Mistura mais política nisso, por favor

Alunos da EE. Fernão Dias protestando (Fonte: G1)

Na última semana, Geraldo Alckmin, ao ver alunos invadindo as escolas públicas de São Paulo para defenderem o direito delas continuarem existindo, disse que “tem política misturada nisso”. Alckmin já tinha dado declarações semelhantes em relação à greve dos metroviários e à crise hídrica. Sempre em tom pejorativo, como se “política” fosse algo ruim. Acho bom esclarecer ao Alckmin que tem política misturada sim, e isso é ótimo, ao contrário do que ele quer fazer parecer.

Em primeiro lugar, é bom ressaltar uma coisa: Geraldo Alckmin não é burro. De 2013 pra cá, tem usado sistematicamente a generalização da política como algo ruim por um motivo simples: isso dá votos, dá muitos votos. Porque um dos vários efeitos negativos das manifestações de junho de 2013 foi a descrença geral com o sistema político. Em um país em que a educação política da população é algo quase inexistente, Alckmin capitaliza a revolta dessa população descrente com a política a seu favor. Como? Criticando todo movimento de oposição a ele como “político”. Não dá para dizer que não está dando certo: ele foi reeleito no 1º turno na eleição de 2014.

Mas, oportunismo político à parte, é bom explicar pro Alckmin que, sim, movimentos como o dos alunos invadindo escolas são políticos. Política, em sua conotação original, remete à organização da Pólis grega, à decisão sobre como é administrada a Pólis, às reuniões que definiam o que as cidades-estado gregas deveriam fazer — de guerras a obras públicas. Os alunos que estão acampados dentro das escolas estão tentando, de alguma forma, influir na organização dos equipamentos públicos na cidade. Isso é política por excelência.

E política é algo ótimo. Além da política, os gregos inventaram um outro negócio bem bacana: a democracia. Há pouco mais de 2500 anos, todo o mundo conhecido era repleto de governos tirânicos centralizados na mão de faraós, imperadores ou reis, que frequentemente eram tratados como divindades. A ideia de Atenas de forjar um governo baseado em decisões tomadas coletivamente após discussão é tão inovadora que colocou os gregos milênios à frente de seu tempo. Tanto que as ideias desenvolvidas na Grécia foram retomadas com muita força dois milênios após sua concepção, no contexto do Renascimento do século XVI. E algumas delas são base para a nossa sociedade atual. Pra falar a verdade, os gregos estavam tão à frente de seu tempo que ainda hoje a maioria da população não entende muito bem o que significa democracia.

Mas os estudantes de estão acampados dentro das escolas entenderam. E entenderam que democracia não é algo que se restringe ao direito de voto exercido periodicamente (e muito mal, por sinal). A democracia pressupõe liberdade de manifestação e de organização, em defesa do reconhecimento de novos direitos ou da manutenção de direitos adquiridos. Quando essa luta é qualificada pejorativamente por um governante como “política”, é hora de começarmos a nos preocupar.

E isso por um motivo simples: para políticos como o Alckmin, interessa muito que a percepção da população sobre a política seja ruim. Não só por causa dos votos, mas principalmente porque Alckmin é um representante do status quo político. Assim como Dilma, Eduardo Cunha ou os deputados e senadores do Congresso Nacional. E a maior ameaça ao status quo político não é o político do partido adversário: é uma população que participe de fato da política. Enquanto a população enxergar a política como algo negativo, sujeitos como o Alckmin continuarão nadando de braçada, mesmo que a percepção sobre seu partido político também seja negativa.

A percepção negativa da política, no caso brasileiro, é explicado por um monte de fatores, mas um dos principais é o nosso histórico de transições políticas não conflituosas entre sistemas fortemente centralizados e sistemas mais descentralizados. Como enxergar positivamente a política se o político que participava do regime opressor da ditadura militar continua com o mesmo status em um regime democrático? Também é necessário ressaltar que, no regime militar, houve forte desincentivo à participação política — implicava em correr risco de vida. Nisso, perdemos duas gerações: uma que não se envolvia em política por medo de ser torturada e uma que não se envolvia por ter certeza de que não adiantava nada.

Além disso, há mais um fator relevante na conta: o modelo de financiamento de campanhas adotado após a redemocratização, fa falta de regularização do lobby no país e a lei de licitações privilegiaram fortemente o modelo de “investimentos”: as empresas investiam em candidatos para que eles pudessem “pagar o investimento” quando eleitos, ao aprovar leis favoráveis aos financiadores.

Com isso, a representação política, especialmente no Legislativo, foi sequestrada por políticos de três tipos distintos: os financiados pelas corporações que querem lobby, os ligados a grupos de interesse, como igrejas e sindicatos, que querem influência, e os “políticos pop”, eleitos por terem forte apelo na mídia, por terem fama prévia. É necessário dizer que esses tipos não são puros e se complementam: grupos de interesse podem conseguir dinheiro, por exemplo, para comprar horários na TV e fornecer fama a pessoas que futuramente serão representantes políticos. É o que acontece habitualmente em igrejas neopentecostais como a Universal do Reino de Deus e a Assembléia de Deus.

O caso mais extremo desse modelo é Eduardo Cunha, que criou uma estrutura interna de financiamento a políticos para mantê-los sob controle (já expliquei isso aqui). E só confirma o argumento do Alckmin: quanto mais a população estiver longe da política, mais os políticos criarão estruturas para se manterem no poder como Eduardo Cunha fez (isso ajuda a explicar porque ele ainda não caiu, mesmo com as evidências bem documentadas de que ele cometeu diversos ilícitos). E também explica porque Eduardo Cunha está desesperado para restabelecer o financiamento empresarial de campanhas políticas, derrubado pelo STF. É o cerne do esquema que ele criou.

Por isso, é necessário dizer: alunos acampando em escolas públicas é política sim. Mais do que isso: é exatamente a política que precisamos. É a política que incomoda de verdade. É a política que nos dá esperança de que, de alguma forma, o status quo pode mudar nos próximos anos. É a política que nos faz pensar que essa geração, que está chegando agora, que já nasceu familiarizada com a democracia e com a Internet, pode fazer mais pelo nosso país que as últimas duas, paralisadas pelo medo e pela descrença.

Continuem fazendo política, garotada. Porque nós precisamos de política. Precisamos de política pra caramba. Quanto mais política vocês fizerem, melhor. E não se incomodem com quem fala que política é ruim. Porque quem fala que política é ruim tem medo de mudança, e pra fazer mudanças é preciso ter coragem.

Isso vocês já estão demonstrando ter. Torço por vocês.