Aquelas Longas Horas…

Em 2002 chegou ao cinema um excelente filme chamado As Horas. O longa apresenta três narrativas diferentes sobre mulheres enfrentando seus demônios em um dia muito muito comprido. Uma delas é ninguém menos que Virginia Woolf, a grande escritora inglesa, as outras são leitoras suas vivendo em épocas posteriores.

Como o título do filme sugere, longas são as horas para quem está em fase melancólica. Longas também são as horas para os entediados, como eu que estou em período de férias. Odeio férias. Mentira, na verdade o que eu odeio mesmo é o ócio.

Quem sabe essa também fosse a grande perturbação de Virginia Woolf. Ok, é estupidez de minha parte reduzir o sofrimento de alguém com tantas experiências traumáticas como ela a um simples excesso de tédio. Mas ao que consta no filme, ela tinha sim uma vida muito monótona, e com isso em mente não posso deixar de lembrar daquele ditado “mente vazia é oficina do diabo”.

O tédio mata sim. Ao menos foi isso que disse o ator George Sanders antes de se suicidar: “Querido mundo, estou deixando você porque estou entediado”. Quem sabe ele só estava fazendo uma brincadeira macabra, pra morrer com bom humor. Mas o caso não deixa de ser curioso.

O filósofo Arthur Schopenhauer disse que não existe felicidade sem tédio. Concordo. Sou essencialmente dualista em qualquer coisa. Não existe prazer sem dor, ganho sem perda, riso sem choro, e por aí vai. Então a procura deve ter com destino o meio-termo, uma forma de equilíbrio em que uma ação compensa sua consequência e vice-versa.

Woolf talvez tenha entendido isso quando disse, ao menos a personagem do filme, “[..]sempre enfrentar a vida de frente…e conhecê-la pelo que ela é. Finalmente conhecê-la…amá-la pelo que ela é. E então…deixá-la de lado.” É uma pena que seu conhecimento sobre isso não a tenha impedido de literalmente afogar-se em suas mágoas, com um dos suicídios mais marcantes da literatura.

Os pensadores, psicólogos ou operários que disseram que manter-se ocupado é o segredo da felicidade tinham uma certa razão. O problema é permitir manter-se ocupado. O tédio parece ser um estado de espírito com vida própria, em que ele diz para o ser entediado “não faça nada, xará, você não vai querer uma guerra comigo”. Sendo assim, uma inércia inconsciente parece capturar as forças do indivíduo em sua ânsia por liberdade.

Claro que o ócio também tem suas vantagens. Woolf divagava muito, e isso aparece no único romance da mesma que cheguei a ler: Ao Farol. A obra quase não tem diálogos, apenas devaneios, pensamentos que caracterizam personalidades tão complexas como as de pessoas reais. Infelizmente, a fonte de tristeza da autora foi a mesma que tornou sua obra tão grandiosa.

Por via da dúvidas, prefiro aceitar o tédio como condição necessária para ganhos futuros. Só espero ser mais forte que as longas horas que me separam deles, horas essas que Virginia Woolf não pode suportar.

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