Por que os escritores bebem?

A literatura tem um caso de amor com o álcool. F. Scott Fitzgerald,Ernest Hemingway, Edgar Allan Poe, Stephen King, Truman Capote, Jack Kerouac, Charles Bukowski, Vinicius de Moraes, Nelson Rodrigues pra citar alguns, foram exemplos notáveis desse casamento. Mas afinal, por que os escritores bebem? Essa é uma pergunta que não tem resposta, pois as razões podem ser as mesmas que levam uma pessoa comum a os bares, o que podemos fazer, no entanto, é relacionar os efeitos neurofisiológicos com as razões ocultas que movem um artista ao seu processo de criação.

A sensibilidade artística é uma característica que quando se adquire jamais se perde. É uma observação delicada e peculiar da realidade em uma perspectiva existencial, a qual é difícil de ser colocada em palavras para a compreensão do indivíduo comum, pois o “sentir” facilmente é distanciado do terreno da razão. Escritores, claro, tem essa sensibilidade em um nível muito mais aguçado que o normal, o que os coloca em uma categoria especial para o interesse do que está acima da ordem corriqueira.

“Primeiro você toma um drink, depois o drink toma um drink, depois o drink toma você” — F. Scott Fitzgerald

Sendo o álcool um produtor de dopamina, o neurotransmissor da vontade e recompensa, não é de se estranhar que artistas o tenham usado como meio de produção. De fato, a neurociência em todos os seus anos de progresso ainda não encontrou uma maneira perfeita (natural ou sintética) de colocar a produtividade em prática. Ela nem mesmo sabe explicar sem rodeios o que a criatividade é de fato — um guia para “ser criativo” ainda é uma utopia — então que alternativas temos para buscar a profundidade que se esconde por trás do que há de lúgubre, senão pelo uso de substâncias químicas?

“os escritores só fazem basicamente duas coisas: escrever e evitar escrever” disse David Shore, criador da série House. Escrever dói. São emoções íntimas aquelas que um autor levanta, tão íntimas que torna-se irresistível para este procurar uma válvula de escape. Além de dopamina, o álcool também causa uma redução do senso crítico (a atividade no lobo frontal), sendo este talvez o grande responsável pelo atraso da escrita.

“Você bebe?” “É claro, eu acabei de dizer que sou um escritor.” — Stephen King

Constantemente nos deixamos levar pelo medo de não correspondermos a aquilo que mais idealizamos, nossos sonhos são algo precioso, muitas vezes guardados no baú dos segredos, da subjetividade confidencial do que nos torna únicos: a própria imaginação.

As razões que levam alguém ao ato de beber podem ser encontradas pela mesma circunstância do que traz um autor de encontro a escrita: euforia, alívio de estresse, curiosidade, fuga da realidade, entre outros motivos que não podem aqui serem verbalizados. Vendo por esse ângulo, a produção artística não é uma exclusividade do alcoólatra e nem vice-versa, é uma questão tão complexa que não se chega a uma fórmula equacional.

Ainda sim, podemos concluir que a busca pela transcendência é um desejo comum em qualquer artista, e o álcool é um possível canal para essa vontade de extrapolar. O que não podemos prever é o dano que tal ambição acarreta…