A Família com Deus pela Hipocrisia

por Leopoldo Rezende

De algum modo os algoritmos das redes sociais nos proporcionam certa paz de espírito, pois ao distanciar minimamente de nossas bolhas virtuais, percebemos que questões sobre justiça social e direitos humanos, além da mais elementar noção de empatia, desaparecem cedendo lugar, quando não à hipocrisia, ao ódio. É o que se costuma ler em comentários nos portais de notícias por aí. Assim sendo, permanecer imerso a um ciclo social virtual ideologicamente consonante, apesar de nos afastar do contraditório e, por isso, de um suposto diálogo mais construtivo, nos previne do mal-estar em se deparar constantemente com o horror. Portanto é plausível querer imergir na bolha quando o que está em jogo é a integridade da saúde psíquica.

Pode-se questionar se o mesmo não ocorre com os outros (o outro-ideológico) em relação a nós. Afinal a impressão de ‘estar certo’ é a certeza de quase todos e, assim sendo, estariam todos certos no julgamento do outro (?)… Convenhamos! Nem o mais aguerrido dos pós-modernistas julgaria o subjetivismo ético como parâmetro para coisa alguma. É preciso objetivar o que chamamos de realidade — e a própria moral — para que possamos caminhar com o mínimo de segurança entre as infinitas vielas ideológicas que tecem a malha social e, sobretudo, perceber e evitar a imensa via-expressa do pensamento hegemônico. Encarar o pensamento do sujeito sujeitado à ideologia dominante como uma construção ideológica individual, consciente e, por isso, legítima, é não enxergar as imensas grades que cerceiam a dita “liberdade individual”. Sendo justamente a hegemonia do pensamento burguês o ideário impelido no constructo social que busca legitimar a intolerância contra as classes que constituem a base da pirâmide social. Intolerância essa, não somente presente no ódio entre classes como também presente no interior das próprias classes sociais inferiores.

Aqueles que evocam discursos moralistas para darem uma resposta à realidade, os colocam de antemão como simples “opiniões” que deveriam ser respeitadas tendo em vista a “liberdade de expressão”. Deste modo, são desferidos comentários racistas, elitistas, homofóbicos, misóginos, xenofóbicos, como a síntese do conservadorismo capaz de reorganizar o mundo de acordo com o apelo das tradições burguesas, que sufocam as novas potencialidades de existência e continuam por oprimir as classes exploradas. Trata-se de uma visão de mundo que, além de banalizar a potência do discurso — por não perceber sua força sobre os limites do próprio pensamento — , ignora seu significado histórico: de reafirmação dos preconceitos, injustiças sociais e outras formas de opressão. Pois, nega-se a perspectiva simbólica e histórica para tomar como realidade a mera ingenuidade do imediato (imoral), de um momento social que, em uma análise equivocada — para não dizer delirante, não possui um antes e nem se importa com um depois.

Marcha da Família com Deus pela Liberdade — 1964

Mas afinal, “o que haveria de tão errado em enaltecer os valores morais tão nobres advindos da família, da igreja, da tradição e de tudo que nos tornam homens de bem?”, questiona o indivíduo preso no maçante engarrafamento do pensamento dominante. O problema é que tais valores naturalizam, por assim dizer, um imenso lastro de opressão e de injustiças sociais provenientes de um mesmo discurso reacionário, moralista e hipócrita que define o curso da realidade social. Discurso esse que só adere à consciência, não por acaso, através do preconceito latente dos interlocutores. Em muitos casos temos o desprazer de ouvir coisas como: “Se existem tantos bandidos soltos pelas ruas, a culpa é das famílias que não deram um bom corretivo nos marginais”, “Se existe tanta marginalidade a culpa é do Estado que não pune os bandidos de forma mais severa”, “Se existe tanta pobreza é porque existem muitos preguiçosos que não querem trabalhar”, “Se existe tanto desemprego a culpa é dos programas sociais que incentivam as famílias a ficarem gerando filhos para não precisarem trabalhar”, “A família brasileira está se perdendo dos valores morais, preferindo viver na mais pura imoralidade!”… É foda.

Sobre o povo pobre que se organiza para lutar pelos seus direitos e pela própria sobrevivência, desfere-se o ferro em brasa do julgamento dos poderosos. “Vagabundos”, denunciam os homens de bem. A identidade desse outro — o pobre — aparece como uma aberração indigesta à família burguesa. Tolerada apenas quando esse outro se revela subserviente, seja como operários obedientes ou como prestativas empregadas domésticas. Características que fazem do pobre honesto um estandarte do pensamento burguês: “vejam só, se o cara é bandido isso é uma escolha dele, pois o irmão dele que teve as mesmas condições de vida escolheu ser um trabalhador honesto”. Assim, o sujeito que se sujeita à relação de exploração do trabalho torna-se o modelo do homem correto e honesto. Já todos aqueles que se recusam a participar do esquema infligido pelos arquitetos do sistema tornam-se inimigos da ordem e, portanto, merecedores não apenas do isolamento social como das agressões severas do sistema carcerário. Sistema prisional este que a classe dominante jamais experimentará significativamente, mesmo que as mais nefastas falcatruas venham a ser exercidas paulatinamente por imensos bandos. Ainda assim, o discurso que impera é constituído sob a mesma falácia que legitima lógica organizacional da sociedade: “somos todos iguais perante a lei”.

Não obstante, a visão de classe dos que conduzem as regras sociais é de imenso desdém — quando não de medo — sobre aqueles que constituem a base da pirâmide social. Desdém no trato e na aplicabilidade de medidas formais e medo diante a própria fragilidade frente àqueles que já estão acostumados com uma realidade pra lá de agressiva. Ainda maior é o medo sobre a possibilidade dos famigerados se unirem em prol de um objetivo comum. É preciso, portanto, anular essa identidade coletiva e subjugá-la, pois trata-se de um "desvio" social que, se não for reprimido o quanto antes, colocará em risco a conveniente ordem da vida social e a paz das famílias de bem. Se a classe subjugada está se organizando e está disposta a lutar, eis que se faz necessária a urgente intervenção do Estado: “abram alas para o fascismo e deixem o golpe passar!”. Assim marcharam as famílias com Deus pela liberdade em 1964. Não por acaso, a família que foi às ruas e legitimou o golpe militar de 64 é a mesma família representada pelos homens de bem que hoje preenchem as cadeiras do congresso. Trata-se daqueles que foram ao púlpito vomitar toda a arrogância do discurso burguês no rito do impeachment, fazendo com que o movimento da história perpetuasse um vicioso círculo de injustiças.

A instituição da Família, incisivamente defendida pela maioria dos parlamentares, representa um conceito ideológico conservador de valores que, ao longo de séculos, buscam legitimar as relações de opressão entre os indivíduos e classes. Desde a micropolítica familiar à política institucional, a cultura da opressão enraíza-se de tal forma no cerne da sociedade que se torna o amálgama que conforma a conduta dos indivíduos para com seus pares. Os políticos interessados em manter desniveladas essas relações de poder são, em sua esmagadora maioria, homens brancos que mantém, em suas rédeas, seus súditos: a mulher e o Estado, ambos sob domínio do masculino. Não por menos, congênitos de mesma origem semântica (pater familias): a pátria é o patriarcado. Assim como o conceito burguês de Família infere uma relação de dominação no ambiente doméstico, o Estado, mesmo aquele dito “democrático”, permanece sequestrado pela mesma linhagem hereditária, reafirmando e perpetuando a dominação e a opressão em nível macro-social.

Sabemos que o Todo-Poderoso não erra e mantém o mundo sob a mais impecável justiça divina. Deus, portanto, é o grande aliado que marcha envolto de anjos e suas trombetas ao lado das famílias de bem. Inclusive, Ele, de tão piedoso que é, ainda concedeu o livre-arbítrio àqueles que desejam, através do ~mérito~ do próprio esforço individual (jamais coletivo), deixar as bases da pirâmide, subir ao topo e alcançar a glória. Assim sendo, para o reacionário conservador de direita, o mundo está em perfeita ordem… Até porque, nada é mais legítimo que o direito de se ter privilégios às custas dos direitos dos outros.

Voltemos à paz do algoritmo, 
pois a paz de Deus continua presa em alguma sala do DOI-CODI.