
Deuses quebrados
Resenha de “Hibisco roxo” de Chimamanda Ngozi Adichie
Mr Catholic, listen
[…]
We are in Africa — you should hear this
Fela Kuti
Uma Nigéria após independência inglesa. Novas imposições deixadas pelo colonialismo aterram um lugar que antes forjou tribos remotas do ethos ocidental. A religião católica impõe seus dogmas empurrando os outros ritos religiosos ao abismo, reduzindo-os como “pagãos”. O fantasma de um idioma frio e estoico, o inglês, rondando e expulsando passivamente línguas pulsantes e vívidas como igbo e ioruba. A violência dos padrões caracteriza a grande luta de berços (vide a teoria historiográfica de Cheikh Anta Diop) que países africanos abrigam em complexa mudança. Esse parágrafo pode ser a rude radiografia do espaço onde “Hibisco roxo” se inscreve.
Feito pela escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie em 2003, a Companhia das Letras lançou o livro, traduzido por Julia Romeu, em 2011, quase no mesmo ano em que Chimamanda foi mundialmente conhecida por seu romance “Americanah” (lançado no Brasil em 2014) e por sua colaboração na faixa “Flawless” de Beyoncé Knowles. Ademais, Chimamanda é conhecida por sua palestra no Ted “Sejamos todos feministas” — da qual já lançou até um livro.
Não sabia o que mais podia fazer. Em toda a minha vida aquilo jamais acontecera, nunca. Tive certeza de que os muros da nossa casa iam desmoronar e esmagar as plumérias. O céu desabaria. Os tapetes persas que se estendiam sobre o chão brilhante de mármore iam encolher. Algo ia acontecer.
“Hibisco Roxo” é a história de formação de Kambili Achiki, uma estudante que tira as melhores notas na escola particular mais estimada da cidade, não dedica nenhum tempo do seu dia para qualquer entretenimento, e mantém uma obediência quase servil para seus pares; de forma que ela, mesmo sendo o centro da estória, se acha no nível mais inferior de estima.
A família Achiki é composta por Kambili, Jaja (seu irmão), Beatrice (a mãe) e Eugene (o pai). Jaja é um adolescente pouco mais velho que a irmã; mesmo com um acatamento similar ao de Kambili, ele desenvolve uma atenção tímida à possibilidade de pensar e fazer o que queira, mesmo que custe o seu respeito; tanto que o fato de uma simples objeção de Jaja inicia o livro. Beatrice é a esposa resignada ao silêncio forçado de um matrimônio truculento com Eugene: uma mulher que enfrentou emoções impetuosas contra seu ânimo e que, modestamente, alegra-se pelas conquistas empresariais do marido e pelos desempenhos das notas dos filhos — sabendo que eles possuem de uma grande capacidade de reflexão e tino, para Beatrice, as notas de Kambili e Jaja são coisas previsíveis.
- Jaja, você não recebeu a comunhão — disse Papa baixinho, num tom quase interrogativo.
Jaja olhou para o missal sobre a mesa, como se estivesse falando com ele.
- Aquele biscoito me dá mau hálito.
Eu olhei atônita para Jaja. Será que ele tinha ficado maluco? Papa insistia que chamássemos a hóstia de hóstia, pois essa palavra quase capturava a essência, a sacralidade do corpo de Cristo. “Biscoito” era uma palavra secular, era o que uma das fábricas de papai produzia — biscoito de chocolate, biscoito de banana, o que as pessoas compravam para os filhos quando queriam dar a eles algo mais gostoso do que as bolachas sem sabor.
- E o padre fica encostando na minha boca, isso me dá nojo — disse Jaja.
Ele sabia que eu estava olhando para ele, que meus olhos chocados lhe imploravam para fechar a boca, mas ele não me encarou.
- E o corpo de Nosso Senhor — disse Papa com a voz baixa, muito baixa.
Seu rosto já parecia inchado, com pontos vermelhos de pus espalhados por cada centímetro, mas ao dizer isso ele pareceu ficar ainda maior.
- Você não pode parar de receber o corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo. Isso é a morte, e você sabe muito bem.
- Então eu morrerei.
O medo deixara os olhos de Jaja mais escuros, da cor do carvão, mas ele encarava Papa agora.
- Então eu morrerei, Papa.
O pai de Kambili desenvolve uma complexidade intrigante no livro. Eugene Achiki é um grande empresário da região de Enugu, trabalha com produtos alimentícios e até é chefe do principal jornal de oposição ao governo na cidade. Ademais, dispõe de suas grandes economias para auxiliar a cidade — reputação tão lembrada que Eugene ficou conhecido como o omelora, que significa “aquele que faz pela comunidade”. Entretanto, tantos méritos tidos como máscara, Eugene é um pai super protetor, dono de um afeto tão fundo que ultrapassa os limites do conforto, chegando às primeiras instâncias da violência: um amor grande a ser imprevisível e, até, cruel; tão capaz de amar e acolher quanto, incrivelmente, magoar e ferir. Um patriarca que preza pela educação com matrizes católicas acima de tudo e, simultaneamente, mostra as consequentes reações a esse controle: a hipocrisia de uma paternidade vestida de disciplina e o medo da imprevisível tomada de consciência dos filhos que, querendo ou não, são a perpetuação de seu nome e legado. Futuro.
A narração de Kambili é um aspecto importante no livro. Só pelo fato de uma escritora dar voz a uma menina, já é algo muito significante. Com seu rubor otimista ao florescer, ela é uma grande observadora de pequenos detalhes; nas reações desde diminutas às resolutivas das pessoas que convive, como quando sabe o que Jaja está pensando só olhando para sua expressão; ou na leitura dos silêncios que ocupam as relações, quando assente seus erros sem objeções sabendo o que seu pai fará em resposta.
Kambili desenha seu Papa com um exemplo de imortalidade: um pai onisciente das ações de todos em casa e um cidadão solidário com seus pares na comunidade. Não lembra Alguém que não dá pra falar em vão e se escreve em maiúsculas? Pois é. Kambili dá essa descrição devota ao pai como um ponto para vermos como a situação muda. Até o final, ela se dá por conta da opressão doméstica do seu pai; a visão do pai observador e ciente da comunidade e da família começa a se quebrar. Uma menina na flor da idade começa a ver que o mundo não é só que seu pai traça. Isso que faz “Hibisco Roxo” ter uma genialidade simples.
Uma sociedade com valores muito arcaicos em questão de gênero, somado isso à uma fervorosa representação do que é o catolicismo em um país colonizado tardia e poderosamente, são os grandes pontos de tensão que o livro critica. Com toques autobiográficos, Chimamanda traça uma linha em um deserto feito de impunidades contra mulheres e espiritualidades diferentes da do dogma católico. “Hibisco Roxo” é de uma fácil e leve leitura — pelo andar da narrativa, não percebia que já passei cem páginas facilmente. A prosa de Chimamanda é como uma pena caindo no ar: dotada de uma simples sensibilidade, ela plana suavemente no imaginário dos leitores, indo de encontro a um entulho de péssimas tradições e hipocrisias, chegando ao ponto de fazê-las descerem por terra.
O poder de uma história faz disso: Kambili, também como a pena, fez deuses quebrarem.

Informações técnicas
“Hibisco Roxo” de Chimamanda Ngozi Adichie
Lançado em 2011 pela Companhia das Letras
328 páginas
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