Passagens

Uns sete anos atrás, ainda em Mileto, apaixonei-me por um amigo próximo. Ele também era o melhor amigo do meu namorado. Eventualmente, eu deixaria um pelo outro, mas isso ainda não havia acontecido.

Eu queria tanto fazer amor com esse homem que certa vez fingi dormir na casa que eles compartilhavam até que ambos saíram para trabalhar. Passei esse tempo plenamente consciente de meus mamilos sob o lençol, imaginando como eu poderia ser convincente apesar de nunca ter presenciado meu próprio sono.

Eles moravam numa casa antiga, com espaços exagerados interconectados por cômodos estreitos que hoje eram inescrutáveis mas que um dia provavelmente cumpriram algum propósito. Esperei pelos sons da porta da frente e dos carros e finalmente me levantei.

Esgueirei-me para dentro do quarto do homem que eu amava pela entrada lateral, perturbando a estante de livros que ele havia encostado contra a porta para dar a impressão de que eles viviam em uma casa normal, sem passagens secretas. O quarto estava inundado na luz oblíqua da manhã, a cama desarrumada. Peguei um livro que havia caído, “Walden; ou, A Vida no Ermo”, e uma fotografia do homem que eu amava quando criança escapou das páginas. Ele olhava para trás diante de um bosque, vestindo um sorriso torto para o clique inesperado. Eu já o amava então e simplesmente nunca o havia encontrado? Ou uma sequência inumerável de fatos havia lentamente esculpido o objeto do meu afeto? Quando o cinzel pararia? Devolvi a foto e guardei o livro.

Eu queria descobrir algo que ninguém deveria saber. Me aproximei da escrivaninha e deixei minha mão pairar sob o sol, sentindo o calor que irradiava dos objetos. Me inclinei e inalei, imaginando seu cheiro. Abri a primeira gaveta e encontrei uma cartela de remédios. Segurei-a por alguns instantes, considerando o que poderia acontecer se eu ingerisse uma daquela pílulas oblongas. Então eu li a bula, fiquei constrangida e devolvi a cartela.

Resolvi sentar no colchão, que era amparado por um amontoado de caixas de madeira. Era um arranjo instável e incompreensível. Se ele não podia comprar uma cama, porque não se contentar com o chão? Já tinha me perguntado isso nas outras ocasiões em que o homem que eu amava havia me convidado para entrar no quarto para mostrar um livro ou falar das três únicas garotas que ele havia amado e que se sucediam num círculo fechado para o resto do mundo.

Fechei os olhos e vi o homem que eu amava engolindo um daqueles tabletes escuros, deitando naquela cama vacilante. Era uma imagem cheia de ternura. Quase sem pensar, mas plenamente consciente, deitei na cama dele e adormeci.