É a Inovação, Estúpido!

Ano passado, começaram a instalar tubulações de gás no bairro onde moro. Logo depois, começaram a aparecer nas caixas de correio panfletos alarmistas de um “Sindicato dos Distribuidores de Gás Liquefeito de Petróleo”. No panfleto, constavam todos os perigos que o gás canalizado traz às famílias. Li aquilo como leigo e constatei que a instalação de tubulações de gás no bairro traria mais riscos que a instalação de uma usina nuclear com a segurança de Chernobyl.

Esse texto não é sobre gás encanado. Nem sobre o bairro em que eu moro. É sobre inovações que mudam a maneira de nos relacionarmos com o mundo, e também sobre a resistência a essas inovações por quem esteve o tempo todo confortável em um campo de trabalho e agora pode ver tudo isso escapar pelos dedos.

Esse processo em que as coisas são feitas de um jeito e progressivamente passam a ser feitas de outro jeito é chamado de inovação. Mas só é chamado de inovação quando esse processo novo é bom o suficiente para substituir o processo antigo. Ou quando recebe incentivo e investimento suficiente. Não importa o motivo: o que importa é que no processo de inovação alguém sempre ganha e alguém sempre perde. O novo não coexiste pacificamente com o antigo. Os computadores pessoais tornaram as máquinas de escrever equipamentos inúteis, e os veículos à motor fizeram o mesmo com a propulsão animal.

Quando falamos de inovação, um nome salta aos olhos: Joseph Alois Schumpeter. Provavelmente ele é até hoje o sujeito que escreveu com mais precisão sobre o tema. A inovação está ligada à produção. Obviamente, também está ligada ao capitalismo. Mas tudo nesse mundo está ligado ao capitalismo. Então, segue a definição:

“Produzir significa combinar materiais e forças que estão ao nosso alcance. Produzir outras coisas, ou as mesmas coisas com método diferente, significa combinar diferentemente esses materiais e forças. Na medida em que as “novas combinações” podem, com o tempo, originar-se das antigas por ajuste contínuo mediante pequenas etapas, há certamente mudança, possivelmente há crescimento, mas não um fenômeno novo nem um desenvolvimento em nosso sentido. Na medida em que não for este o caso, e em que as novas combinações aparecerem descontinuamente, então surge o fenômeno que caracteriza o desenvolvimento. Por motivo da conveniência de exposição, quando falarmos em novas combinações de meios produtivos, só estaremos nos referindo doravante ao último caso. O desenvolvimento, no sentido que lhe damos, é definido então pela realização de novas combinações.”

Isso tudo é muito bacana, mas não explica o óbvio: por que as coisas estão mudando tão rápido? Bem, é só olhar para a história como uma série de processos de inovação tecnológicas incrementais. Esses processos são cada vez mais complexos, uma vez que dependem das tecnologias desenvolvidas imediatamente antes. Por isso, para Schumpeter, essas inovações ocorrem em ciclos. E essa ideia não é exatamente dele: foi desenvolvida antes por um economista russo que não teve muita sorte na vida: Nikolai Kondratiev.

Kondratiev era um filho de camponeses russos que se formou pela Universidade de São Petesburgo. Ele começou a analisar a história das economias desde a revolução industrial e propôs um modelo econômico em que o desenvolvimento não era algo contínuo, mas funcionava como em saltos, que exigiam um enorme investimento prévio em pesquisa básica.

Bem, Kondratiev era azarado porque publicou isso na Rússia, em uma série de nove livros, entre 1922 e 1928. Suas ideias hoje são mais ligadas ao intervencionismo estatal do que ao liberalismo. Pra falar a verdade, ele bebia bastante da própria teoria marxista a respeito do tema. Mas isso não fez com que o economista conseguisse a graça do recém empossado líder Iossif V. Djugashvili, o Stálin. Foi preso em 1930 e fuzilado no cárcere em 1938.

Mas seus trabalhos não passaram despercebidos no Ocidente. E o primeiro a se apropriar de suas teorias foi justamente Schumpeter. A ideia fazia sentido no contexto do capitalismo, e ajudava a explicar o papel das inovações e porque o capitalismo depende continuamente delas. O capitalismo não é estático:

“O capitalismo é, por natureza, uma forma ou método de transformação econômica e não, apenas, reveste caráter estacionário, pois jamais poderia tê-lo. Não se deve esse caráter evolutivo do processo capitalista apenas ao fato de que a vida econômica transcorre em um meio natural e social que se modifica e que, em virtude dessa mesma transformação, altera a situação econômica. Esse fato é importante e essas transformações (guerras, revoluções e assim por diante) produzem freqüentemente transformações industriais, embora não constituam seu móvel principal. Tampouco esse caráter evolutivo se deve a um aumento quase automático da população e do capital, nem às variações do sistema monetário, do qual se pode dizer exatamente o mesmo que se aplica ao processo capitalista. O impulso fundamental que põe e mantém em funcionamento a máquina capitalista procede dos novos bens de consumo, dos novos métodos de produção ou transporte, dos novos mercados e das novas formas de organização industrial criadas pela empresa capitalista”

Dito isso, deixo uma figurinha para vocês:

O que é essa figura? Bem, basicamente é o resumo de tudo o que foi falado sobre Schumpeter e Kondratiev. Com um detalhe: os ciclos econômicos parecem cada vez mais curtos. Ganha-se cada vez mais por cada vez menos tempo. E a tecnologia, com seu caráter incremental, acaba inserida em cada vez mais aspectos da vida.

Isso ajuda a explicar porque o meu bairro está recebendo redes de gás encanado. Mas também ajuda a explicar porque taxistas estão inconformados com motoristas do Uber que se apropriam de “seu mercado”. Ou por que as TVs por assinatura querem fazer tudo o que puderem para dificultar a vida da Netflix. Ou por que o Portal Terra praticamente fechou a sua redação, demitindo 80% dos funcionários e fechando todas as suas sucursais fora de São Paulo.

Tá tudo lá, explicado pelo Schumpeter. Quando as empresas inovam processos e o novo processo realmente facilita a vida das pessoas, não importa o que o detentor do processo antigo faça: uma hora ele vai ser passado para trás. A dúvida é QUANDO. E isso define toda a questão. Porque os ciclos econômicos estão cada vez mais curtos. Quando um taxista agride motoristas do Uber, ele só está querendo ganhar mais tempo para exercer sua função. O lobby junto aos governos para a proibição do aplicativo tem exatamente a mesma função. A questão é: quanto mais tempo o taxista puder exercer sua reserva de mercado, menos vai compensar um serviço como o do Uber.

Mas a tecnologia está aí. E, se não for o Uber, será outro aplicativo. Daqui algum tempo, provavelmente com carros autônomos. Com a Netflix, é a mesma coisa. É provável que o táxi, do jeito que conhecemos hoje, não exista mais daqui 50 anos. Talvez a TV por assinatura também não.

Mas há uma ressalva aí: estamos no Brasil, um país tradicionalmente conhecido por manter reservas de mercado e zelar por elas. É só reparar como ainda existem ascensoristas e cobradores de ônibus por aí. Ou como o governo (e aqui falamos de qualquer governo) subsidia setores que ainda se mantém lá no terceiro Kondratiev wave, como as montadoras de veículos, por exemplo.

A cultura do corporativismo é muito arraigada no Brasil. Desenvolvemos tecnologias fantásticas para a manutenção do status quo. É só ver como cartórios notariais funcionam maravilhosamente bem. Mas nada, nada supera a grande pérola da criatividade burocrática no país: tirar habilitação.

O Brasil tem um dos modelos mais caros e burocráticos do mundo no que se refere à habilitação de motoristas. No entanto, ainda somos um dos países do mundo com o trânsito mais violento. Alguma coisa nessa conta não fecha, e o motivo é simples: fiscalizamos excessivamente o processo e nos preocupamos muito pouco com o resultado. Daí, empregamos centenas de milhares de instrutores de autoescola, credenciamos milhares de médicos e psicólogos e fazemos um processo extremamente robusto e difícil. Só que há um problema: como a fiscalização é falha, sempre vai haver alguém usando a dificuldade para vender uma facilidade, como no caso do corinthiano Malcolm.

Olhando o processo de habilitação de motoristas, a conclusão é tão simples quanto assustadora: as estruturas burocráticas do nosso país favorecem MUITO a corrupção. E, tão grave quanto: são influenciadas por grupos de interesses que não apenas se beneficiam da corrupção, mas são refratários a toda e qualquer inovação.

Todos esses exemplos, da TV por assinatura ao processo de CNH, passando pelo taxista, pela empresa de gás, pelo cartório,, pela redação do Terra, pela montadora e pelo cobrador de ônibus, tem alguma coisa em comum: a justificativa de quem sempre ganhou com o status quo e agora está tendo seu espaço invadido. NÓS GERAMOS X EMPREGOS. É sempre igual. E é por isso que os governos do Brasil, sejam eles vermelhos, azuis, verdes ou amarelos, sempre vão se mobilizar para proteger os grupos de interesse estabelecidos.

Só tem um problema nesse raciocínio: ficaremos sempre com empregos simplórios, de baixo nível, que impedem o país de ser vanguarda em qualquer coisa. A melhor forma de barrar a inovação é patrocinar a manutenção do status quo.

É um pouco desalentador? É sim, não dá para negar. Mas lembrem-se que, mesmo no Brasil, as máquinas de escrever praticamente não existem mais. Uma hora a inovação se torna impositiva, inevitável. Uma hora, criamos empregos melhores, qualificamos melhor as pessoas e paramos de criar reservas de mercado para profissionais que tentam, à força ou por lobby, manter todo mundo no mesmo patamar de mediocridade.

Basicamente é isso. Eu pensei em bolar uma piada pra colocar nessa última frase, mas vou me comportar como se houvesse uma Ordem dos Humoristas do Brasil e só eles pudessem fazer ou escrever piadas no país. Já pensou que horrível seria se nós pudéssemos ouvir só piadas do pessoal do Zorra Total? É mais ou menos isso que acontece quando setores da economia tentam impor reservas de mercado sobre processos inovadores.