O corpo

O primeiro luto de William Bouguereau

Os cabelos da barba já estavam brancos quando ele foi levado. Eu cobri sua nudez com lençol branco de algodão, o quarto cheio de pranto observou minha ação contínua. Resolvi não poupar nenhum luxo na sua partida.

Naquele tempo era a esposa quem limpava o defunto e mamãe não seria capaz de tocar na pele fria. Ele se foi como quem não dormia. Desencarnou a noite, em meio a lamúrias e rezas. O homem forte do campo não resistiu a tosse e com sangue aspergiu o quarto em sua última semana. Caiu doente e em menos de um mês ficou preso a cama. Padres e médicos fizeram visitas, a pouca família veio de longe. Luz não habitava mais seus olhos.

Corpo pálido em minha frente, vida desperdiçada no arado. Não deixou de trabalhar um dia sequer. Acordava cedo e dormia ao crepúsculo, o campo era sua paixão. Voltava para casa cantando todos os dias. Voz grave que sumiu. Mamãe chorou copiosamente.

Sua roupa preferida era a camisa de domingo. Linho azul e colarinho. Limpei o dorso ensanguentado, lavei sua barba e cabelo. Mãos duras cerradas no punho ainda seguravam o lençol. Cortei a camisa nas costas e a encaixei no meu pai falecido. Capelania inútil. Outros cortes nas calças, pernas pesadas de trabalho e óbito. Pescoço inchado, perfume e flores para disfarçar o cheiro. Dignidade levada junto com a alma.

Mamãe silenciou, quatro da madrugada, o sono também arrebata a todos. Ela sempre foi forte e era ele a rocha do nosso alicerce. A casa ruiu. Há esperança no pranto. Velório marcado, não há o que fazer. Vida implacável, destino de todos.

Preparei o último adorno. Recoloquei a aliança agora polida, dei-lhe seu único desejo. Vi ali meu futuro imóvel. Despedi-me com um beijo. Adeus, papai.