EU MATEI MINHA AVÓ

e carreguei comigo essa culpa imaginária, criada quando eu tinha 7 anos, quando ela morreu de câncer no esôfago

a vovó Lídia não tinha voz, era uma mulher silenciada, por ser mulher, por ser pobre, por ser nordestina, por ser de Garaunhus (por sinal a terra do senhor que presidiu o pais por 8 anos e tirou milhões de pessoas da miséria, mas enfim)

a criança levada que eu era, pensava que a vovó Lídia tinha morrido por que eu a beliscava, e me divertia puxando a pele seca do braço dela, cheia de marcas de sol que, na verdade, eram hieróglifos de uma língua que só ela sabia. ela quase não falava, era mulher silenciada

a única lembrança que eu tenho dela sou eu correndo para abraçá-la com medo do barulho de helicóptero. eu estava deitado no sofá da sala, chupando dedo e vendo pica-pau.

na noite de hoje, quando o Fabricio Moser perguntou pra plateia, ao final da peça dele “Laura” (em cartaz na Sala Baden Powel até o dia 27/08)sobre o que sabíamos sobre nossas avós, eu não soube o que responder

mas a dor que ela deve ter sentido na garganta não deve ter sido nem de perto parecida com o aperto que eu senti no pescoço ao lembrar da mãe da minha mãe - outra mulher, nordestina, silenciada pelo patriarcado

hoje, depois de alguns anos de terapia, eu sei que não matei minha avó, como minha cabeça pensava. ela não morreu porque eu a beliscava.

hoje, eu acertei as contas com este passado,

e se um dia eu matei minha avó, hoje a Lídia, pernambucana, renasceu dentro de mim.

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