A cacatua

Começaram a trocar cartas por acaso. Um viu o endereço do outro na listagem da revista. Um procurava companhia na cidade nova, o outro esperava o amor. No primeiro encontro ainda não sabiam a aparência do outro, deixaram a surpresa para o presente. Um era louro, alto e esguio, o outro era apenas lindo. Se abraçaram e logo quebraram as convenções ao irem morar juntos em menos de um mês.

As cartas trocadas construíram a intimidade. Eles já sabiam suas manias e desejos e sonhos e medos. Decidiram expandir a família e aí veio a primeira grande briga. Uma era de gatos, o outro, de cachorros. Compraram uma cacatua para encerrar a disputa.

Trouxeram o bicho em um sábado a tarde, veio repleto de acessórios, regras e deveres. Preso ao poleiro, gritava incessantemente todos os dias. Era um inferno e, ainda por cima, voava. Virava e mexia, fugia, deixando os pais inconsoláveis. Quando retornava, trazia consigo alívio e acusações. Um colocava a culpa no outro. Crescia o afeto pelo animal e se esvaía o carinho do casal.

A ilusão passou, as entrelinhas ficaram evidentes e as brigas eram agora embaladas pela horrível tentativa de canto do pássaro. O inevitável divórcio emperrou na guarda do animal. Um adorava o bicho, o outro apenas o usou para causar empecilhos. Mais discussões, mais semanas sem solução. A cacatua já cansada, coitada, ainda tinha esperança de ver seus pais unidos.

Pensou em fugir, mas isso não surtiria bom efeito. Pensou em se fingir de doente, ensaiou até arrancar algumas penas, porém a dor a impediu. Por fim, optou pela destruição. Quebrou latas, atirou copos, derrubou livros e bicou sem dó o sofá.

O casal ainda habitava a mesma casa e interpretou o delírio do bicho como um desejo irrepreensível de liberdade. Um queria libertá-la, o outro preferia o sacrifício. O bom senso venceu. Soltaram a cacatua em um parque. Ela voou para o alto frustrada. Um foi para a esquerda e o outro para a direita.