Eu entendo a maior parte dos pontos que você tentar enfaticamente combater. Mas acredito que tenha subestimados algumas dessas limitações e rótulos que estabelecemos quando falamos de jogos. (Na real quando falamos de qualquer coisa.)
Os pontos que mais me incomodam no seu texto começam quando você coloca jogos como uma arte interativa, única e diferente das demais. Mas isso Não é necessariamente verdade. As outras mídias também pedem um nível de comprometimento e interação. Essa ideia de passividade não leva em conta o processo de leitura e interpretação que ocorre em qualquer mídia. Além disso, enaltece jogos como uma forma de “verdadeira interação e escolhas” o que é falso. Jogos eletrônicos, em sua maioria, criam a ilusão de escolhas, quando na verdade o jogador não é mais que uma engrenagem no sistema. Não digo que isso é ruim, mas isso nivela sua suposição de que jogos por serem interativos estão tão a frente de outras mídias em questão de fazer o observador/jogador “se importar”
N ão acredito que a discussão de que “jogos são artes” ainda exista. Isso já é bem aceito em todos os meios. Entendo seu ponto de liberdade criativa, e não se submeter as “regras”impostas por uma elite artística. Mas como isso já foi feito, o fato de que hoje jogos sejam vistos e aceitos como arte valoriza a mídia. São criadas exposições em museus, coleções e acervos que valorizam nossa mídia. Entendo que “não é necessário” mas isso é importante. Qualquer mídia iniciante quer ser reconhecida não só pelo grande público, mas pelos críticos. Agora que isso já foi estabelecido fica parecendo que você vem destruir o trabalho que pesquisadores e desenvolvedores lutaram para adquirir em uma época que eram ridicularizados por propor essa ideia. (fica bem chatão na real)
“ Existe algo mais ofensivo do que dizer que um jogo é “cinematográfico”? Que as narrativas serem sempre elogiadas como “perto da literatura”? Que certos jogos “quebram a quarta parede”? Você vê o quanto estamos nos limitando quando sequer pensamos assim?”
Curti muito seu parágrafo e admito que me irrita também essas comparações, mas aí é questão de abstração. É fácil para nós, pesquisadores/desenvolvedores de usar e comentar jogos com nosso nível de alfabetização na mídia. Mas essa alfabetização não é igual para todos. É bem comum que novas mídias emprestem conceitos e palavras de outras mídias enquanto se estabelecem. Cinema ainda é influenciado por conceitos da fotografia e nada mais justo que pessoas usam conceitos de cinema para avaliar jogos. Acho que o que você deveria criticar é o nível de alfabetização de nossa mídia, principalmente por aqueles que fazem “review”de jogos. Ao se concentrar nos termos você atinge os galhos não a raiz do problema.
“E essa auto-limitação já está acontecendo. Por que alguns sentem a necessidade de excluir walking simulators da categoria jogo? Somos tão inseguros assim para ficarmos monitorando constantemente os limites do que consiste um jogo?”
Então, acredito que isso ocorra justamente para que jogos não virem o conceito de arte que você justamente criticou. Se não houver uma discussão “qualquer coisa” vira jogo. Isso pode ser bom, ou pode ser ruim, é uma outra discussão. Mas o propósito é de proteger a ideia de jogo e de nos ajudar a analisar o que faz da mídia a mídia. Entendo que talvez você só esteja pensando em jogos do ponto de vista eletrônico ou um tabuleiro, mas jogos existem em diversas formas, na natureza, nos comportamentos, nas interações sociais e manter esse conceito bem formado é o que nos permite analisar esse comportamento em outras estruturas sociais e naturais. (infelizmente é algo pouco explorado desde o Huizinga, mas estamos ai tentando)
De qualquer jeito, bom texto, produz o questionamento que você queria, mas ainda acho que foi muito enfático em destruir as “amarras” dos jogos que acabou esquecendo que algumas dessas amarras são suportes e não grilhões.