Não vai ter Copa

Crônica do financiamento de uma violência anunciada


Sugestão: ler ouvindo Mordido, do Apanhador Só http://vimeo.com/82389104


A Copa do Mundo da Fifa no Brasil foi anunciada em 2007 com promessas de que os investimentos necessários para receber essa competição seriam exclusivamente privados[1]. Uma comitiva de governadores - de diferentes partidos e espectros políticos - foi até a Suíça, demostrando o seu interesse em ser sede dos jogos. Por fim, no agradecimento do Presidente Luis Inácio Lula da Silva, destacou-se que o que mais chamaria a atenção das pessoas de outros países seria o “comportamento extraordinário do povo brasileiro”.[2] Será que ele estava certo?


Essa balela aqui não vai colar
Não tá tão fácil assim pra convencer
Esse teu papo de querer crescer
Na parceria, jogo aberto e tal
Não cola mais, já deu pra perceber
Que se alguém sai ganhando aqui é tu
Aqui tem peito pra identificar
Que ao contrário do teu lá lá lá
Negócio aí não é nada mais do que nãnã e meter no nosso[3]

Dois anos depois, em junho de 2009, o discurso de ausência de recursos públicos em estádios continuava a vigorar:

A ministra reafirmou que o governo federal não pretende investir recursos na construção e reformas de estádios para a Copa do Mundo de Futebol. Ela destacou que o presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira, tem garantido que os recursos para as obras em estádios virão da iniciativa privada.
“Essa hipótese de de repente um especialista começar a dizer que vai para o colo do governo federal não vai funcionar assim. Senão, fica uma coisa sem fundamento técnico no país. Não pode, de repente, um especialista achar e daí virar regra geral. Este aqui é um pequeno protesto contra os especialistas”, brincou Dilma. [1]

Além disso, a promessa sobre as obras de Mobilidade Urbana continuavam a serem feitas, ainda que o prazo para a conclusão delas ficasse cada vez mais apertado. No mesmo discurso acima, tem-se, por exemplo, que haveria no país um trem-bala ligando diversas cidades dos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo.[1]

Dois meses depois a isso, em agosto de 2009, houve a primeira mudança oficial de discurso, a cargo do então presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira, “revelando” que haveria o uso de recursos públicos. [4]

Ainda assim, a Matriz de Responsabilidades da Copa do Mundo previa inúmeras obras necessárias ao país e em proporção muito maior do que o gasto em financiamento de estádios públicos. Há 6 meses da Copa, entretanto, os gastos em estádios superaram os gastos com mobilidade urbana [5].

Essa brevíssima retomada dos fatos é importante para contrapor o discurso amplamente ecoado atualmente na sociedade de que os protestos de hoje deveriam ser feitos no anúncio da Copa, em 2007. Ora, como protestar contra algo que traria tantos benefícios para a população por meio das obras de mobilidade urbana e com estádios sem recursos públicos? Protestar-se-ia contra o quê? A mera desconfiança jamais teria o poder mobilizador que junho de 2013 trouxe.


O teu esquema sempre foi lograr
Criar uma imagem boa pra vender
Na captura do nosso querer
Tá conseguindo é nos provocar[3]

Brasil vive e sente futebol, sendo, para parte significativa da população, uma fonte importante de fuga de uma realidade com alta jornada de trabalho e um salário mínimo que não garante nem um mínimo vital.

O esporte Futebol, entretanto, não se confunde com seus eventos, incluindo a Copa do Mundo. Não vejo nenhum motivo universalizável para não se gostar desse esporte. Acredito, inclusive, falacioso o slogan “futebol é o ópio do povo” em um contexto utilizado como se ao povo não lhe fosse permitido ter esse escapismo. Aquele festival de filme fracês super cool ou aquele sertanejo universitário também são formas de entretenimento e, portanto, também seriam ópio, modificando apenas o público-alvo.

Mas gostar de futebol não justifica compartilhar e apoiar o evento Copa do Mundo da FIFA. O povo brasileiro, entretanto, teve capturado o seu querer, lá em 2007, quando misturaram e confundiram propositadamente a paixão pelo futebol com um de seus eventos, para que a contrariedade a ele representasse uma contrariedade ao próprio esporte.


A Copa do Mundo da FIFA é a Copa das Violações de Direitos Fundamentais. As violações diretas podemos descrever, por exemplo, como os despejos forçados de famílias. Um exemplo dessas violações é a estimativa da Ong Conectas, a qual aponta o montante de 250 mil pessoas forçadamente despejadas de suas casas.[6]

Mas o dinheiro público em financiamento a fundo perdido a quem não precisa enriqueceu também as construtoras, como a Odebrecht, que tem uma carteira de 34 bilhões de dólares em projetos [7] e, ainda assim, recebeu financiamento a juros abaixo da inflação para construção de estádios.

Mas o dinheiro público não apenas subsidiado, como também o que for desviado, implica também em violações indiretas de direitos fundamentais. É o aumento do valor da rubrica saúde que deixou de se fazer para se gastar para esses fins. Incontáveis, portanto, as violações sofridas.

Nem mesmo o argumento de que haveria ganho econômico (para quem?) parece subsistir a uma análise detalhada. Essa é a conclusão de Maennig, da Universidade de Hamburgo:

Estimativas infladas de geração de emprego e renda são comuns em eventos desse tipo porque os governos precisam justificar seus gastos com estádios e instalações esportivas[8]

Essa conta econômica, entretanto, parece insignificante perto de todas as violações aos direitos fundamentais. Para além dos despejos forçados, há também os trabalhadores mortos em obras concluídas em prazos inadequados e com fiscalização flexibilizada.


Toma cuidado pra não se perder
Que aqui na espera tão querendo um
Um só, que sirva pra exemplificar
Que volte vivo pra poder contar
Como é que fecha assim lacrado, interditado, aqui o nosso[3]

Junho de 2013 veio e o que parecia submissão se transformou em indignação. Jovens que nunca tinham protestado respiraram pela primeira vez gás lacrimogênio. E choraram: pelo gás, pela pressão de uma polícia militarizada, pelos braços dados a outros companheiros e companheiras.

O que veio a partir de então é o atual cenário de criminalização desses movimentos sociais. Esse tema não é novo, a novidade é a criminalização desses movimentos (até por serem novos) que foram formados por uma massa de juventude urbana e, em bom percentual, universitária e branca.

A bala do fuzil atirada nas comunidades foi trocada pela bala de borracha lançada no asfalto. O julgamento sumário por pessoas foi substituído por um julgado sumário do Estado.

E este Estado passou a perseguir para inibir protestos. De repente se descobriu que o melhor era que o gigante voltasse a dormir e se começou a se construir a estratégia para que isso fosse possível: campanha midiática e difamatória contra coletivos e partidos políticos, processos penais que retroagem ao século XIX - onde se investiga pessoas, e não fatos — para se chegar ao ponto de criminalização de ideologia, retomando um passado onde orientação política era crime. De repente, a luta pela redemocratização e pela liberdade de ideologia se dissipou e livros viraram provas de crimes de formação de quadrilha.

É, portanto, por esses motivos brevemente relatados, que com um sentimento misto de indignação, tristeza e raiva, que me RECUSO a financiar essa crônica de violência anunciada, ao menos na minha limitação como pessoa, não comprando ingressos e produtos oficiais dos principais patrocinadores dessa violência, e onde afirmo:

  • não vai ter copa para as meninas e os meninos que perderão a sua inocência por serem vítimas de exploração sexual;
  • não vai ter copa para as milhares de pessoas forçadamente despejadas de suas moradias;
  • não vai ter copa para as companheiras e filhos dos trabalhadores mortos;
  • não vai ter copa para os moradores de rua, espancados e expulsos de seus locais de vivência;
  • não vai ter copa para a juventude penalmente processada por sua ideologia.