Acerca da Liberdade

Ontem eu sonhei que cruzava o rio e adentrava as ruínas. Acordado, nunca fiz mais que observa-las a partir da margem de cá. O silêncio lá deve ser paralisante; a única coisa para se ouvir seria o vento e, de vez em quando, o estalar de uma das estruturas enquanto elas se acomodam em sua própria destruição. Aqui, sentado, estou novamente entre aquelas ígneas colunas e sob mim, lá embaixo, posso sentir o rumor da placa cedendo — ela está me dizendo que viajamos rumo ao norte.


Parte de mim sempre quis visitar as ruínas mas nunca as visitei, em parte pelas razões que descrevi no primeiro memorando que lhe enviei. Você talvez não se lembre, mas ele retornou para mim, mais como uma sensação física do que como um objeto intelectual, todas as vezes que sentei-me nesta mesa porque ele foi a primeira coisa que escrevi com uma caneta manufaturada depois de chegar em Basra — uma amenidade que me fez perceber o que Basra realmente significa. O memorando estabelecia que havia uma série de razões para não acreditar nos rumores de que os níveis além do rio não eram tão altos quanto as autoridades havia divulgado e que essa situação não mudaria mais rápido do que elas mantinham. Nunca visitei as ruínas, ademais, porque isso seria contra a lei e eu sempre tive uma disposição para obedecer a lei, ou, de qualquer maneira, sempre temi que o pescador cujo barco eu poderia emprestar para atravessar o rio fosse na verdade um policial disfarçado. Além disso, finalmente, eu nunca cruzei o rio nesses 20 anos porque sempre estive consciente do investimento que você fez em mim, financeiro e humano. Caso a ideia de atravessar o rio realmente me dominasse, eu certamente pediria permissão a você antes — o que significaria que eu nunca atravessaria o rio porque, pensando na minha segurança, você negaria tal permissão.

A essa altura você já deve ter percebido por que comecei esta carta com meu sonho. Meu velho desejo de visitar as ruínas e minha velha recusa (obstrução?) em fazê-lo ilustra bem as questões mais comuns a respeito daquele tópico sobre o qual você solicitou minha investigação: o tópico do livre-arbítrio.


Dado que eu sei que visitar as ruínas seria contra minha disposição, é mesmo possível dizer que sou livre para fazê-lo? Se o Estado proíbe uma ação que qualquer agente racional consideraria inaceitável, há alguma liberdade que é infringida por isso? E se minhas obrigações contratuais e (podemos chamá-las assim) emocionais são incompatíveis com tal ação, posto que repudiar essas obrigações não seria de meu interesse em nenhuma circunstância, seria correto afirmar que estou sendo impedido de executá-la? Onde, aqui, há espaço para o arbítrio? Trata-se de uma questão delicada para um serviçal analisar, mas creio que esta não é uma preocupação exclusiva de quem se encontra em tal situação (ademais, não creio que você impediria que eu tratasse o assunto com candor). Embora você tenha feito esse pedido de investigação, vinte anos atrás, talvez por mera curiosidade, o sistema de memorando que você acabou por estabelecer é largamente pragmático — um memorandos procura oferecer o melhor conselho proporcionado por um esforço razoável em um período de tempo apropriado, conforme dita a fórmula que sempre repito aos membros mais jovens de nossa equipe — e portanto posso presumir que você também desejou visitar as ruínas um dia. 20 anos atrás. Também no seu caso, tal desejo seria obstruído pela prudência, pela lei ou por um senso de responsabilidade.


Há outros desafios que podem ser feitos ao conceito de livre-arbítrio, embora eles tendam a se tornar cada vez mais abstratos. Suponha que amanhã de manhã seu desejo de visitar as ruínas se reacenda e que o preço de tal visita pareça valer a pena. Suponha também que um cientista dos velhos tempos observe seu cérebro durante a noite enquanto você considera essas possibilidades. Podemos imaginá-lo usando um daqueles scanners em tempo real que costumavam ser usados por médicos e que este scanner está ligado ao melhor gerador que temos aqui em Basra e que, por algum milagre, ele estaria produzindo a voltagem estável necessária para fazer com que esse instrumento delicado funcione. Como já estamos no reino do imaginário, vamos assumir que a imagem que esse scanner produz é mais detalhada que qualquer técnica equivalente dos velhos tempos e que nós tivemos a sorte de encontrar um computador em bom estado para registrar numa memória e processar a localização e o vetor de movimento de cada um dos elétrons de seu cérebro enquanto estes se chocam através dos seus neurônios, de modo que seria possível prever seus trajetos. Se o computador prever, às 2:30 AM, que você acordará às 9 AM decidido a cruzar o rio apesar de tudo, seria correto afirmar que você fez essa escolha de volição própria?

Essa polêmica trivial era o principal a desafio proposto pelos filósofos (como eles se autodenominavam) nas décadas anteriores à última presidência. Isso é difícil de acreditar agora, mas o progresso tecnológico da época parecia sugerir que um dia seria possível observar cada detalhe do substrato biológico da mente de uma pessoa. Há razões para acreditar que as preocupações humanas com relação ao livre-arbítrio mudaram em conjunto com o curso da História. No século XIX, quando as chamas da religião pareciam estar se extinguindo, o problema era como reconciliar o livre-arbítrio, imaginado como espontâneo, com a moralidade, que era considerada imutável e absoluta. Uma pessoa que compreendesse a natureza da virtude poderia realmente fazer escolhas que não fossem virtuosas? Os filósofos do século 21, como eu disse, estavam preocupados com o problema de um computador superpoderoso. Eles temiam que se um computador fosse capaz de adquirir conhecimento perfeito (algo completamente hipotético) do mundo num dado momento tudo estaria ao alcance de suas predições — todas as decisões seriam sabotadas por ele. Mesmo aqui, na biblioteca que organizamos em Basra, as discussões em torno dessa ameaça são tão extensivas que eu mesmo quase caio (contra a minha vontade?) na tentação de dar mais atenção a ela do que acredito ser razoável.


Você talvez se lembre da Angie. Ela serviu como sua motorista, quase 15 anos atrás. Um dia ela admitiu publicamente que acreditava ainda existir espaço para uma república neste continente e que ela lutaria por isso. Um relatório dessas intenções deve ter chegado aos seus ouvidos. Ela era engenhosa na arte de sobreviver no ermo e reagir a situações inesperadas, como motoristas devem ser, e creio que ela se considerava tão valiosa que não se importava com o que você poderia ouvir a respeito desses planos. Você deve se lembrar que eu lhe confessei o desejo de segui-la.

Você respondeu que eu não iria. Talvez você houvesse adivinhado que eu me apaixonara por ela. Naquele momento você era, de certa forma, o computador capaz de prever o futuro. E, realmente, no dia em que Angie partiu, eu decidi ficar. Com meus próprios recursos, comprei algumas provisões para ela — carne defumada, ameixas em conserva e cheddar — e deixei tudo ao lado da mochila que ela levaria. Eu não fiquei por perto, é claro. Quando voltei e vi tudo intocado (exceto pela mochila, que havia desaparecido), senti meus joelhos cederem um pouco. Talvez ela ainda não houvesse partido. Disseram-me que ela já estava carregando muitas coisas.

Seria estúpido e injusto afirmar que você me privou da liberdade de ir simplesmente por me conhecer melhor do que eu mesmo me conhecia. Essa anedota não me soa pessoal, aliás. O passado, depois que um certo tempo se passa, ressurge e se torna disponível para a análise, quase como se pertencesse a outra pessoa. Obviamente, o passado nunca pertence a ninguém, tem-se apenas custódia sobre ele.


Estou tentado a considerar o argumento por encerrado com essa anedota. Eu estaria sendo negligente, no entanto, se não mencionasse uma variação da hipótese do computador todo-poderoso que deve ser considerada: na tradição filosófica mais ampla, ela seria a ideia de deus. Os filósofos do tempo do último presidente tendiam a argumentar contra a ideia do computador através de limitantes físicos. Afinal, não é difícil imaginar que um computador capaz de simular cada colisão de cada partícula teria que ser grande a ponto de ocupar todo o espaço do universo e operar ao longo de todo o tempo. Desde a Grécia antiga existia uma ideia de que as partículas da matéria eram necessariamente imprevisíveis e, portanto, seriam um refúgio para o livre-arbítrio. Se num nível profundo e invisível o caos predominasse, seria possível escapar do olho da onisciência. Ou pelo menos essa era a esperança desses pensadores.

Os poderes de um deus são isentos desse tipo de escrutínio, contudo. E, de qualquer maneira, seres humanos vivem num extrato do universo em que a interações subatômicas se somam a ponto de tornarem-se tão regulares quanto bolas de billard (aqueles brinquedos de marfim cuja simetria é tão fascinante que ainda os preservo na memória) se chocando. Por fim, a liberdade do caos certamente não é o tipo de liberdade a que se almeja quando o livre-arbítrio é mencionado (como o prazer evocado pelo som da colisão de duas bolas parece sugerir).

Seria a liberdade nada mais que uma questão de escala? Enquanto escrevo, as folhas do meu chá flutuam sobre a água quase como se fossem livres. Nós também, como mencionei no início deste memorando, estamos flutuando sobre o manto terrestre.


Enfim, o problema da onisciência me parece infrutífero. Acredito que não passa de um resíduo do conceito que um dia foi chamado de deus, embora os cientistas da época do último presidente raramente o citassem pelo nome. Afinal, que ser poderia ver o tempo dessa forma — como um mosaico de momentos simultâneos, o passado ao lado do presente e do futuro — se não um deus?

A questão é que talvez isso seja uma impossibilidade. Talvez o tempo seja real , talvez o futuro ainda não exista e o passado já não exista mais. No exato momento em que vi as provisões intocadas e percebi que eu queria desesperadamente que a Angie ainda estivesse por perto, naquele instante, eu também soube que eu estava desejando isso justamente porque era tarde demais — imediatamente, fiz um esforço para me tornar o tipo de pessoa que teria partido com ela em vez do tipo de pessoa que ficou para trás. Essa pessoa, que não era eu, seria mais livre e feliz, mesmo que ela, por outra razão, também não houvesse partido. Eu cometi um erro. Posteriormente, calculei como essa pessoa que teria partido se sentiria ao ser frustrada nessa intenção e decidi emular esses estados mentais. Eu não me permitiria sentir rancor, mas manteria minha mente aberta para o arrependimento.

Se os filósofos de antigamente ainda estivessem vivos, provavelmente perguntariam de onde eu tiro essa certeza de que o futuro não existe de uma forma tão diferente — abrindo-se em veredas de possibilidade — da que o passado não existe mais. Se o universo se resumisse a bolas de billard, eu teria que admitir que estou sendo sentimental e que estou apenas fingindo que essa alteração que propus para mim mesmo realmente partiu de mim — como aquele cavaleiro que persuade a si mesmo de que foi ele quem decidiu seguir o caminho que seu cavalo já estava percorrendo. Talvez a própria alteração seja ilusória. Ainda assim, creio que os filósofos careciam de fé (irônico, considerando seu apego à ideia de deus). Sob minha perspectiva, toda existência é uma experiência e a repetição da experiência. Até o organismo mais simples repete sua espécie através da herança genética, e um ser humano tem quatro tipos de memória: o sistema límbico, que associa situações a excitações; a memória muscular, que lhe permite aprender a dirigir ou nadar; a cultura e a linguagem, onde o conhecimento é guardado em formas impessoais; e as lembranças de sua história individual. Humanos são únicos no sentido de que repetimos nossas memórias de forma não determinística. Essas representações mentais podem ser alteradas pelo estudo e a interpretação (ou mesmo pelo erro). Seria mesmo impossível aprender com nossos erros?


Sem essa fé, os filósofos ficavam presos na quadratura do círculo. Através de descrições criativas, eles tentavam tornar o livre-arbítrio compatível com um futuro imutável. A vida era, para eles, uma experiência não tão diferente de ler este memorando. Quando seus olhos finalmente o percorrerem, as decisões que envolveram sua confecção já terão sido tomadas há muito tempo. Qualquer suspense que você possa sentir é uma ilusão, um efeito colateral da forma como o cérebro humano processa textos sequencialmente. Você pode não ser capaz de adivinhar o final, mas isso não o torna menos imutável. Eu mesmo, no papel de escritor, sou constrangido por limites, especialmente no sentido de que procuro contar-lhe aquilo que acredito ser verdade. Eu não tenho controle sobre minhas crenças. Por definição, ninguém tem. Minhas escolhas se limitam a mentir ou escolher palavras mais convincentes. Minha liberdade, estranhamente, parece estar confinada a espaços estéticos.

Sua paciência, de qualquer modo, é um limite estético para mim e é em nome dela quero lhe garantir que essa digressão tem propósito. Ao ponto: um argumento paralelo dos velhos filósofos era o de que um agente racional não deseja livre-arbítrio. Ninguém quer uma escolha livre entre o Cabo das Tormentas e o Canal do Panamá — queremos o caminho mais curto. Ninguém quer escolher entre uma corda de seda e uma de cânhamo, quer-se apenas a corda mais resistente. Nesse sentido, o livre-arbítrio é um indício de desespero — uma crise e não uma vantagem. (E esse todas as pessoas fossem levadas a acreditar que os únicos tipos de escolhas válidas são as que maximizam seus benefícios econômicos, e se seus desejos fossem confinados em um espaço cada vez mais restrito, seria como se todas as partículas caóticas do mundo formassem bolas de billard…)

Por essa lógica, sou eu, o conselheiro, quem lhe priva de livre-arbítrio — como Próspero e Ariel.


É difícil dizer se esse sistema lhe é realmente benéfico. Não no caso da escolha de uma corda, é claro. Imagine que o objetivo é escolher sempre o melhor romance para o seu gosto, como foi o caso de um conjunto de serviços computacionais da época da última presidência. Como prever o gosto de alguém? Seria possível encontrar um romance que lhe agradasse de acordo com escolhas prévias, mas não é evidente como isso se daria com um tipo de romance que você já não houvesse experimentado sem incorrer num risco. Talvez questões estéticas sejam irredutíveis em termos de liberdade. E se uma escolha crucial na vida de alguém estiver mais próxima de uma escolha estética do que de uma escolha racional? Isto é, uma escolha que também envolve as peculiaridades em torno da escolha. Nesses casos sempre corremos um risco de falha.

Se o livre-arbítrio só pode ser exercido na ausência de informações adequadas, só é possível ser livre fora do mundo factual. A ficção é, possivelmente, a maior forma de repetição não determinística. Eu posso escolher imaginar que a Angie decidiu procurar abrigo nas estruturas da outra margem do rio.


Toda manhã, ela surrupiava seu jornal e lia com a atenção de quem faz algo proibido. “Olha aí o homem que vai solucionar o mundo”, ela dizia sempre que me via. Eu era muito jovem e gostava de ser chamado de homem por uma mulher como ela. Pessoas como eu sempre temem passar pela vida como meninos e, então, como ex-meninos velhos sem jamais nos tornarmos homens. Um dia tive coragem de pedir que ela olhasse um mapa comigo. Eu disse que a experiência dela como motorista me ajudaria a corrigir a posição das estradas. Claro, o que eu realmente queria era saber o que diríamos um para o outro quando estivéssemos sozinhos. E quando chegou a hora, eu disse, estupidamente “por que você sempre diz que eu vou solucionar o mundo?”

“Isso te incomoda?”

Ela sabia que não.

“Bom, e você não vai?”, ela continuou.

“Você vai lutar?”, eu perguntei. Ela sempre foi meio mala, e acho que era isso que eu admirava nela — a impertinência.

“Uma vez eu guardei uma grana pra um kit.”

“Como você vai sobreviver lá fora?”

“Ouça o que você tá dizendo”, ela respondeu. E então ela perguntou o que eu iria fazer aquela noite e se ela poderia me visitar. Correr o risco foi a escolha certa. Tudo deu certo, pelo menos por dois meses.


Isso foi um ano antes de você me fazer uma proposta parecida, que também não passou de dois meses.

Será que você me fez esse pedido de pesquisa porque ficou sabendo do kit que eu comprei recentemente? Talvez este memorando possa ser entendido não como uma resposta, mas como uma aposta entre nós dois sobre a resposta.