Valão

L’origine du monde de Gustave Coubert

Pequenas memórias ficam reclusas no fundo da mente. Quando menos se quer elas emergem apenas para dar ar de desgraça. Na infância, no fim da rua, no fim do meu mundo, existia um valão. Superlativo apenas no nome, era uma abertura no meio da calçada, embaixo de uma casa, por onde passava um córrego assoreado de lixo e esgoto. Era assim que o chamavam, era assim que o era.

Eu, na vasta experiência de pequeno quase prodígio, imaginava ali a abertura para outro mundo. O perigo era incutido pela mãe e seu pavor de me ver ali caído, machucado, morto.

Da beira do buraco eu conseguia ver apenas poucos centímetros. Em plena luz de meio dia nada se enxergava ali dentro. Naquela idade não pensava nos ratos, baratas, cobras e demônios que habitavam aquele antro, só via uma nesga de água cinza, ouvia seu barulho e cheirava a mistura de enxofre e cinzas. Hoje, penso, era a porta do inferno. Só pode.

Medo não há mais. Quando cresce, nasce o nojo. Não se come mais terra, não se toca mais em bichos, não toma mais banho de chuva. E era nela que o valão se tornava grande. O rio virava piscina, a calçada, praia e a casa, veraneio.

Da infância guardo poucos brinquedos. Nenhum boneco, desses nunca gostei, só os blocos de montar e os jogos eletrônicos. Estimo uma pequena relíquia guardada por anos, um cubo feito de peças coloridas que se desmonta em variadas formas. Outros se perderam nas horas dos dias e nas mãos ávidas por espaços livres de velhos entulhos. Guardo esses objetos por pura vaidade.

Outro dia achei nas gavetas maternais uma minicalça jeans, feita por minha avó. Relíquia de quem não guardou dentes nem cachos. A vaidade dela é minha foto de formando. Essa, ela emoldurou e tudo.

Guardo essas lembranças por pura capacidade. Guardo memórias da infância como soldado em vigia noturna, sei que um dia as perderei no cochilo. Relembro do valão e dos dias que cogitei me jogar nele para descobrir seus mistérios. Será que algum dia sairei dele?

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