Na foto: Alberto Laiseca

Querida: vou comprar cigarros e já volto

Conto de Alberto Laiseca, minha tradução

É um matrimonio grande. Faz oito anos que vivem juntos. Nunca foram ricos nem faltava dinheiro na casa. À medida que crescem os problemas da estabilidade econômica no país, a esposa se torna mais temerosa. Beira o patológico. “Minha mãe me deu estrutura. Meu homem tem que me dar segurança”. Tenta explicar-lhe que, desde a época do neolítico, a segurança não existe. Sempre haverá problemas. Só resta trabalhar, estar unidos em nível de casal e confiar. A mulher, no entanto, está cada vez mais paranoica. Se desespera porque a ama. Compreende que vai perdê-la.

Muito triste e preocupado o marido vai em um bar tomar uma cerveja a pensar em seu problema. Desde uma mesa próxima O HOMEM INSÓLITO vê ele com profunda atenção. “Me parece que você tem um drama muito sério”, disse O HOMEM INSÓLITO. “Parece tanto em mim? ” “Temo que sim”. No curto da conversa compreendemos que O HOMEM INSÓLITO é o Demônio. Lhe oferece um pacto mediante o qual poderá recuperar sua mulher pois já não lhes faltará dinheiro. “Mas fique tranquilo: sua alma me aborrece. Não me interessa para nada. A essa, o Outro pode levá-la. Faz milhares de anos, quando eu era jovem inexperiente, confesso que tinha certas… debilidades espirituais. Agora as almas humanas me fazem morrer de tédio. Prefiro os corpos. Que os prêmios e os castigos se resolvam aqui, no mundo da matéria. Enquanto ao sofrimento eterno…. Todos gritam igual na hora da tortura. Já estou farto. Um bom dia destes vou soltar todas as almas que tenho sob minha custódia. Aí quero ver o Outro. Não vai ter mais escolha que recebê-las, e vai se desesperar muitíssimo. Ele me necessita, se dá conta? Não leu você a história do Dr. Henry Jekyll e de Mr. Edward Hyde? Eu sou o Mr. Hyde Dele e estou me cansando de ser uma criança má e obediente. Siiim: agora só me interessam os corpos”.

O pacto que O HOMEM INSÓLITO lhe oferece é: dará um milhão de dólares em troca que aceite viver dez anos de tempo subjetivo em algum lugar do passado. “Amanhã, às três da tarde, você e sua mulher se encontrarão em um bar da Avenida Córdoba, no número setecentos. Sim, já sei o que vai me dizer: que não tem a menor intenção de estar ali amanhã e sua mulher também. Não se preocupe. As coisas parecerão se ajeitar naturalmente e estarão. Num dado momento você dirá a sua esposa: ‘Querida: vou comprar cigarros e já volto’. Na verdade: vá até uma venda próxima, compra-os e volte aos cinco minutos. Mas nesse breve lapso haverão transcorrido dez anos de tempo subjetivo. Será de novo jovem, sem perder a experiência e os conhecimentos que adquiriu.

“Porém tenho más notícias. Vai voltar a 1946, quando você tinha cinco anos. Permanecerá em sua cidade, onde se criou, até 1956. Apenas aí ficará saldada sua dúvida comigo. Agora compreenderá porque lhe disse que não me interessam as almas, mas sim os corpos”. “Não tudo”. “Já vai entender. Bem rápido”.

***

O horror supera qualquer cálculo. À ditadura dos adultos só podem suportá-la as crianças, porque não tem experiência e a seus pais consideram-os Deuses. À loucura não a chamam loucura, e aos atos de crueldade desmotivada, as contradições, os levam ao incompreensível acionar de seres superiores. “Algo fiz. Com certeza fui mal com papai”. Porém um adulto de sessenta e dois anos, encerrado no corpo de uma criança de cinco, não pode aguentar. Crueldade, sadismo, loucura, atos despóticos, tapas libidinosos. Não se esquecer: se supõe que alguém é uma criança, de modo que nesse caso: “Volte a me responder, ranhoso de sujeira, e te racho a cara! ” Fazer de novo toda a escola primária. Mostrar-se inteligente, mas não muito, para que não te descubram. Se ficam com medo de ti, irá muitíssimo pior. Logo o secundário, com os conseguintes abusos de professores e colegas. Absolutamente só (teu pai jamais vai dar a cara por ti) e sem ajuda alguma. Dissimular, dissimular todo o tempo. Até nos sonhos, em caso de falar dormido alguma informação te traia. Humilhar-se, pedir perdão quando o único que corresponde, de acordo com a honra, é matar.

Nosso personagem tem dez anos para pensar que tudo que lhe ocorreu foi por sua atitude medíocre ante a vida. “Eu poderia dizer: meu velho, com seu puritanismo hipócrita e suas contradições e crueldade, arruinou minha vida. O qual é certo, mas só em parte. Depois que morreu mamãe, ergueu a ela um altar. Nunca faltaram (durante anos), sobre a mesa que comíamos, um prato, um copo, guardanapo e talheres para a esposa e mãe inexistente. Para mim só existiu tua mãe e nenhuma outra mulher lhe pode nem aproximar. Mas depois ia foder todas, até às mulheres do serviço. Decidi durante largos anos ser, então, mais puritano que ele e, portanto, muitíssimo mais hipócrita. Há que ter cuidado ao eleger Mestre. Em caso de tu terminares sendo uma versão corrigida e aumentada do pior dele.

“Já me falta pouco para terminar meus dez anos virtuais. Vou enlouquecer de humilhação. Agora por sim entendo que quis dizer O HOMEM INSÓLITO quando me contou que só lhe interessam os corpos, não a alma. Claro: controlando o corpo, o controle da alma se dá por acréscimo. Mas vou estragá-lo, de todas as maneiras. De repente estou tratando no tempo virtual uma menina. Quero dizer que a trato melhor que como a tratei no real faz muito tempo. Quando volte não poderei seguir com ela porque já morreu. O que sim vou fazer é mandar à merda a minha queridíssima esposa. Não somente já não a amo, mas sim a odeio. Por ela estou aqui. Pelo muito que me aborreceu com a grana. Encontrarei alguma menina…. Se tenho sorte. Sorte da boa, quer dizer”.

Aos cinco minutos de tempo real o homem volta com seus cigarros. Se senta à mesa onde ela ainda o espera. ‘Tenho para ti duas notícias: uma boa e outra má. A boa é que consegui um milhão de dólares. Não importa como. Amanhã a metade dessa cifra estará depositada em tua conta. A má é que nos separemos. Não quero mais te ver”. Ela se assombra e protesta. Acredita que enlouqueceu: que por que, como, etcetera. “Amanhã meu advogado vai se comunicar contigo, tanto pelo divorcio como para dar tua parte do dinheiro”.

Se levanta, paga e se vai. Já na porta volta até ela que o olha abismada, e lhe diz levantando o dedo indicador da mão direita. “Fuck you and fuck me, babe”.