Tarefas

E lavei os pratos, recolhi as roupas, guardei as panelas. Vou preparar a refeição de amanhã. Não, amanhã é dia de almoçar com uma amiga. Vamos naquele restaurante bonito, assim ela definiu.
Refaço meu planos noturnos. Ainda é cedo, vou ler um livro. Ontem acabei aquele do japonês. A pilha é grande e a compra é maior que a leitura, compro mais do que consumo, consumo por prazer. Procuro algum, olho nas prateleiras e nada pula, nada salta, nada assalta meus olhos.
Eu lembro das obrigações. Deveria ler algum clássico perdido dos anos de colegial, nunca entendi o apelo do Machado. O livro é leve, pequeno, edição de bolso. Ganhei de outra amiga, vida permeada delas. Lembro que havia uma anotação na primeira página. Ela arrancou antes de me presentear.
Fiquei com receio desse livro capenga. Aceitei pela educação imposta, nunca abri suas páginas até então.
A leitura começa solta, o sono bate à porta, sinto a formação dos sonhos. Alimento-os. Marco a página com um canhoto da loteria, vou ganhar a mega-sena. Repito o mantra. Vou ganhar a mega-sena.
Os olhos de ressaca permeiam meu imaginário. Não sei construir outra imagem, só essa dada desde a escola. Resolvo criar outra. A melancolia das primeiras páginas me choca. Somos tão diferentes assim?
É meia-noite, hora de dormir. A tarefa se impõe, a vida se faz, meus olhos se fecham. Assisto aos sonhos e durmo um sono injusto. Pela manhã, trago olhos de insônia. Fiquei sem descanso, em uma madorna líquida, em uma suspensão onírica. Dormi inquieto, dormi acordado.
