Bichado 1/?

É ideia da Chanda essa história de montar uma criatura.

A Chanda é minha melhor amiga. Não, a gente nunca transou. Somos próximos desde a faculdade e teve uma época em que a gente se falava por telefone todo dia — sabe do que eu tô falando? A Chanda é bem gata e eu também não sou de se jogar fora. A maioria das pessoas não acredita quando a gente diz que nunca ficamos. “Por que não?”, eles perguntam. A gente normalmente brinca que é porque eu sou branco e ela é morena — e, sabe, isso é basicamente a verdade também. Claro, mamãe e papai Seng me adoram, mas eles iriam alucinar se a gente saísse. Eles são das antigas assim mesmo.

Acho que dá pra dizer, então, que o racismo nos impediu de cruzar a linha e, nesse caso, eu digo “boa, racismo”, porque a Chanda é minha melhor amiga e eu não trocaria isso por nada. Eu nunca nem tive fantasias com ela — pelo menos não desde que ela teve o primeiro filho, uns quatro anos atrás, um ano depois de casar com um good boy bem moreninho. Vou te dizer: o casamento dela foi um dia esquisito, cara. Nada contra o Vik, mas acho que a Chanda poderia ter se dado melhor. Bom, que se dane, é a escolha dela e eu respeito isso.

Mas então, voltando, eis que um belo dia eu tô na minha cozinha, vasculhando a geladeira atrás de aspargos e falando um monte de merda sobre o meu emprego pra Chanda pelo telefone. Como sempre.

- Eu tô de saco cheio desse seu papo do trampo. É muita negatividade.

Normalmente eu ficaria super defensivo, mas a Chanda tem essa liberdade de dizer o pensa pra mim sem problema.

- Oi? Eu NUNCA falo do trabalho contigo.

Ela tem uma coisa de carregar no sotaque ao falar o meu nome quando tá brava comigo: “Vah-uh-si-e-li-eh!”

E aí ela ficou, tipo, “você sempre fala do trabalho”, e eu fiquei, tipo, “claro que não”, e ela, tipo, “fala sim. Tá sempre aí agindo como um bebezão buá buá buá”

- Eu reclamo tanto assim, mesmo?

Ela não respondeu porque nem precisava, né. Juro que dava pra ouvir o sorriso dela nessa hora, um daqueles cliques úmidos, sabe.

- Dá um tempo

- Eu dou um tempo toda hora.

- Dê mais tempo, então!

- Como? Eu não posso mais faltar e não vai rolar tirar férias esse ano.

- Então monta uma criatura.

Daí eu fiquei, tipo, “tá falando sério?” e ela “sim.”

- Sei lá, Chan. Isso não seria, tipo, o cúmulo da indulgência? É um motivo meio besta pra trazer um ser vivo pra este mundo, só pra tirar licença.

“Vasily.” Olha aí o clique de novo. “Foi basicamente por isso que eu engravidei”

- Olha só como você é horrível!

Sei lá se ela tava zoando. Talvez meio que sim, meio que não. Ela continua insistindo pra eu fazer logo a dita-cuja, dizendo que às vezes a gente precisa de uma grande mudança na nossa vida pra mudar nossa perspectiva das coisas. A Chanda consegue ser bem persuasiva quando sabe que tá certa.

Então eu aceitei o conselho dela e decidi começar a montar a criatura.