Mal-entendidos

Ou Onetti sobre a brevidade da vida e a enxurrada de malogros


“Um sorriso torcido. E descobrimos que a vida está cheia, não de hoje, de mal-entendidos. Gertrudis, meu trabalho, minha amizade com Stein, a sensação que tenho de mim mesmo, mal-entendidos. Fora isso, nada; de vez em quando algumas oportunidades de esquecimento, alguns prazeres, que chegam e passam envenenados. Talvez todo tipo de existência que eu possa imaginar deva transformar-se num mal-entendido. Talvez, pouco tempo importa. Entretanto, sou este homem pequeno e tímido, imutável, casado com a única mulher que seduzi ou que me seduziu, incapaz. não mais de ser outro, mas da própria vontade de ser outro. O homenzinho que sofre à medida que o infortúnio cresce, o homenzinho confuso em meio à legião de homenzinhos aos quais foi prometido o reino dos céus. Asceta, como zomba Stein, pela impossibilidade de me apaixonar e não pela absurda aceitação de uma convicção eventualmente mutilada. Este eu, no taxi, inexistente, mera encarnação da ideia Juan María Brausen, símbolo bípede de um puritanismo barato feito de negativas — não ao álcool, não ao tabaco, um não equivalente às mulheres -, ninguém, na realidade; um nome, três palavras, uma diminuta ideia construída mecanicamente por meu pai, sem oposições, para que suas também herdadas negativas continuassem sacudindo as envaidecidas cabecinhas mesmo depois da sua morte. O homenzinho e seus mal-entendidos, definitivamente, como para todo mundo.Talvez seja isso o que vamos aprendendo com os anos, insensivelmente, sem prestar atenção.”

[Juan Carlos Onetti, “A Vida Breve” (1950) , p. 64, trad. Josely Vianna Baptista]

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