Velho Chico, Good Morning Call e a dificuldade de contemplar o que é simples

Sou uma pessoa que compartilha a maior parte do tempo com a minha mãe. Mais por conta da cumplicidade e facilidade que tenho em tratar com ela temas que, normalmente, as pessoas discorrem muito e falam pouco. Minha mãe é mais objetiva. Ela fala o que acha que deve falar, discorre um pouco sobre o seu raciocínio e finaliza com um “então é isso!”. Para mim basta, e sempre vai bastar. Basta porque, desde criança, tenho um interesse muito ávido em entender como a mente humana funciona, o que sempre me levou a navegar por mares demasiadamente densos e complexos de entendimento, mas que sempre acabaram me apresentando conclusões simples sobre meus questionamentos. Minha mente, hoje, aceita com extrema facilidade a verdade de que nem tudo precisa ser profundamente deliberado ou explicado e que existem coisas que simplesmente existem, e são do jeito que são porque elas são e pronto! Agradeço a minha mãe por ela ter me ajudado a viver a vida mais leve possível.

Entretanto, os demônios que me atormentam toda vez que me meto a tentar entender o que se passa na mente coletiva de uma sociedade tão prejudicada como a nossa parecem eternos. Mesmo com meu esclarecimento conclusivo sobre as coisas, esses espectros insistem em permitir que eu os examine e os desvende da forma que eu puder fazê-lo. E, como um vício vitalício, algo que jamais poderá ser curado, lá vai eu novamente descer essa ladeira dolorosa.

Conto a história:

Sou um ser noturno. Normalmente quase tudo o que faço é proveniente de uma atividade mental assustadora que desenvolvo depois das 22 horas da noite. Entretanto, um dia desses, me dei uma folga do trabalho e calhei de ver minha mãe caçando alguma coisa diferente para assistir no Netflix. Nada sugeri, percebi que ela estava decidida em assistir o que encontrasse de mais inusitado e foi o que aconteceu: ela deu o play em uma novela japonesa chamada Good Morning Call.

Velho Chico vs Good Morning Call.

A novela é nitidamente adolescente, tanto pela sua ambientação e temática como pela construção dos personagens envolvidos. Nao Yoshikawa e Uehara Hisashi, ambos estudantes do ensino médio, são enganados por uma fraude imobiliária e se vêem obrigados a morarem juntos no mesmo apartamento. O tema, apesar de complexo se formos analisar por uma visão social mais profunda (o Japão é um país envelhecido, e que tem opiniões por vezes radicais, ainda conservadoras no que rege as relações mais íntimas, o que não ajuda na sua condição) não tem a premissa de ser nada mais do que puro entretenimento, mas existiu algo naquela tola trama que me chamou a atenção.

Não só a mim, mas a minha mãe também. A direção de fotografia da novela era extremamente competente nos closes e nos enquadramentos responsáveis pela ambientação das cenas. A direção de arte também era muito bem feita, com figurinos bem desenhados e paleta de cores muito bem escolhida, assim como os atores encarnaram muito bem as premissas dos seus próprios personagens. É claro que toda a atuação é, por muitas vezes, exagerada, cheia de eufemismos e entonações, mas é tipicamente cultural nas obras dramáticas japonesas, sejam elas escritas ou faladas e isso é herança direta do seu Teatro Kabuki e ramificações, todos sabemos.

Contudo, após alguns capítulos assistidos, percebemos que não fora o enredo altamente despretensioso, a direção de arte competente ou as interpretações engraçadas e sem sentido que nos havia chamado a atenção.

Percebemos que o que havia nos chamado a atenção é que nos deparamos com uma plena história de amor. E só. Somente uma história de amor.

Ficamos fascinados com a simplicidade que a história fora sendo construída e os personagens sendo desenvolvidos ao passo que nenhum outro conceito ou ramificação histórica sequer tenha sido pensada em se desenvolver. O tempo todo, durante todos os capítulos, a história fala simplesmente sobre o amor. E isso basta, ou seja, não se fez necessário explorar ou explicar nenhum outro tipo de coisa presente na história para que o tema principal pudesse ser entendido como um todo.

Um dos momentos que o casal se experimenta.

Isto é, de certa forma, arrebatador porque nos ajuda a compreender, como espectadores de nossa própria agonia, porque as pessoas, quase que de uma maneira geral, não conseguem acreditar quando dizemos que “a felicidade está logo a sua frente, enxergue-a!”. Essa frase parece equivocadamente romântica, mas se dá pelo fato de que nós fomos levados a complicar tanto as coisas que não conseguimos mais nos contentar com explicações e sentimentos simples como o amor.

Explicar as coisas anda ficando cada vez mais complicado, nos fazendo mergulhar em raciocínios lógicos completamente rocambolescos usados para justificar coisas que, por si mesmas, já se bastariam para serem explicadas.

E a mente humana atual não suporta a ideia de bastar-se com a simplicidade de significados completos em si mesmos.

Vou dar um exemplo. Atualmente, na Rede Globo, a sua tradicional novela das 9 horas, Velho Chico, também tem como tema o amor. O amor é retratado de diversas formas e tamanhos na novela: o amor entre o Coronel Saruê (interpretado por Antônio Fagundes) e sua esposa Iolanda (Christiane Torloni) que passou por muitas dificuldades por conta das responsabilidades que o coronel teve que assumir quando ainda jovem. Temos o amor entre as pessoas da pequena cidade de Grotas do São Francisco, na Bahia, pelo Rio São Francisco que tanto lhes deu e que, por conta das ações de homens e governos irresponsáveis através do tempo, já não é mais tão abundante e corre o sério risco de secar. Temos o amor de Santo (interpretado por Domingos Montagner) e Maria Teresa (interpretada por Camila Pitanga), protagonistas reais da história, que por mais intenso que seja, tenta sobreviver a dificuldades da vida movidas por preconceitos, política e interesses.

Nao Yoshikawa e Uehara Hisashi, personagens principais da novela. Ao fundo, alguns dos amigos do casal.

Entretanto, enquanto que em 17 capítulos Good Morning Call consegue construir toda a sua narrativa em torno dos personagens principais e secundários ao explicitar ao seu espectador que todos amam e que tudo se trata apenas de amor, Velho Chico se desvencilha da objetividade, e em 145 capítulos (e contando), mas consegue sustentar suas próprias teses. É uma novela que fala de amor, mas trata o amor como objetivo secundário, como algo que parece não ser tão importante quanto a compreensão de mentes humanas grandemente ramificadas e altamente complicadas.

Obviamente, novelas são obras de ficção e não devem ser levadas totalmente a sério porque, acima de tudo, são obras que visam o entretenimento do seu público. Entretanto, uma novela, assim como um jogo de videogame, um livro, um produto qualquer, é pensada para levar em consideração situações e contextos semelhantes à uma realidade minimamente existente, com o objetivo de gerar algum juízo de valor em quem assiste. E pensar que justificar o amor como sendo “apenas amor e isso basta!” não seja suficiente e que se faça necessário pensar em coisas cada vez mais distantes do objetivo principal para que, de alguma forma, essas coisas se liguem ao preceito primeiro é altamente preocupante, pois é o diagnóstico que nossas pessoas não se contentam mais com o simples e que tendem a fantasiar e complicar cada vez mais coisas que não precisariam ser complicadas.

Veja, quantas obras presentes na cultura pop são cultuadas, atualmente, por serem simplesmente histórias? Quantos jogos de videogame são vendidos e cultuados pelo seu público por serem apenas jogos de videogame? Difícil pensar sob essa perspectiva certo? Mas, certamente, você vai se lembrar de histórias como, por exemplo a de Interstellar, Em Algum Lugar do Passado, A Casa do Lago ou Crepúsculo toda vez que lhe perguntarem sobre histórias que te cativaram. O que estes 4 filmes tem em comum? Todos falam sobre amor. Mas, você não se lembrará disso. Você se lembrará da carga altíssima de conceitos físicos deturpados do filme de Nolan, dos argumentos quase de ficção científica do aclamado filme de Christopher Reeve e de Keanu Reeves ou ainda da extrema capacidade de criar problemas inexistentes dos adolescentes retratados na história de Stephanie Meyer.

Interstellar e Em Algum Lugar do Passado. Filmes sobre amor ou algo a mais?

Ainda, você perguntará àquele jogador de videogames: qual jogo te marcou mais na vida? Provavelmente a resposta será em torno de algum jogo que lhe tenha proporcionado momentos dignos de um filme blockbuster do que um simples jogo de plataforma cujo objetivo fosse chegar até o fim.

As pessoas tem se sentido aquecidas neste escuro que a complexidade da nossa sociedade fornece. É claro que a tendência é complicarmos tudo. Nós vivemos em um mundo onde desigualdades sociais parecem estar anos-luz longe de uma solução, onde injustiças e situações de extrema crueldade acontecem a todo tempo. Vivemos em um mundo onde passamos a maior parte do tempo enfurnados em um escritório qualquer ganhando qualquer trocado, desprezando nossas próprias capacidades e dons porque as contas chegam e precisam ser pagas.

A mente atrofia e o corpo padece. A simplicidade se torna um conceito destoante da realidade das nossas vidas. Nada é tão simples. Nada é tão fácil. Amor dói, amor é complicado, amor é obtido e conquistado com muita determinação e luta.

O amor foi engolido pela vida como ela é. E isso é preocupante.

Mas, ainda sim: amor é só amor! É o que vocês precisam saber.

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