capas

arte de Mateus Valadares

Ontem comprei um livro pela capa. Amarela berrante, contraste de imagens em preto e branco, nome do autor sem tanto destaque. Um projeto gráfico primoroso.

Ontem comprei um livro pelo autor. A foto era convidativa, ele, sem beleza padrão, uma luz que beijava a sombra em meio rosto. Seu nome era interessante, o primeiro comum, o segundo difícil, daqueles que a mente se concentra para gravar.

Ontem comprei um livro pela angústia. O autor tinha quase minha idade, era pouco mais velho, questão de meses. Doeu perceber sua proficiência na profissão que sempre quis e nunca assumi. Em seu tempo já teve alguns livros publicados. Esse, em minhas mãos, saiu por uma das mais respeitadas editoras.

Ontem comprei um livro pela inveja. Li as primeiras sentenças, me agarrei as palavras. Estava viciado. Via ali o que queria ser. Pensei, nunca escreverei algo assim. Por um momento a farpa das letras impressas causou desconforto. Em pé na livraria segurei o choro contido. Não derramei lágrimas.

Ontem comprei um livro. E mais outro. Há algum tempo flertava com Ana Cristina. Seu nome não era tão estranho, sua presença sim. Desde sua homenagem ela veio brotando sorrateira na minha vida. Aos poucos foi ocupando lugar. No texto de uma conhecida, na boca de uma professora.

Ontem fui na livraria para comprar o livro dela. Poética completa e total. Sua obra resumida, compilada e aglutinada em um único volume. Folheei algumas páginas, poemas e pequenas prosas voaram. Nunca me identifiquei tanto com alguém sem ler, apenas pelas formas. Senti algo. Maior. Sentidos transbordam.

Ontem saí carregando dois pesos a mais. Duas obras complexas, espero, completas, nem tanto.

Ontem comprei dois livros.

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Hoje comecei a leitura. Ainda no ônibus a angústia fez carinho. Chorei no final do segundo capítulo.