Dentro
Certa vez, durante a última visita que fiz aos meus pais no Maine, dirigi o carro da minha mãe até um mercado local, uma caixa cinza no meio de um amplo estacionamento. Letras brilhantes anunciavam seu nome dia e noite. Estacionei próximo a uma estrutura elaborada que deveria ser usada para abrigar os carrinhos de compras, mas a maioria das pessoas preferia deixa-los em qualquer outro lugar. Um homem afetado, aparentemente portador de Down, errava de um lado para o outro coletando-os com um par de mãos vermelhas.
Comprei os suprimentos necessários para sobreviver à temporada: três garrafas de vinho, uma barra de chocolate, uma lixa de unha e um saco de limões. Ao retornar, senti vontade de ter usado um dos carrinhos em vez de uma sacola. Eu queria sentir a satisfação de ser observada pelo homem ao devolver um deles no lugar apropriado.
De volta ao estacionamento, um sedan cinza havia parado bem ao lado do carro da minha mãe. Eu abri a porta e deixei as compras no banco do passageiro enquanto observava meu novo vizinho. Era um carro velho e desgastado. Eu faço isso às vezes: reparo em alguma coisa sem significado enquanto minhas mãos realizam algum trabalho menial. Gosto da ilusão que emerge nesses momentos. É como traçar uma fronteira dentro de si mesma.
O porta-malas do sedan estava aberto, sua tampa flutuava alguns centímetros sobre a linha na qual ela deveria se encontrar com o resto do carro. Eu fechei a porta do carro da minha mãe, coloquei a chave no bolso, me aproximei do sedan e levantei a tampa com uma mão nua.
O porta-malas estava vazio. Sem pensar muito a respeito — ou, mais precisamente, pensando “eu não estou pensando nisso” — entrei na cavidade, dobrei meus joelhos para poder deitar e ergui minha mão. Tateando, encontrei uma saliência para apoiar os dedos.
Que conveniente, pensei, e me cerrei na escuridão.