
Te ouvi falar ainda sem saber o que estava compreendendo. As letras embaralhadas, as sílabas sem vogais, as palavras sem sons, fonemas trocados, perdidos e desmanchados voando pelo ar até mim. Minha visão, ao invés de turvar, simplesmente esvaecia feito dímer lento, provocando uma queda de pressão e um aumento de sono.
Pensava apenas na minha cama e nos momentos em que estaria dormindo de bruços, peitos e barrigas colados ao lençol, peito e barrigas cheio de ares noturnos, peitos e barriga cobertos de uma fina camada de tecido de algodão. Meus braços em formas oblíquas, um mais alto que o outro, um por baixo da cabeça, o outro por cima do travesseiro, os dois acima do chão. E minhas mãos se mantinham cerradas porque só sei dormir assim, depois de ler, em sua voz, essas palavras.
São minhas mãos fechadas, meus punhos cerrados e encerrados nesse ritual que se mistura entre o misticismo e a alopatia, que é feito pelo respirar em conjunto e pelas drogas engolidas, que eu rezo à noite por um sono tranquilo e aplico no comprimido a fé. Meus punhos cerrados e unhas encravadas marcando a dor na pele da palma, na realidade construída pelo toque dos sentidos, pelo sabor de sangue que criança chupa quando escorre apenas pela curiosidade instintiva e científica.
É ritmo, é imagem, é ideia, todas unidas nesse único sentido de dizer que sinto falta daquele que nunca conheci. E anos depois, dias passados e horas vividas ainda me percebo todas as noites a pensar nos punhos cerrados que suas palavras cravaram no coração do meu cérebro. Seu personagem que dormia encerrando os punhos sou eu, encerrado nesse retorno eterno, nesse pesar sem tempo, nesse sempre sem som. É meu punho cerrado em riste, pronto para o abate antes do sono e também antes de qualquer da luta. Não esqueço da memória que me une a ti, feita por esse corpo móvel, pela pele, pelas palavras, pelas letras e imagens e sons e ideias e formas que tendem a se reunir em linguagem.
