A Resolução da UNESCO sobre Jerusalém — qual é a importância disso?

No dia 13 de Outubro de 2016, uma proposta de resolução foi votada pelos membros da UNESCO — o setor da ONU que se ocupa de Educação, Ciência e Cultura –que apaga qualquer ligação do povo judeu com o Muro das Lamentações, a Esplanada onde foram construídos os dois Templos, e com Jerusalém no geral. O Muro somente é referido por seu nome em árabe: al-Buraq, onde Maomé amarrou seu burro de carga antes de ascender aos céus. O Templo de Jerusalém, centro da vida judaica durante os períodos de soberania da Judéia, nunca existiu assim como a Machpelá, ou o Tumba dos Patriarcas, que agora é somente a Mesquita de Ibrahim. Quando comecei a esboçar este texto, o Brasil havia mudado sua posição e se colocado contra a aprovação da resolução. Por algum motivo que desconheço, o Itamaraty mudou de posição e votou a favor, ainda que com ressalvas.

O Muro e acima dele, a Esplanada.

A reação foi fortíssima. Condenações foram emitidas pelo Primeiro-Ministro israelense, Benjamin Netanyahu que disse que a resolução é o mesmo que negar os vínculos da China com a Grande Muralha ou do Egito com as Pirâmides. O Ministro da Educação, Naftali Bennett, pediu a retirada de Israel da UNESCO e inúmeras organizações judaicas deixaram claro que existe uma ligação judaica com o Templo, Hebron e os lugares citados na resolução. O enviado do México à UNESCO, Andreas Roemer, se recusou a votar, alegando o fato de que não poderia votar contra sua consciência. Roemer, que é judeu, foi suspenso do cargo e voltou à Cidade do México para prestar esclarecimentos.

No dia 18 de Outubro, uma versão nova da resolução foi adotada, reconhecendo de forma tímida a importância dos lugares históricos para as três religiões, mas ainda chamando todos somente pelos nomes em árabe. Antes, o texto citava o Judaísmo para falar da importância dos locais em Belém e Hebron, mas não para o Templo.

Isto é somente uma pequena amostra para entender a importância da resolução. Certamente não é possível falar de tudo somente em um texto, mas podemos analisar algumas questões relevantes.

A causa palestina desde os anos 1970 se tornou célebre, principalmente entre as esquerdas globais e na linguagem política do então chamado “Terceiro Mundo”. Durante décadas, tais países se utilizaram de sua força numérica nos fóruns das Nações Unidas para criticar pesadamente o Ocidente e demandar reformas nas estruturas globais de poder político e financeiro. Os palestinos e a ação israelense eram — e são até hoje — equiparados aos negros norte-americanos sob as leis Jim Crow, aos vietnamitas resistentes contra os EUA, aos sul-africanos negros sob o Apartheid e Israel seria nada mais do que um posto de controle do imperialismo internacional. Tais frases são repetidas à exaustão, muitas vezes nas reuniões da ONU.

O problema é que apesar da aparente liberdade de debate na UNESCO ou na Assembleia Geral, tais resoluções extremadas acabam simplesmente contando com o apoio irrestrito de certos membros da Assembleia Geral e outros orgãos das Nações Unidas, muitas vezes sem um real debate sobre seu teor e muito menos sobre suas consequências. A Resolução 3379 que considerou o sionismo como forma de racismo, por exemplo, simplesmente gerou um forte sentimento de que Israel estava sendo condenado de maneira desproporcional e o país passou a se afastar de iniciativas multilaterais para a negociação da paz.

A frase de Karl Marx: “A História se repete, a primera vez como tragédia, a segunda como farsa” é muitíssimo apropriada aqui. Inclusive os paralelos com a situação da Resolução 3379 são difíceis de evitar, desde a a curiosa falta de discussão sobre o tema até a mesmíssima participação de México e Brasil com seus votos polêmicos.

Durante a década de 1970 diversas iniciativas foram tomadas para expulsar Israel da ONU, um ato que simbolicamente tem um peso imenso: a Organização das Nações Unidas é percebida de maneira positiva pela opinião pública mundial, com 58% de entrevistados de 39 países avaliando positivamente sua atuação. Curiosamente, em quase todos os países do Oriente Médio a avaliação tende a ser negativa. Sem surpresa alguma, a percepção dos entrevistados em Israel marca 70% de reprovação[1]. A dimensão simbólica de expulsar Israel da ONU é clara: um país expulso de uma organização que supostamente “mantêm a paz mundial” certamente não quer paz.

Estas “dimensões simbólicas” pouco contribuem para o real avanço de uma solução: as condenações movidas na Assembleia Geral frequentemente são fora do escopo aceitável como parâmetro de negociações para os israelenses e acabam por gerar um maior afastamento dos israelenses da ONU. É claro que pode se dizer que em certas questões foi possível alcançar um avanço mesmo que tardio, como no caso da resolução que condenou o Sionismo como racismo. Em 1991, para dar início aos Acordos de Madrid que levariam aos Tratados de Oslo assinados entre Yitzhak Rabin e Yasser Arafat, uma das condições colocadas por Israel foi a anulação da resolução de 1975. Porém, uma análise cuidadosa mostra que o desgaste político de quase duas décadas não compensou, além de que as negociações de paz de Camp David (1979) deixaram claro que Israel iria continuar com sua postura de negociar diretamente com as partes interessadas, no máximo aceitando a mediação externa dos EUA. A ONU tradicionalmente é percebida pelo governo israelense como ineficaz e tomada por países que mais atrapalham do que ajudam no processo de paz.

Em certos casos, tais decisões de fato colocaram em perigo o Estado de Israel. Um caso notável foi a situação entre Israel e Egito entre 1948 e 1956. Durante estes anos, o governo Nasser armou e incentivou guerrilheiros palestinos e tropas egípcias para se infiltrarem no território de Israel para conduzirem atos terroristas e sabotagem. Durante anos, diferentes facções do governo israelense debateram qual era a melhor estratégia para debelar a ameaça enquanto os comunicados da ONU frequentemente acusavam Israel de não respeitar o armistício entre Cairo e Jerusalém. Entre quinhentos e mil civis e soldados morreram durante estes anos, além de danos incontáveis nas cidades do sul do país. Não é à toa que David Ben Gurion chamava a ONU de “um-shmum”, um jogo linguístico com o nome da organização e “shmum” que denota desprezo.

Lembremos também que existe um acordo entre as autoridades israelenses e o Waqf — a autoridade islâmica que controla locais sagrados — desde 1967 e reforçado com os acordos de Oslo de 1994. As autoridades do Islã em Israel e nos Territórios Palestinos respondem ao beneplácito do Rei da Jordânia, que provê os fundos necessários para a manutenção da administração civil e proteção dos locais sagrados acordados como por exemplo a Esplanada da Mesquita.

Conta-se que o Rabino-Chefe das Forças Armadas de Israel perguntou ao general Moshe Dayan se não seria possível simplesmente aproveitar o momento de vitória para dinamitar a mesquita e dar início à reconstrução do Templo, ao que o general respondeu que o lugar podia ter valor histórico, mas espiritualmente pouco era importante para o moderno Estado de Israel. Desde então, judeus tem entrada restrita ali e caso subam, não podem sequer murmurar uma prece. Autoridades rabínicas passaram também um decreto que proíbe o acesso à Esplanada pois não se sabe onde ficava a parte do Templo onde se encontrava o Kodesh HaKodashim (“Santo dos Santos”) ou o espaço onde D-us se manifestava para o Sumo Sacerdote. Mesmo com tal decreto, grupos da sociedade civil israelense pedem a revisão dos acordos, pois pleiteiam o direito de se manifestarem livremente em um espaço que percebem como parte de sua fé e história.

Esta situação extremamente complicada não é sem sentido, mas uma pequena amostra das forças muito profundas que geralmente estão em jogo: messianismos políticos e religiosos, juntamente com nacionalismos que disputam cada centímetro de territorio, geram uma combinação que muitas vezes parece pouco compreensível mas que é repleta de valores simbólicos — porém bastante tangíveis.

A “questão tangível dos valores simbólicos” pode parecer apenas um palavreado acadêmico sem sentido. Não é. Em um espaço disputado como aqui em Israel, a ideia de soberania não é uma abstração mas uma realidade verificável. O Muro das Lamentações é outro exemplo de como os locais sagrados se misturam com questões de afirmação de soberania. Quando o Império Otomano dominava a região, o Muro nada mais era do que o al-Buraq, onde Maomé amarrou seu burro de carga antes de ascender aos céus. Os judeus que viviam em Jerusalém precisavam de autorização para ali rezar, além de não poderem alterar a configuração do espaço.

Com a imigração judaica para a Palestina no início do século, houve uma revitalização do espaço do Muro. Pleiteou-se o aumento do espaço, a instalação de divisórias e bancos para melhor atender aos congregantes, assim como a limpeza periódica do espaço. Logo quando isto começou, acusações de que “os judeus” estavam tramando tomar a Esplanada da Mesquita começaram a serem aventadas. Para reafirmar a ligação judaica com o Muro, um desfile pacífico de movimentos juvenis sionistas foi convocado e recebido com pedras jogadas do alto da Esplanada. Os tumultos aumentaram após sermões do Mufti Hajj Amin al-Husseyni, culminando com ataques a judeus que rezavam no Muro, a queima de livros sagrados e uma situação de violência generalizada que levou aos tumultos de 1929. O saldo de mais de duzentos mortos e outras centenas de feridos foi o fim de qualquer ideia de convivência pacífica entre Judeus e Palestinos na região.

Tumultos de 1929.

O historiador Aviel Roshwald explica este fenômeno. No caso de Israel e Palestina, ambos os lados se vêem como minoria. Os israelenses são uma minoria em um mundo árabe hostil e os palestinos se vêem abandonados à própria sorte contra um inimigo muito superior militarmente. Aqui também entram estereótipos milenares de ambos os lados: os árabes são vistos como insidiosos, traiçoeiros e ao mesmo tempo que “incivilizados”, são ao mesmo tempo inteligentes e tem o suporte irrestrito de todo o mundo árabe e suas riquezas infinitas de petróleo. Petróleo com o qual supostamente compram o apoio de inúmeros regimes — desde os EUA até a finada URSS. Por sua vez, o sucesso de Israel só pode ser explicado por uma dominação judaica mundial ao estilo dos Protocolos dos Sábios de Sião — uma rede de judeus que controla todos os governos mundiais, até mesmo dos países árabes — cuja única missão é destruir a Palestina.

O fato do conflito árabe-israelense ter transicionado de guerras convencionais para mais de cinquenta anos de um conflito de baixa-intensidade sem perspectiva de término somente reforça tais noções deturpadas. A indecisão cria o que Roshwald chama de “violação” e “volição” em relação aos espaços nacionais. Os traumas da coletividade — o Holocausto, a lembrança das catástrofes na Diáspora judaica, a derrota dos exércitos árabes em 1948, 1967 e 1973 — se intensificam quando se misturam com locais sagrados com forte carga de tradição. Deixamos de falar de simplesmente uma questão de espaços físicos para falarmos do reino do divino.

A percepção de ameaça — violação — e do que se deve fazer com tais ameaças se intensifica com a sobreposição de discursos religiosos e políticos. A resolução da ONU aumenta tais pressões e acaba por isolar Israel, que se vê ameaçado por uma trama orquestrada por países árabes. A ideia de que Jerusalém nunca foi judaica, ou que é uma série de lugares árabes que no máximo representam algo para os judeus, acaba por dizer que a presença judaica ali é ilegítima por completo. Na condição de “minoria” em que Israel se vê, tal condição somente aumenta a alienação e fomenta uma ideia de que o país está contra o mundo. A volição — ou a capacidade de auto-determinação da nação — ao ser percebida como ameaçada, acaba se manifestando de maneiras agressivas, criando um círculo vicioso.

É claro que temos muitos mais problemas do que somente estes. Em uma região com camadas de história, a arqueologia e a preservação de lugares históricos são armas de legitimação nacional. O controle islâmico de onde ficava o Templo acaba por criar a impressão de que segredos e artefatos da época do Templo estão ocultos e para os muçulmanos, qualquer obra nada mais é do que um plano em potencial para derrubar a Mesquita. Muitas vezes, obras e exposições financiadas pelo governo israelense muitas vezes dão ênfase a uma narrativa judaica dos locais históricos sem mencionar, ou ao menos deixando bastante de lado, a história árabe-muçulmana. Isto fomenta a percepção de marginalização não somente dos palestinos, mas também dos árabes-israelenses que são cidadãos de Israel com todos os direitos. Porém, até o presente momento, Israel não patrocinou uma resolução em um fórum internacional que ateste que o povo palestino não existe, mesmo que muitos de seus políticos efetivamente acreditem nisso.

Ao pressionar o governo israelense desta forma na arena internacional, a UNESCO somente alimenta tendências extremamente negativas que em nada incentivam para acalmar os ânimos. A posição brasileira também foi muito pouco feliz. O MRE do novo Chanceler José Serra aparentemente iria resetar as relações com Israel, estremecidas desde o episódio do “7x1” em que um porta-voz do governo israelense chamou o Brasil de “anão diplomático” após uma condenação enfática de Brasília à operações de retaliação que o Exército de Israel conduzia contra os ataques do Hamas. A recusa do governo brasileiro em aceitar a nomeação do embaixador Dani Dayan aumentou o mal-estar, aprofundado com o fato de que a nova indicação pareceu ao governo brasileiro bastante inapropriada: além de ter sido igualmente vazada na mídia antes de ter sido comunicada ao governo Brasileiro, o indivíduo em questão é investigado por desvios de verba quando chefiou os Correios do sul de Israel.

A resolução da UNESCO parecia uma forma de recolocar a relação nos trilhos. O Itamaraty disse que iria revisar seu voto por considerar o texto pouco balanceado, acenando com uma boa perspectiva, porém acabou por votar a favor mas com ressalvas. Em uma nota confusa, disse que o texto novo é um avanço em relação ao inicial e por isso contou com o apoio brasileiro que se esforçará para que futuras decisões sejam mais equilibradas.

Protesto contra Israel utilizando a retórica de Sionismo como forma de racismo.

Será que a postura brasileira é uma forma de mostrar descontentamento com Jerusalém? É possível que sim. O problema é que jogar tal decisão em cima de um momento tão importante possivelmente foi um tiro no pé. O governo do México, para não criar constrangimentos, acabou por se abster na votação. Ao acompanhar o Brasil em 1975, o voto favorável à resolução que considerava o sionismo como forma de racismo rendeu ao México um constrangimento internacional. Seu governo foi visto como cortejador de terroristas e ditaduras, o suposto pragmatismo da política externa, como nada além de venda de princípios por petróleo e uma fortíssima campanha de comunidades judaicas nos EUA para que o governo americano parasse de investir no seu vizinho do sul acabaram por criar uma situação vexatória. Desta vez, acabaram por aprender. Brasília, mesmo com a memória do fracasso em apostar na resolução antissionista, conseguiu errar de novo. O discurso aparentemente conciliatório não convence: no fim, o que importa é que a resolução passou e que o voto brasileiro foi favorável. A manifestação brasileira de ressalvas em relação a parcialidade da resolução agradou o governo israelense, apesar de tudo. É melhor do nada em um cenário de derrota.

Com tais medidas somente se reforça medos, preconceitos e alguns parágrafos sem muita aplicação prática, escritos em uma reunião em Genebra acabam por criar problemas imensos. A resolução não é trivial ou inofensiva, mas sim mais um catalizador de conflitos. Infelizmente, tal situação provavelmente vai se repetir mais do que deveria.

[1] http://www.pewglobal.org/2013/09/17/united-nations-retains-strong-global-image/

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Leonel Caraciki’s story.