Exorcismo I

O tempo não cura. Não passa. Não dói menos. Não evolui. Se o tempo faz algo é colocar em perspectiva. O tempo distancia o problema. Ainda não encontrei solução, ainda não me dissolvi em calma, ainda não parei de chorar.
Esperei a loucura por muitos meses, achei que você viria ou eu iria, mas nada aconteceu. Procurei respostas nos outros, nos conhecidos e nos que vim a encontrar. Ninguém me ajudou. Não tive coragem de perguntar a você. Ainda temo o ridículo. Sei agora, sei que nunca fui.
Te aguardei. Achei que viria de ti um ato de bondade, de misericórdia, um pouco de humanidade frente ao meu destrambelho. Fiquei a ver o mar sem ondas.
E como ondas retornam essas dores. Do nada me batem e derrubam. Em poucos segundos me afogo na mágoa passada não resolvida, no amor guardado úmido e mofado, no ódio da rejeição, na vergonha do desejo.
Você cresceu fora de mim, sem controle, sem cheiro nem gosto. Sinto falta do barulho do seu riso. No modo como seus braços nunca me abraçaram, nos seus olhares nunca direcionados a mim. Sinto falta do que nunca tive, daquilo que só habitava meu imaginário e que você me roubou.
Nunca foi saudável. Nunca houve esperança de retribuição. Você me tornava pequeno e ainda assim queria sempre estar ao seu lado. Estranho como o amor funciona. Estranho como ainda sinto.
A marca que você deixou não se fecha. É esse o meu maior defeito. Sangro todos os dias pensando em você.
No mais, desejo apenas sua felicidade.
