Desculpe o transtorno, preciso falar da…

Você era a Cá desde o início. Outras mulheres tinham nomes e sobrenomes, você só precisava de uma sílaba. Carol? Carolina? Cássia? Cassandra? Apenas Cá - um ponto próximo no espaço, o princípio de um riso.

Foi assim que eu te descobri: duas letras em uma tag de Facebook indicando sua presença na foto de uma amiga em comum. Quando finalmente nos encontramos, por acaso, num festival de curtas, fiquei surpreso com quão colorida você podia ser: por ter te visto apenas naquela foto em preto e branco, havia te imaginado num mundo de tons de cinza, como num filme de Godard, onde a cor não existia porque não era necessária. Eu te chamei para um café. Você disse sim.

Tudo que você fazia era uma contradição de um ato anterior. Vestida toda de preto, com o rosto emoldurado por uma cortina reta de fios carmim, eu te vi despejar 10 colheres de açúcar e creme num espresso. Você sempre teve um jeito de olhar para uma parede quando eu perguntava algo, como se a reposta pudesse estar escrita nela. Eu gradualmente fui imerso nesse mundo de detalhes sobre você enquanto conversávamos sobre séries, músicas e as pequenas humilhações da adolescência.

Aliás, nada do que você leu até agora é fidedigno. O que você esperava? Isso é um texto, a coisa toda é uma mentira.

Sim, nós dois dissemos sim para muitas coisas desde então. Hoje eu tenho mais fotos suas do que minhas. Suas pegadas na areia da praia numa tarde de verão. Seus olhos bordô refletindo a luz da nossa janela. Você num boteco mal iluminado com cabeça inclinada para trás, os dentes à mostra, rindo. Eu passei mais tempo em sua companhia do que comigo mesmo.

Viver com você foi uma peregrinação por paisagens sagradas e remotas, por desertos escaldantes e montanhas enevoadas — lugares onde palavras são ditas, atos são realizados, distâncias são alcançadas, que eu, na minha faina ordinária, antes só podia considerar com a reverência reservada a eventos das mais sublimes e árduas dimensões.

Sim, hoje você finalmente disse não. Eu estou há horas tentando esquecer essa palavra e numa cidade como São Paulo não faltam formas de esquecer. Elas devem estar funcionando porque já comecei a cambalear de volta para casa, dobrando a Augusta em direção à Paulista. Onde cê pensa que tá indo, perguntou a coruja do alto do semáforo em frente ao Safra.

Lembre-se: isso não está acontecendo de verdade.

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Duas coisas: primeiro — a coruja era enorme, com uma silhueta branca podia ser claramente divisada sob a luz artificial da rua, e ela definitivamente era capaz de virar a cabeça para trás. Segundo — ela soava mais ou menos como o Mano Brown soaria se ele tivesse abandonado o rap para pagar as contas como dublador do Louro José.

Estou voltando pra casa, eu respondi, mantendo a calma de quem já leu O Hobbit de trás para frente.

O caralho. Tu realmente acha que ela vai abrir a porta?

Claro que vai. Eu não tenho pra onde ir e ela não ia me deixar assim.

Foda-se. A ideia é que cê tá por conta agora. Fosse eu já tinha sumido. Tem erva?

Fumei. Além disso, você é uma coruja-das-neves, nem deveria estar neste hemisfério, quanto mais estar fumando.

Cê é loco. Ela abriu as asas, dando de ombros, o que é algo absurdo para se dizer a respeito de uma coruja. Vâmo mêmo cair no papo da aparência? Serião?

Eu não teria uma alucinação tão biologicamente incorreta. Se você não gosta de ser chamada de coruja, diga o que você acha que é.

Eu sou o fedor que você não consegue tirar daquela tua camisa. Eu sou o preço das commodities na China. Eu sou o trampo que tu conseguiu sem qualificação.

Ok, entendi qual é a sua. Somos criaturas frágeis num mundo de fatos cruéis.

Entendeu porra nenhuma. Ninguém esperava muito. Tu podia até ter ficado na tua que tava de boa.

Do que você está falando? O que eu fiz?

E lá sou eu que tenho que te dizer? Geral se caga quando um artista não mostra entusiasmo. É como se o fluxo de capital se invertesse. Eles querem algo em que dá pra botar fé. Não foi o Brecht que falou pra servir uma salada com cacos de vidro? Se bobear soa melhor em alemão, mas mesmo assim ele tava falando merda — a galera merece entretenimento.

Nada do que você está falando faz sentido. Eu só estava ouvindo para esperar a ânsia de vômito passar.

Cê lembra quando tu era menos que um muleque? E a mamãe lia histórias procê nanar? As crianças entendem: uma história tem que te fazer dormir bem ou te matar. Tu certamente não quer saber de dormir, mas também não tem estômago pra matar.

Como você sabe se eu sou mesmo um artista?

Por causa da sua infância feliz? Por causa da sua infância infeliz? Sei lá, porra. Mas é o tu tá fazendo agora mesmo —batendo no teclado, mas com medinho de machucar. Sua mãe devia ter lido Como O Meu Filho Promissor Que Adorava Lego Virou Uma Daquelas Crianças Quietas Que Talvez Nem Queiram Passar no ITA, taí uma história pra manter qualquer maluco acordado à noite.

Eu pego uma garrafa vazia que havia sido abandonada na sarjeta.

Vou mandar a real, ele continua: se cê se importasse mesmo com ela, não estaria aqui. Não AQUI. Tu só liga o bastante pra usar a parada como um veículo pra si mesmo. Na boa, cê acha mesmo que ela vai ler essa merda toda?

Eu pego a garrafa e miro.

É issaê! Toda história tem que ter um mano que se fode.

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O elevador para num andar familiar. Minhas pernas agem automaticamente, carregado de metáforas, vestindo palavras como a uma camiseta, inexorável como o Masp. Logo estou diante da porta mais uma vez. Ela já trocou a fechadura. Ela jamais vai notar que estou aqui. Eu tenho que decidir se vou tocar a campainha ou arrombar a porta. Ou se vou embora.