A moda brasileira que não é caricata.

Cases de marcas que saíram do clichê brasil-país-tropical (e tiveram sucesso)

Sempre se falou muito de moda brasileira por todo canto. Existe ou não existe? Será que estamos fadados a copiar tudo que a gente vê sendo desfilado em Paris e Nova Iorque? Não.

Paulo Borges, fundador da Semana de Moda de São Paulo, o SPFW.

Paulo Borges, sabiamente, disse em entrevista a revista Manequim no ano passado que houve a consolidação de uma cultura de moda no nosso país e que nós já temos uma identidade própria, e a partir de agora o trabalho dos designers é “legitimá-la e mostrá-la ao mundo”.

Nomes como Osklen, Liana Thomaz, Pedro Lourenço e Paula Raia vieram, nas suas últimas coleções, reafirmar essa identidade própria da moda brasileira. Abaixo, eu selecionei um desfile de cada um deles para exemplificar como o Brasil está mostrando para o mundo essa nossa singularidade.


Verã0 2016 da Osklen, no SPFW. (14/04/2015)

1. A Osklen é uma marca conhecida pela forte identidade carioca. Focada no sportswear, sua atitude sustentável a fez ganhar a nomeação de ecobrand. Oskar Metsavaht, criador da marca e diretor de estilo, sempre trouxe para a passarela uma mistura do natural com o tecnológico, com um toque agênero. Hoje, a Osklen está presente em vários países no mundo por meio de multimarcas e tem um showroom no SoHo, em Nova Iorque, sendo assim grande referência da moda brasileira no exterior.

Nessa coleção Verão 2016, inspirada na tribo indígena acreana Ashaninka, a abordagem não foi diferente. Metsavaht utilizou tricôs reciclados e pele de pirarucu e salmão (reiterando o espírito eco), além de flertar com o tecnológico, manipulando a seda, misturando-a com elastano, palha e fio de garrafa pet (plástico).

No look que eu escolhi para resumir a coleção, a silhueta reta, lembrando tangas, ganha sobreposições em moletom estampado com motivos indígenas e tricô adornado com macropaetês em formato de penas, que dão o ar requintado que fez a marca ser reconhecida em Londres, em 2011, como uma marca emergente no mercado de luxo.

Verã0 2017 da Água de Coco por Liana Thomaz, no SPFW. (28/04/2016)

2. Liana Thomaz fez da Água de Coco um fenômeno mundial. Vendendo o conhecidíssimo biquíni brasileiro, ela aprimorou com maestria o que é tradicionalmente conhecido como beachwear (roupa de praia).

Fundada em Fortaleza nos anos 1980, a marca traçou um longo caminho até as passarelas do São Paulo Fashion Week, onde desfila desde a coleção Verão 2003. Além de vender em diversos países, a Água de Coco já apareceu em editorias de moda de importantes revistas mundiais, como a Elle americana e a Bazaar espanhola, se firmando como uma das marcas de moda praia mais influentes do Brasil.

O beachwear de Liana se diferencia pelo luxo e apelo regional, incorporando ao biquíni a renda e o bordado, por exemplo, como podemos ver no maiô acima, da coleção Verão 2017, completamente bordado com miçangas.

Essa coleção, que foi inspirada na fauna, flora e cultura da Floresta Amazônica, abusa do artesanal para imprimir a identidade brasileira no seu design: fios de seda em franjas imitam a palha das ocas, bordados de linha criam padrões de tapeçaria indígena e miçangas e canutilhos geram texturas e brilhos nas peças. Tudo isso, somado à modelagem tipicamente brasileira (o biquíni brasileiro é bastante conhecido no exterior, pois sua modelagem acabou originando a expressão brazilian bikini wax, que é uma depilação especial para a utilização desse estilo de biquíni), diferenciam a Água de Coco das grandes marcas de moda praia internacionais.

Verã0 2015 de Paula Raia, no SPFW. (02/04/2014)

3. Conhecida pelos seus belos vestidos de festa, Paula Raia, que é arquiteta de formação, lançou sua marca homônima em 2010. Por meio de suas criações, Paula busca transmitir um universo intuitivo e poético, aproximando da marca mulheres que se identificam com essa atmosfera.

Como o próprio site da designer apresenta, a alma da marca é o craftsmanship, ou seja, o trabalho artesanal aplicado nas peças. Esse movimento, conhecido como slow fashion (termo criado em 2007, por Kate Fletcher), vai em contra mão ao zeitgeist atual da moda, que valoriza a peça barata e de pouca durabilidade dos fast fashions mundiais (Forever 21 e H&M são as marcas mais conhecidas do ramo).

Um bom exemplo da aplicação desse trabalho manual é a coleção Verão 2015 de Paula Raia, que conta com uma minuciosa manipulação de materiais rústicos, como a ráfia e a palha. O artesanato também apareceu nos algodões tramados e trançados.

O resultado, como podemos ver no look que eu separei acima, é um visual etéreo, uma “mulher da terra” , como Paula definiu, que flerta com texturas e volumes. Mesmo com a utilização de matérias primas cruas, o resultado final é extremamente polido, sofisticado e atual, sem sair do universo estético que a marca adotou pra si.

4. Pedro Lourenço já chegou na moda brasileira com uma grande expectativa ao seu redor. Filho de dois grandes designers de moda brasileiros, Glória Coelho e Reinaldo Lourenço, ele assinou sua primeira coleção aos 12 anos de idade, em 2003, para Carlota Joakina, a segunda marca de sua mãe. Já apontado como menino prodígio, ele apresentou uma coleção aclamada como impecável pelo Huffington Post, aos 19 anos de idade, na concorridíssima Semana de Moda de Paris.

Com coleções conhecidas pelo apelo ao tecnológico, ele já fechou parcerias com grandes marcas mundiais, como M.A.C. e Nike. Hoje, sua marca homônima não opera mais no Brasil, desde que ele tomou a decisão de morar em Londres para focar no seu trabalho na marca italiana La Perla.

Na coleção acima que eu separei, Pedro buscou inspiração na cantora e atriz Carmen Miranda (SIM!). Focado em apresentar uma “alta-costura tecnológica”, ele desconstrói a imagem de Carmen e a remonta de uma forma inovadora e habilidosa (quando Glória Coelho comentou a coleção, ela disse que “as referências [de Pedro] são diluídas de maneira inteligente e fragmentada”).

No look acima, é visível essa fragmentação: o peplum é uma referência às famosas mangas bufantes de Carmen. Esse deslocamento de elementos de estilo que eram comumente vistos nos figurinos dela é feita de uma maneira sutil por Pedro durante toda a coleção: pontos de cor que remetem à explosão visual do look da atriz, junto com os vazados geométricos, compõem um misto de tradicional e contemporâneo que, somado a habilidade técnica, resultou numa coleção de encher os olhos.


Então, afinal, o que quatro marcas tão diferentes esteticamente têm em comum? Todas elas mostram a criatividade da moda brasileira, de diferentes maneiras. Conversando com uma professora minha da área têxtil sobre qual é o diferencial do produto brasileiro para os de outros países, ela não hesitou em afirmar que nós nos diferenciamos pelo poder criativo. Na modelagem, manipulação da matéria prima, nas inspirações, no artesanato.

Passou o tempo em que a gente precisava de vestidos de verão estampados ao extremo com palmeiras e flores e araras pra ser notado. Não me entenda mal: eu sei que muitas marcas exploram esse lifestyle-praiano-carioca como característica maior e eu sei que existe público pra isso (e a gente não pode negar que é um trabalho bem feito). Mas eu sei também (e mostrei aqui! haha) que a moda brasileira tem potencial (e criatividade) de sobra pra ser mais do que uma imitação (literal) do estilo de Carmem Miranda.