Jesus, o maior trouxa que já existiu

Que nós vivemos em uma geração individualista ao extremo, provavelmente mais do que a maioria das outras, não há nenhuma dúvida. Que as novas tecnologias impulsionaram esse individualismo, e aqui estamos falando especialmente da Internet, também não é novidade pra ninguém. Manuel Castells já dizia isso lá no final da década de 90:

“A dissolução das identidades compartilhadas, sinônimo da dissolução da sociedade como sistema social relevante, muito provavelmente reflete a atual situação de nosso tempo. Nada nos parece dizer que novas identidades têm de surgir, novos movimentos sociais têm de recriar a realidade e novas instituições serão reconstruídas no sentido de lendemains qui chantent (…). Contudo, observamos também o surgimento de poderosas identidades de resistência, que se retraem para seus ‘paraísos comunais’ e recusam-se a ser apanhadas de roldão pelos fluxos globais e individualismo radical” ( CASTELLS, M.. O Poder da Identidade — A Era da Informação: Economia, Sociedade e Cultura, volume 2. São Paulo: Paz e Terra, 2000, p. 417)

Nesse contexto da nossa geração, em que nos tornamos individualistas radicais ao mesmo tempo em que assumimos “identidades de resistência”, expressas em grupos criados por afinidades temáticas diversas, a decorrência óbvia é a de que, sim, nós estamos vivendo em um ambiente duplamente concorrencial: ao mesmo tempo em que concorremos uns com os outros por coisas cotidianas, como o assento do Metrô ou a melhor vaga de emprego, concorremos entre grupos, e as ideias desses grupos de identificação passam a ser excludentes entre si, enterrando toda e qualquer chance de se chegar a um consenso.

Nesse contexto todo, existe um tipo de pessoa que não está ligando tanto assim para a expressão de seu individualismo radical. E, por conta disso, não faz questão de levar vantagem em tudo. Esse tipo de pessoa, em uma sociedade pautada pelo individualismo radical, passou a ser chamada por um adjetivo pejorativo: trouxa.

É bom ressaltar que o trouxa não é só aquele que não quer ser individualista ou levar vantagem. Algumas vezes é o que não consegue. Mas a verdade é que o trouxa é aquele, que de um jeito ou de outro, carrega um fardo do qual poderia se livrar, de acordo com a visão de quem, em tese, não é trouxa.

A origem do adjetivo trouxa está atribuição de uma qualidade adjetiva à trouxa como substantivo. O que é a trouxa? Em geral é um pano ou lençol esticado no chão, sobre o qual se coloca um sem número de coisas em cima (roupas, em geral). Daí você junta as pontas do pano ou do lençol e na maioria das vezes as amarra em um pedaço de madeira, que serve como apoio na hora de carregar a trouxa nos ombros. Tem quem descarte a madeira e carregue a trouxa na cabeça também.

Uma trouxa é mais ou menos isso (Fonte: http://arquiteturapossivel.blogspot.com.br/2010_10_01_archive.html)

Em resumo: a função da trouxa é juntar o maior número de coisas possíveis e carregá-las. Sem uma ordem definida, sem uma relação de hierarquia. Está tudo dentro da trouxa porque há um senso de missão na trouxa, que é o de transportar o maior número de coisas possíveis de uma origem a um destino.

Com essa reflexão, é possível chegar a uma primeira conclusão meio aterradora sobre a nossa sociedade: ser qualificado como trouxa é pejorativo porque, em uma sociedade individualista, em que as pessoas só pensam em seus sonhos e interesses, carregar o fardo dos outros é algo tão estranho e anormal que é digno de gozação.

Isso tudo acontece porque a meritocracia venceu. Não adianta se rebelar e dizer que você é contra: o fato se você ser contrário a ideia de meritocracia não a torna menos vencedora em nosso tecido social. A vitória da meritocracia não é expressa nos casos de ascensão social frequentemente expostos como exemplo, mas em coisas mais sutis, como a existência de “trouxa” como adjetivo pejorativo. E isso ocorre porque já estamos tão condicionados às relações de causa e efeito impostas pela meritocracia que nem as percebemos mais.

Se trabalhamos, MERECEMOS ganhar por isso. Se fazemos algo por alguém, MERECEMOS a gratidão dessa pessoa. Tudo o que fazemos é guiado por essas relações de causa e efeito. Somos motivados pela sensação de merecimento, e nos consideramos trouxas quando a expectativa criada por essa sensação de merecimento não é correspondida. Somos ensinados a viver na lógica da meritocracia a vida toda e a carga negativa inscrita no adjetivo trouxa é uma prova do quanto essa lógica é algo quase inescapável.

Há um pouco mais de 2 mil anos, nasceu um cara na região da Judéia. Ele cresceu e, quando adulto, passou 3 anos mandando uma mensagem simples e didática para todo mundo: “sejam trouxas como eu sou trouxa” (1 Pe 1:16). Na verdade, a mensagem é “sejam santos, porque eu sou santo”, mas é basicamente a mesma coisa.

Porque esse sujeito não considerava o “ser santo” algo a ostentar ou um mérito, mas a capacidade de se esvaziar de tal forma de si mesmo a ponto de achar que carregar o fardo dos outros é algo natural. A ponto de não reclamar disso. E, de fato, esse sujeito levou essa história de carregar o fardo dos outros até o limite, entregando-se à morte por isso. E Ele mesmo fala isso: “ninguém toma a minha vida, mas eu a entrego” (Jo 10:18).

Na sociedade de hoje, Jesus Cristo seria considerado um trouxa. O maior dos trouxas. Afinal, qual é o sentido de dar a vida assim, sem reclamar de nada? Ele nem reclamou reconhecimento, nem falou “poxa vida eu passei 3 anos ensinando vocês e fazendo milagre pra vocês me traírem e negarem, sou trouxa demais hein”. Pelo contrário: depois que ressuscitou, Jesus foi lá falar pessoalmente com Pedro numa pegada “tudo bem, Pedro, eu sei que você me negou, mas pare de se condenar, isso já passou e vou precisar muito de você daqui pra frente” (Jo 21:15–17)

Muito trouxa esse Jesus, né? Pedro sacaneou na hora em que Ele mais precisava, caramba. Pedro tinha que pagar pelos seus atos. Jesus deveria bloquear Pedro em todas as redes sociais e ainda fazer textão-indireta falando que CERTAS PESSOAS disseram que iam ficar com Ele até a morte e antes do galo cantar estavam lá, negando três vezes. Jesus não fez isso. Mas é o que faríamos hoje, infelizmente. Porque não sabemos ser trouxas como Jesus foi. Porque nossos olhos estão cegados pela meritocracia, por achar que toda ação precisa ter o seu devido reconhecimento.

Talvez esteja na hora de sermos mais trouxas. De pararmos um pouco de ter vergonha disso. De fazermos as coisas sem pensar no reconhecimento. De carregarmos um pouco o fardo dos outros simplesmente porque a relação é a base da nossa existência e lá no fundo somos todos semelhantes em alguma medida. Essa história de vivermos achando que tudo merece recompensa e de que estamos em uma escalada social, com o objetivo de ver todo mundo de cima no final dela, não está com nada.

Vamos bater no peito e dizer: “nós somos trouxas mesmo”. E vamos nos orgulhar disso. Não é demérito nenhum. E quem nos mostra isso é Jesus, o maior trouxa que já existiu.

Glossário de passagens bíblicas utilizadas:
Mas, assim como é santo aquele que os chamou, sejam santos vocês também em tudo o que fizerem, pois está escrito: “Sejam santos, porque eu sou santo”. 1 Pe 1:15–16
Por isso é que meu Pai me ama, porque eu dou a minha vida para retomá-la.
Ninguém a tira de mim, mas eu a dou por minha espontânea vontade. Tenho autoridade para dá-la e para retomá-la. Esta ordem recebi de meu Pai”. Jo 10:17–18
Depois de comerem, Jesus perguntou a Simão Pedro: “Simão, filho de João, você me ama realmente mais do que estes? “ Disse ele: “Sim, Senhor, tu sabes que te amo”. Disse Jesus: “Cuide dos meus cordeiros”. Novamente Jesus disse: “Simão, filho de João, você realmente me ama? “ Ele respondeu: “Sim, Senhor tu sabes que te amo”. Disse Jesus: “Pastoreie as minhas ovelhas”. Pela terceira vez, ele lhe disse: “Simão, filho de João, você me ama? “ Pedro ficou magoado por Jesus lhe ter perguntado pela terceira vez “Você me ama? “ e lhe disse: “Senhor, tu sabes todas as coisas e sabes que te amo”. Disse-lhe Jesus: “Cuide das minhas ovelhas.
João 21:15–17
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