Seu nome é

Foram meses parada. Poucas repetições, muitas cartas, nenhuma casa. A observei levantar e sair todos os dias pela manhã, voltava antes do almoço e novamente ia a rua entre três e quatro horas. Diziam que vagava pelas vielas de Copacabana nas tardes quentes. Aos sábados a acompanhava após meu expediente na xepa da feira.

Ela dizia, é o melhor horário, eu não contrariava. Meu uniforme não incomodava.

Anos de cumplicidade constroem casa sólida. Quando ainda era bela e recebia os bons, nunca julguei. Agora velha e sozinha, sou eu a companhia. Confesso, a desejei por muito. Meu ordenado nunca foi capaz de pagá-la.

Anos atrás tomei coragem e chamei para um encontro. Ela, fina e delicada recusou, amigo a gente não joga na cama, disse ao pé do meu ouvido, fazendo sussurro.

Mas a vida passou, a pele desandou e o brilho dos olhos ficou embaçado pelas lentes dos óculos. O cabelo, no entanto, ganhou prata. A voz grossa do cigarro ainda me causa espanto.

Ela me chama.

Desligo o rádio que me acompanha, deixo a portaria só por um minuto. Sua voz me encanta. Sereia dos mares tropicais, da praia de cimento, da esquina da Prado.

Seu quarto cheira a almíscar selvagem, sua pele a cedro. Nunca foi de gostar de alfazema. Do forno sobe o aroma do bolo. Do café desce meu desejo.

Ela é boa para mim, me vê como filho, só pode. Me viu crescer, de certo modo. Comecei aqui ainda garoto, dezoito anos. Nem mulher conhecia, só tinha frequentado as garotas. Ela foi a primeira e a única que quis e não tive.

Seu nome ainda me arrepia.

Até hoje me chama de Chiquinho. Para ela serei sempre menino. Na feira acham que é minha tia.

Talvez eu não seja homem mesmo, nunca fui para ela nem para ninguém. Ela ocupou toda a possibilidade e sem ela nada foi feito. De desejo só vivi o sonho.

Outro dia passou feliz. Estranhei a alegria repentina, da caixa de correio tirou um envelope e dele um sorriso. Depois me contou, era carta de um antigo amor, um cliente chorando sua falta, um inimigo que jurei de morte.

Passou a tarde me cobrando seus casos. Ela nunca escondeu de mim sua realidade e isso só me alimentava. Às vezes achava que ela me tentava. Será que não tinha desejos também? Seus chás e cafés eram apenas gentileza e cortesia ou havia uma espécie de estratagema?

A cegueira é burra, isso sim.

Nada queria ela comigo.

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