Sobre ser a BIXA PRETA_

Oi oi, olha eu aqui de novo. No meu último texto, escrevi algumas percepções minhas sobre a solidão do negro gay e relacionamento afrocentrado e agora minha paulada é outra: qual o peso de ser um negro gay?

Sobre ser gay assumido, é uma experiência um tanto recente. Deve fazer 1 mês que falei pros/as meus/minhas parentes. Por outro lado nunca tive que me assumir preto. Mas não vão achando que foi fácil me aceitar negro . Tenho pele clara, nunca deixei meu cabelo crescer a ponto de deixar os cachos evidentes. Foram as pessoas que disseram que eu era negro.

“Ô neguin, vem aqui”, “Teu nariz é diferente né?”, “Já pensou em alisar o cabelo pra poder deixar ele comprido?”

Tive sempre alguns apelidos e o que mais me lembro era o de “Cirilo” (o menino negro que nenhuma menina quer). Justamente pela confusão da adolescência, hormônios e coisa e tal no começo do ensino médio, eu preferia aceitar. Tá, talvez aceitar era a coisa que eu mais fazia. Aquela zombação me fazia dizer que eu não me incomodava, que tava tudo ok, eu até ria junto e ajudava nas piadinhas. Tudo pra não ser o “mimizento”, e o medo dessa piada se tornar viral era grande.

Enfim, se tornou viral. Até os professores passaram a me chamar assim. Mas quando me procuravam pra perguntar se eu estava sofrendo o conhecido bullying, eu negava. Por fim, mudei de cidade e tudo aquilo era passado.

Por dentro, a sensação de que todos me enxergavam como o Cirilo era constante e o jeito afeminado não ajudava em nada. A negação da famosa pergunta “tu é gay?” era constante. Mas no fundo eu sempre soube. Todos sempre souberam, mas sempre senti que não existia espaço pra pessoas como eu no mundo. E todas nós, bixas pretas, já passamos por isso.

Não que seja fácil falar sobre isso. Mas é necessário. Descobri na militância que para fazer as pessoas te ouvirem, temos que sensibilizá-las sobre nossas dores. As feridas ainda estão abertas em outros corpos, outras mentes, outros irmãos e irmãs. O movimento negro se tornou minha terapia em grupo e por isso compartilho com vocês todos/as.

Não vou entrar aqui no mérito do preterimento e relacionamentos interraciais. Talvez em outro texto (rs). Escrevo aqui mais como um desabafo de um jovem que recentemente se aceitou como negro e se assumiu como gay. Tarefas nada fáceis.

O não reconhecimento de pessoas como nós no meio em que vivemos é problemático. É o sentimento de solidão, exclusão, como se fosse uma carga que precisamos carregar nas costas de olhos tapados e bocas fechadas. Encontrar bichas loucas pretas é confortante, ao menos pra mim. Quem nunca olhou pra aquele/a lacrador/a e quis perguntar se podia andar junto no intervalo?

MC Linn da Quebrada com outros artistas que lutam pela representatividade LGBTTT.

Aí vai uma novidade: NÃO VAMOS MAIS NOS CALAR!

Já dizia a deusa Ellen Oléria: “a minha voz transcende a minha envergadura. Conhece a carne fraca? Eu sou do tipo carne dura”

Preto/a, pretinho/a: se ame! Somos lind@s, poderos@s e resistentes! A nossa essência é pura luta. Fomos forjados de coragem. Chega de usar batom escondido. Bota essa carinha preta pro mundo, mana! Quando a gente se ama, abrimos a porta para o mundo em que somos o que queremos. O que temos de mais sagrado é a nossa força. Nosso interior está ferido por traumas, cicatrizes e conflitos que não entendemos. O exterior deve refletir o que somos: beleza e ancestralidade.

Sofremos racismo no movimento LGBT, homofobia no movimento negro. E a resistência é o que sobra. Infelizmente precisamos ser os/as melhores naquilo que fazemos para sermos reconhecidos. Nos espaços em que participei, nunca tive o privilégio de não saber algo. Seja sobre colorismo, cotas, apropriação cultural e por aí vai. Tive que me tornar minha própria referência. E cada um de nós é uma referência.

Debater abertamente temáticas como essa foi um processo um tanto complexo. Quanto mais eu tentava incidir as pautas étnicas nos espaços, mais minha vontade de desistir aumentava. Quanto mais denunciamos o racismo, mais a ofensiva vem forte. Até o momento onde um amigo e professor falou em um dos espaços que participei: “quando não pudermos mais falar, eles terão vencido”. Nós, bixas pretas que conseguimos nos encontrar, podemos e devemos ajudar nossos/as a encontrar sua emancipação.

Por fim, e muito importante: ande com a bixa preta que você admira no intervalo.