A Disputa de Gênero no Divã

Riscar o nome do atacante Neymar da camisa da seleção brasileira, e escrever o nome da atacante Marta, não é algo que ocorre todos os dias na vida de um garoto de 12 anos. O curioso dessa situação específica é notar que a comparação entre dois atacantes, algo comum no futebol, ultrapassou as quatro linhas. A situação foi muito comentada nas redes sociais e levantou uma discussão que já foi vista em outras situações: a disputa de gênero.

No século passado, as mulheres conquistaram espaço em ambientes comuns aos homens. A inserção das mulheres no mercado de trabalho vem alterando o status quo de uma cultura de detrimento da participação do sexo feminino na sociedade, a partir do desenvolvimento da ciência, da ampliação do espaço urbano, êxodo rural e aumento da velocidade da comunicação, além de outras mudanças que o século XX trouxe.

Diante das alterações sociais citadas, é comum encontrar resistência conservadora às novas demandas da sociedade. Reportagens que noticiam violência contra a mulher, discriminação ou preconceito vêm se tornado frequentes no noticiário brasileiro. Por que isso acontece? Essa é a pergunta que nos motiva a pensar sobre o tema.

Na psicanálise, invertemos a lógica jornalística factual e sociológica. Ao invés de pensar como os acontecimentos atingem cada pessoa, nos perguntamos como cada pessoa é atingida pelos acontecimentos. Observamos como o sujeito se comporta diante dos fatos, como compreende sua vida em relação a isso, como ele se vê na situação. Ao invés de buscar uma resposta para cada pergunta, buscamos uma pergunta para cada resposta, em uma relação dialética. A psicanálise é a busca do sujeito pelo seu próprio ‘eu’, dentro da sua própria história. Portanto, mais do que o fato ocorrido, o que nos chama atenção é a repercussão do que houve e o motivo de tanta repercussão.

O espaço que vem sendo ocupado por mulheres foi reservado ao homem por muito tempo. A repercussão da rasura na camisa do garotinho despertou uma identificação inconsciente em muita gente. Alguns jornalistas chegaram a criticar a qualidade do futebol feminino em relação ao masculino. O famoso bordão da psicanálise — “Quando Pedro me fala sobre Paulo, sei mais de Pedro do que de Paulo”, ou então “Daquilo que tu queixas, qual é a parte que lhe tocas? ” — demonstra o que ocorre com as pessoas que resistem aos novos tempos em que a presença da mulher é realidade.

A visão de um psicanalista diante de um comentário conservador em uma rede social busca a identificação do autor do comentário com o fato comentado. Tentamos compreender de que forma o autor de um comentário conservador se vê naquele fato, sentindo tanto incômodo a ponto de questionar a presença feminina no futebol, inclusive com críticas agressivas em alguns casos.

Quando um garotinho de 12 anos resolve substituir Neymar por Marta em sua camisa, ele não riscou apenas o nome do melhor jogador brasileiro de futebol atualmente. De alguma forma, esse garotinho fez muita gente sentir a ameaça inconsciente do novo papel da mulher na sociedade, ao identificar o fato em sua própria história de vida.

A psicanálise não vai dizer ao sujeito o que ele deve pensar, ou o que ele deve considerar certo ou errado. A psicanálise vai questionar os motivos de uma opinião lhe causar sofrimento, incômodo ou frustração. As desilusões da vida cotidiana, seja na política, futebol, família, trabalho ou relacionamentos amorosos são situações comuns a todos.

Quando o desejo de se livrar daquilo que o incomoda, ou daquilo que lhe causa dor, for maior que o comodismo de permanecer com o sofrimento, o sujeito tem a possibilidade de trilhar um caminho em direção a si mesmo, sentindo menos incômodo com os acontecimentos da vida cotidiana. O novo lugar da mulher na atualidade é indicativo de amadurecimento social, resultante de processo histórico de construção da igualdade de gênero.