AMOR AFROCENTRADO É VOCÊ CONSIGO MESMO

Cena do filme “Moonlight”, 2016.

Recentemente terminei um relacionamento afrocentrado¹, e sim, pensei que com uma pessoa negra poderia aplacar e parar com essas nóias de solidão. Grande engano.

A solidão do povo negro, aqui especificamente do negro gay, se dá por níveis de preterimento² e colorismo racial. Vou explicar:

Colorismo diz sobre os diversos tons da pele negra. São vários. Porém, dentro de uma sociedade racista nenhum dos tons se escapa do racismo. Podemos atenuá-lo nos embranquecendo, alisando o cabelo, usando tons claros de maquiagem, nos vestindo como pessoas brancas. Mas a coletividade não nos deixa esquecer da nossa negritude. Dessa forma, quanto mais ostentamos nossos traços negróides naturalmente (cabelo, boca, nariz, pele etc) mais o racismo vai nos atingir.

Os níveis de preterimento vão ao encontro dessa ideia: o negro retinto, de pele escura, vai ser sempre o mais preterido, mais solitário. Quanto mais claro o negro, quanto mais escondidos seus traços negros, menos preteridos seremos.

Mas calma aí, não é tão simples como parece. Mesmo tendo pele clara, nada de ser gordo ou muito magrelo. Isso vai te anular de qualquer tipo de relacionamento afetivo com qualquer pessoa, sendo branca ou negra. Os relacionamentos não irão passar de simples fetiche, o negão do pau grande. Se for afeminado só vai ser uma bixinha, e todo mundo quer um negão da porra.

Pode parecer simples: ame o seu semelhante! Ame negras/os. Mas amar sozinho machuca. E quando a ficha cai já é tarde demais. Não nascemos para o amor, nem para o prazer. A sociedade nos vê como a séculos atrás: seres para servir.

Parece que trazemos o armário para a vida adulta. Estamos pelos cantos, esperando o príncipe do ébano e nunca encontramos. Será que a velhice vai ser mesmo sinônimo de solidão? A sexualidade é um dos aspectos psíquicos que mais se salienta nas relações humanas. A etnia raramente é considerada.

E sim, aquele desconstruidão pode até te iludir, andar de mão dada nos rolês com outrxs empoderad@s mas no fim só quer um normativo de tanquinho pra apresentar pra família. Até em relacionamentos afrocentrados, é bonito tirar foto com você, ganhar likes em redes sociais, mas no fundo você sabe que vai ser largado e esquecido pois “não deu certo”, e logo depois dá certo com qualquer um menos pior que você;

O pior de tudo é saber que você nunca vai ser levado a sério. “É mimimi, blábláblá, vitimismo”. A invizibilização de sempre. A temática até é pop, mas nunca chega no mundo real. O filme Moonlight reacendeu o debate, porém ainda estamos debatendo para nós mesmos. Além de marginalizados, mortos e hipersexualizados, estamos sozinhos. A série do momento “Dear White People” também se coloca nesse debate, mas será que só o que queremos é expor as feridas sangrentas para sermos objeto de misericórdia?

Isso não é mendigar atenção. Só desejo que as pessoas possam pelo menos entender a dor de ser sempre o que beija no escuro dos cantos, pelo simples motivo da cor da pele.

Não, não irei cair aqui no discurso de que um dia vai passar. Que o príncipe existe. É mentira. Infelizmente precisamos nos acostumar a ser os melhores nas atividades que fazemos para ter reconhecimento, de saber que o dia da morte pode ser hoje e no fim estaremos sozinhos, barganhando migalhas de afeto para não ser o tio solteiro com 74 gatos.

E quanto a solução? Não sei. Não sabemos. Podemos tentar descolonizar as relações, podemos tentar amar nossos/as irmãos/ãs negras/os, podemos tentar outra vez simplesmente amar. Mas não se esqueça: no final, o relacionamento afrocentrado é você consigo mesmo. Não deixa o racismo te rebaixar, não deixa o vazio dos outros te esvaziar.

Seja forte e não se esqueça: Pretos/as podem tudo, pretos/as podem mudar o mundo.

¹ AFROCENTRADO: existem algumas concepções de relacionamentos assim, duas seriam: a escolha de parceiros/as negros/as, percebendo as diversidade de orientações sexuais e de gênero. Seria a de um amor que percebe a cor em relacionamentos como fator determinante de suas relações e extensões. A outra seria a concepção de um amor não entre pessoas negras, porém referenciado na concepção africana de amor. Utilizo a primeira no texto, por pessoalmente ter mais retórica quanto a isso, não querendo dizer que seja a correta.

² PRETERIMENTO: é a ideia de desprezar ou deixar alguém de lado, não levar em consideração, omitir a presença.