Um canto escuro do bar

As vozes conseguiram se sobrepujar a música. Não foi tarefa fácil, mas unidos em coro, todos os frequentadores foram mais fortes. Sentado em um canto, observei o vai e vem de pessoas. Frequento esse bar desde sua abertura e nunca o vi tão cheio. Fico feliz pelos donos, nessa crise tem dado certo.
Sinto uma ponta de inveja, queria ser um desses jovens empreendedores, cheios de economia criativa, startup e upcycling. No entanto, sou o chato, sentado em um canto, ocupando uma mesa, escrevendo em um caderno vermelho e bebendo mate gelado. Pelo menos tive a decência de pedir uma comida e justificar minha estadia.
Pelo que entendi, hoje é noite de lançamento, ou festa, ou confraternização, tem uma cervejaria comemorando algo, tem pessoas alegres e felizes e contentes. O barulho, no fundo, me acalma. A solidão não é tão evidente quando ninguém a nota. De certa forma, espero me tornar personagem do bar. Quero ter lugar cativo, ser mítico, o cara que senta em um canto escuro e escreve. Quero ter uma conta e pedir sempre a mesma coisa. Ser conhecido por nome ou apelido e dizer, sou amigo do dono.
O pai de um amigo era assim. Jornalista das antigas, saía da redação todos os dias e tomava uma dose de uísque. No mesmo bar, na mesma hora, no mesmo canto do balcão. Quando morreu, fizeram uma placa em sua homenagem. Está lá na parede para quem quiser ver. Seu legado foi ser transformado em memória.
Esses tipos agora são raros. Esse bar aqui não dura, não tanto, não o suficiente. Essa minha geração é volátil. Ano que vem, ou no outro, o ponto morre, os donos se cansam, a conta fica cara. Algo acontece e o bar acaba. Não se faz mais gente como antigamente.
Faço questão de escrever a mão, lápis no papel, foi assim que aprendi, é assim que sei. Hoje espero por um passado sem volta, afinal já vivo no futuro e ele não me acolhe, nem a ninguém. Não farei lápide nesse bar, certamente ele vai antes de mim.
