Companheira inesperada

A caxumba veio, e sem convite

Caxumba é aquele tipo de doença que nem a catapora: a gente acha que só as crianças pegam e, depois de uma idade, parece que ninguém nem fala mais sobre ela. Mas a parotidite, como também é chamada, tem outras semelhanças com a catapora, e não é exclusiva das crianças. A doença pode ser comum entre crianças e adolescentes entre seis e 18 anos, segundo estatísticas, entretanto, passa por demais idades. Desde o início deste ano, é comum ler notícias sobre os surtos de caxumba por aí. Nem os jogadores do Grêmio se safaram: em abril, quatro atletas do time foram afastados devido ao surto.

Tive caxumba com quase vinte e um anos de idade. Ou melhor, estou com caxumba enquanto escrevo este texto. Lado direito bastante inchado, do nada começa a doer e, depois de um tempo — ou de um paracetamol -, passa. Apesar do inchaço, ainda tive que fazer o famoso exame de sangue. Sim, o tão temido. Particularmente, eu morro de medo de agulhas, e imagens com sangue certamente não estão entre as minhas favoritas. Claramente não pude fazer no mesmo dia, porque precisa estar em jejum, passar várias horas sem comer nada. Mas, no outro dia, lá estava eu, falando para a enfermeira que ia retirar o meu sangue o quanto eu detestava aquilo. Doeu, é claro, era uma agulha dentro de mim, e o resultado ficaria disponível na internet até o final da tarde — amém, internet! Segundo o laudo, para a detecção de parotidite é o exame amilase, que o normal é entre 30 e 100 U/L (unidades por litro). “Se for caxumba, vai estar acima disso”, foi o que o doutor me falou. Quanto estava o meu ao final do dia seguinte, após o exame? 252 U/L. Confirmadíssima a dona caxumba.

A tão falada e confusa Carteira de Vacinação. Foto: Leonardo Stürmer/Beta Redação

O mais curioso de tudo é a quantidade de pessoas que vêm falar contigo, e são dois tipos: quem já teve caxumba querendo comparar e quem nunca teve querendo saciar a curiosidade de como é. Mas não é como se fosse algo padrão, dar igual em todo mundo. Assim como em mim só inchou de um lado e minha febre não passou de 37,5º, tem quem fique com os dois lados inchados, sem conseguir engolir, com dor de garganta e febres altíssimas. O mais comum, pelo que eu pude ver, ainda é o inchaço e desconforto, podendo estar atrelado à fadiga — ou a fadiga surge porque tem que ficar em repouso, também temos essa opção. Mas lembre-se: esses não são sintomas só de caxumba, procure um médico se sentir algo estranho.

Sendo homem, surge a outra pergunta — ou preocupação — das demais pessoas: “Os teus testículos não incharam?”. É, tem isso sim. Basicamente, os testículos do homem podem ficar com caxumba também, e levar à esterilidade, quase uma vasectomia gratuita. Bom, para ela não se desenvolver e não descer, pelo que aconselham é apenas não pegar frio e não fazer esforços, ficar em repouso entre sete e 10 dias. Ou seja, colocar casacos, deitar no sofá, tapar-se com uma coberta e colocar em dia todas as séries e filmes da Netflix. Além disso, há quem recomende dar preferência às comidas pastosas (até porque fica difícil de abrir muito a boca), não comer nada muito gelado e nem muito quente, fazer higiene bucal frequentemente (algo que deve ser feito diariamente, não?) e compressas com toalhas mornas no inchaço. Quase como extrair os dentes do siso. Tirando que tu não extraiu nenhum dente. E que tu não esperava ficar em repouso. E inchado.

E não tem prevenção? Tem, mas não parece tão eficiente assim. Quando crianças, devemos fazer a Vacina Tríplice Viral SCR, que serve para Sarampo, Caxumba e Rubéola — por isso as letras SCR no nome. Tentei ver na minha carteira de vacinação e consultando o Google e, francamente, alguém entende a carteira de vacinação? Nem consegui encontrar essa SCR ali no meio. Essa vacina é dada em crianças com 12 meses e depois aos 15 meses novamente. Pelo que soube, também pode ser tomada novamente até os 49 anos, que nem os jogadores de futebol que não haviam pego caxumba fizeram, e estão disponíveis pelo SUS.

Ah, sim, e ainda tem a questão de vírus incubado, “eu estive contigo esses dias, será que vou pegar?”. Essa parte eu acho que ainda é muito relativa. Ninguém pareceu saber realmente quando as pessoas podem pegar. Eu convivi com colega de trabalho que teve caxumba, por isso devo ter pego, provavelmente. E quem conviveu comigo tem chances de pegar. Se tu já teve caxumba antes, nem esquenta: as chances são quase nulas. Já quem não teve… Bom, não posso fazer nada, mas saiba que não foi de propósito, tá bom? Ah, e se tu só teve de um lado, ainda tem chance de pegar no outro. Eu só soube que estava com o vírus quando minha glândula parótida decidiu que ia inchar, e certamente, se eu soubesse antes, não teria feito nenhum tipo de interação humana nesse meio-tempo.

Bom, fora isso, a caxumba até que foi tranquila para mim. Tirando o fato de ficar trancafiado em casa. Apesar de muitas vezes pensar que eu só queria ficar em casa pra conseguir dar conta dos trabalhos da faculdade — e também para colocar as séries e livros em dia, é claro -, não é legal ficar em casa. Legal seria se pudesse sair, dar umas voltas no shopping uma vez que outra, encontrar os amigos, não ficar deitado e sentado o tempo inteiro. Este aí na foto sou eu, inchado (qualquer semelhança com a Vovó Zona é mera coincidência). Sinceramente, não vejo a hora de voltar pra rotina. Acho que esse moletom e a Netflix já não me aguentam mais.


Originally published at http://www.betaredacao.com.br/opiniao-companheira-inesperada/ on September 13, 2016.

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