De Volta às Montanhas …

Onírico. Certamente, nenhum cineasta preza tanto a importância de elementos oníricos na sétima arte quanto David Lynch. Seus filmes são recheados de uma imensa salada de cores, sons, objetos simbólicos e, se duvidar…até cheiros!

Inspirado no surrealismo — movimento artístico cujo objetivo principal é evocar as emoções inconscientes do observador — os filmes de Lynch são tão enigmáticos que soam até abstratos. E talvez o sejam! Lynch já defendeu em algumas declarações de que suas obras não precisam ser compreendias para serem apreciadas, pois aparentemente o autor está mais interessado nos aspectos estéticos e sensíveis daquilo que produz do que o impacto intelectual que virá com isso. Pra quê ter sentido, se a função da arte é problematizar, não é mesmo?

Com essas peculiaridades no modus operandi do cineasta, os estúdios provavelmente não esperavam que Twin Peaks (1990–1991), série de TV criada por Lynch e Mark Frost, atingisse o alto desempenho comercial que alcançou. O mistério sobre a morte de Laura Palmer — uma jovem assassinada cruelmente na pequena cidade que da título ao seriado — fisgou pra valer os telespectadores da época, colocando atrizes do show em capas de revista, presenteando os envolvidos com três globos de ouro e diversas referências na cultura, como nos programas Sesame Street e Saturday Night Live. Mas o deleite não durou muito. A ABC, emissora que exibia o seriado, logo começou a pressionar os criadores ansiando pela solução do mistério que encabeçava o plot; o mesmo cedeu, e na metade da 2ª temporada o assassino de Laura Palmer foi revelado. A partir daí, Twin Peaks perdeu o brilho, ainda mais considerando-se a retirada de Lynch, que passou a se dedicar a outros projetos. Retornou para dirigir os episódios finais, mas o estrago na audiência era irrecuperável e a produção foi encerrada naquele mesmo ano com muitas pontas soltas. Uma prequel chegou aos cinemas no ano seguinte — Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer, esnobada pela critica, mas aprovada como consolo para os fãs.

Twin Peaks sobreviveu como uma série cult, daquelas que ao que tudo indicava seria lembrada para sempre como um programa de TV injustiçado e cancelado precocemente. Não foram poucos os rumores ao longos das duas últimas décadas de que a série um dia voltaria, e após tantos anos de espera, o retorno finalmente aconteceu.

O episódio duplo exibido nos EUA no último domingo, dia 22, foi tudo aquilo que eu, como fã, poderia esperar: bizarro, hipnótico, peculiar, original, subversivo, assustador, brilhante… nenhum adjetivo diferente do trabalho do diretor.

A marca do autor é inconfundível. Há elementos no episódio que só poderiam acontecer em um universo lynchiano, como a atividade de um personagem que tem a estranha missão de observar uma…caixa de vidro! Ou a presença de diálogos do tipo “você segue a natureza perfeitamente” e “eu estou morta, mas ainda viva”, que não podem ser isolados do tom de voz que são proferidos. Sem falar em uma série de ações e comportamentos específicos que aqui soam inúteis se forem apenas verbalizados.

Por se tratar da continuação de uma série antiga, era mais do que óbvio que muitos esperavam um frescor de nostalgia. Aqueles que mais ansiavam por respostas e o reencontro de personagens que pertenciam a aquela tão fascinante cidade podem ter se desapontado. Mesmo com a volta de vários personagens para matar a saudade, o episódio se desenvolve na maior parte do tempo em locais muito distantes da pacata Twin Peaks, o que estende ainda mais a mitologia onírica pela qual o idealizador é conhecido. Se tratando de Lynch, nunca deve-se esperar uma situação X, pois o autor é sempre competente em convencer o seu público de que ele é um artista imprevisível e cheio de ideiais.

A partir daqui, não há mais muito o que especular sobre o que está por vir na série. Tudo pode acontecer em um universo lynchiano, ainda mais sabendo que o cineasta irá dirigir todos os 18 episódios da temporada. Lynch já deu a entender que este pode ser o último trabalho de sua carreira , e se for, nada melhor que encerrar com chave de ouro. Valeu a espera!