o mar que aqui gorjeia não gorjeia como lá
nasci em fortaleza, num hospital
primeiro som que escutei
foi uma onda quebrando na praia
ou talvez fosse a bolsa de minha mãe,
transbordando
comecei a crescer na praia de iracema
e a orla era linda
meu pai, quando ia caminhar,
me levava de carrinho
com um boné para ver o mar
eu era um bebê diferente,
branco e loiro,
numa terra em que todos
eram como meu pai
moreno e da cor de quem
viveu muito
sol
tive a sorte de nunca deixar de
acordar de frente para o mar
e o azar ainda maior
de criar abuso dele
hoje, na cidade de concreto,
penso:
eu só quero vê-lo já
velejar
continuei crescendo no mucuripe
e vi, durante bons anos, as velas do mucuripe
saindo para pescar
mas nunca joguei minhas mágoas
nas águas fundas do mar
não sou
belchior
frequentei escolas
aprendi religião
andei pelos bairros
escutei chico
aprendi violão
deixei religião
e fui
surfar
mas o surf durou pouco
tempo
parecia que o mar não
me queria como
amigo
o mar é o verdadeiro cronos
quando você o doma,
ele acelera o tempo
e minutos viram horas
quando você não o doma
ele acelera o seu tempo
e em minutos já não há mais
você
fortaleza me foi como o mar
que eu achei ter domado
mas no final a onda
me deu um caldo
e em seis minutos passou-se
dezoito anos e agora meu corpo
desagua no
tietê
