturas com as pessoas. “Existia uma loja de carrinhos por perto que depois se transferiu para o Shopping Total, mas ela não existe mais”, relembra. Diante da crise econômica e do maior número de compras pela internet, o publicitário acredita que o “auge” do colecionismo já passou:

O melhor momento foi de 1995 até 2004, 2005. Depois que o dólar ficou muito caro, começou a ficar inviável comprar. Existiam diversas lojas e empresas que faziam e vendiam os carros personalizados. Hoje, é raro aparecer uma miniatura em loja de brinquedo. Na região Sul, é muito difícil comprar peças diferenciadas — completou.
Lauro coleciona apenas miniaturas do tamanho 1/18
O acervo de Lauro se destaca pelas miniaturas de F1 da McLaren e Lotus de Ayrton Senna e a primeira Ferrari de Michael Schumacher, além das motos de Valentino Rossi