Bichado 2/?

Eu penso muito antes de tomar as decisões mais difíceis. Há um monte de maneiras de criar uma vida — ao contrário de antigamente, quando a gente só tinha uma opção — então você tem que pesar as alternativas e escolher o que faz mais sentido pra você. Não quero contratar um consultor. Isso seria estranho. Fora que me deixaria bem tímido. Há certas coisas que você tem que decidir por conta própria. Então eu passo um tampão online vendo o que as pessoas estão fazendo pelo mundo afora, lendo testemunhos e reviews. Uma das primeiras coisas que eu aprendo é que tudo que eu achava que sabia sobre o assunto está errado. Por exemplo — quando é a melhor hora pra dizer pra pessoas que você começou a montar uma criatura? Antigamente, era normal esperar a primeira batida do coração antes de anunciar. Agora tem caras por aí que postam as especificações no Reddit MESES antes de dar boot.

Mas eu não penso em pedir uma dicas porque a gente já discordaria logo na decisão mais importante: “bits ou carne”, como dizem por aí. Pra mim não tem mistério, eu não quero nada digital como ele. Acho que dá pra dizer que sou meio conservador nesse sentido. Além disso, depois que eu decidi seguir adiante, a Chanda me deu uma cópia desse livro, “Estética da Demiurgia”, e fiquei fascinado. Eu não quero só fazer um download e pronto. Se eu vou criar um bicho, vai ser com as mãos sujas de sangue.

Depois de escolher ir pelo caminho da carne, a próxima questão é que tipo de coração usar. Pra mim, esse é o componente mais importante. É simbólico, saca. Então eu tenho que ter certeza de que fiz a escolha certa. Tem umas empresas por aí que sintetizam um coração pra você num troço que parece um escafandro. É mais pessoal que comprar um pela Amazon, verdade, mas ainda me parece meio artificial demais. Eu já optei pelo caminho orgânico, faz sentido me ater às opções mais naturais.

E uma delas é o coração de crianças que acabam de morrer. Eu sei — eu também achava isso 100% errado. Mas quanto mais eu lia a respeito, mais sentido fez pra mim. Essas crianças morrem de causas naturais e tem todo um sistema, envolvendo várias agências reguladoras, que garante que os vendedores são os próprios pais da criança e não um assassino ou algo do tipo. É um processo civilizado. E o seu dinheiro acaba ajudando um pessoal bem marginalizado, então tem até um ângulo humanitário na coisa, sabe? Por que crianças e não velhos que já deram o que tinham que dar? Bom, quando o assunto é o coração, quanto mais jovem o tecido, melhor. E você tem que evitar a criação de um incentivo perverso no mercado — no caso das crianças os beneficiários da morte são pessoas que em nenhuma circunstância gostariam que o doador morresse. Eu pensei bastante e conclui que é um sistema seguro e legítimo. Tem até um artigo sobre isso no BuzzFeed Brasil e o argumento do cara é, tipo, “se você acha que pais chineses matariam os próprios filhos por alguns trocados de gente rica no ocidente, você é um tremendo racista.” E ele não tá certo? Isso me deixou bastante confortável com a minha compra.

Ok, então eu peço o coração e passo a semana toda super ansioso pra que ele chegue logo. Eu já li alguns reviews sobre corações estragados e, cara, é um pesadelo. Você não imagina o número de regulamentos que existem sobre o envio de tecido humano pelo correio. Se imprimissem o TOS do site que eu usei, daria a altura do meu prédio. Claro que que li tudo. É bem diferente de pedir um DVD, pode ter certeza. Se você receber um coração podre, só dá pra pegar todo o dinheiro de volta seguindo um procedimento muito complicado. Deve ser pra impedir tráfico humano, mas que pé no saco, ein? Me dá preguiça só de pensar.

Quando o coração chega em estado perfeito na caixa criogênica, eu suspiro aliviado. Eu descongelo ele e ligo pra Chanda.

- Tá batendo?

- Sim, Tá no “líquido nutricional” ainda. Péra, vou te mostrar.

Eu gravo um vídeo com o meu celular.

- Eca!

- Haha, muito demais, né não?

- Vas, cidadão da vomitolândia.

Agora que eu tenho um “pulso”, finalmente posso anunciar minha criatura pra todo mundo (eu disse que eu era um cara tradicional). Que será que vão dizer? Bom, claro que todo mundo vai fazer aquele postzinho básico “parabéns!”, “você merece”, “lindo!” e blá blá blá. Mas o que ele vão pensar a respeito de verdade? É um tremendo passo em direção à vida adulta. E não dá pra negar que ainda existe um estigma: um solteirão montando uma criatura por conta própria.

Mas que se dane. Eu tenho um apartamento que é até grandinho. Eu moro bem longe do centro. Seria loucura não morar, se você considera a economia. Eu poderia ter uma caixa de sapatos no centro ou este lugar. E sabe o que mais? Na época que comprei, eu já estava pensando no futuro, considerando a possibilidade de montar uma criatura. Você tem que ser muito doido ou muito rico (o que dá na mesma hoje em dia, né?) pra considerar uma criatura num lugar com a densidade populacional do centro. Quando eu perdesse o controle — assumindo que isso aconteceria — o dano colateral seria enorme. Aqui tem bastante espaço. Se a sua criatura ficar violenta, ela não teria muita oportunidade de causar danos antes da Tropa neutraliza-la.

Além disso, meus cachorros adoram o quintal.