A Revolução de Cuiabazinho: Jean, Lucas & Black Cigarret’s

— uma jornada singular antes da entropia. —

E ra tarde. Mas não tão tarde: era de tardinha. No céu, no fitar do horizonte pairava um crepúsculo ao longe que brilhava forte como um cristal Swarovski recém lapidado. Percebia a silhueta de uma torre contra o sol que estava se afogando no firmamento do anoitecer. Era a torre mais alta da região, estava sendo construída havia muito tempo.

Torre de Cuiabazinho

— Hoje não vou beber com vocês, estou meio estressado. — 
 
 Com a voz semi-rouca de um senhor a beira da crise da meia idade, disse o rapaz Wieski, Lucas Pokriwieski, saindo da fábrica que produzia alguns materiais para a construção da torre. Lucas estava atravessando a linha tênue do crescimento para a vida adulta. Seu sobrenome vinha do amor que sua família nutria por Uísques centenários da região nórdica do globo.

— Ahh, Que dia puxado! Preciso relaxar — Estralando todos os dedos das mãos com os braços esticados na altura dos olhos.
 
Cinco a seis passos fora da fábrica e já no seu habitat natural, Lucas puxa do bolso esquerdo da jaqueta de couro que a muito outrora havia comprado de um mendigo, um maço de cigarros BlacK. Aliviado e com as pupilas dilatadas, desfitava a embalagem tal qual seu próprio criador ao criar vida na face da terra. Retirava de dentro da caixa com suprema sutileza o último cigarro restante, sentia o pequeno e preto cigarro se entrelaçando entre os seus dedos finos com a simplicidade de uma alma indomável.

Quando estava a levantar seu precioso cigarrette até a sua boca, ficou imóvel como uma estátua, não sentia suas pernas e sentia calafrios. Piscou os olhos, engoliu seco, olhou para baixo e levou as mãos a cabeça evocando a dúvida fundamental que como um apogeu o pertubara mentalmente:

— O isqueiro, esqueci o isqueiro?!

Ofegante, tremulo e suando frio, andava a passos largos como uma criança esperando chegar rápido a loja de doces mais próxima. Pensativo de como e por que tinha esquecido a parte intrínseca ao processo de tabagismo relaxante que a humanidade aperfeiçoou na busca com a mãe terra, sentenciou a si próprio.

— “Cuzão, sou um cuzão!” falhei comigo mesmo como falhei com meus pais.

Abalado e extremamente desnorteado, cerrou os olhos e focou no linear entre um cruzamento de duas ruas próximas a ele, ali, a nove ou dez metros, uma fogueira chamou sua atenção. O calor que ela emanava contagiou a parte mais gelada de seu corpo, o coração. Com um sorriso no rosto se aproximou da fogueira para acender seu finado e já velho moribundo cigarro.

Ele feria o cigarro no fogo como se a vida dele dependesse de um único trago, de uma unica baforada soltando o ar preso em seu pulmão. O cigarrate não servia a seu proposito, Lucas não entendia o porque de não ter sucesso em acender seu precioso BlacK na fogueira, ele olha para um lado e pro outro e pensa:

— “ O que vão pensar de mim, não sirvo nem pra acender um mísero cigarro.”

Olhou pra cima e piscou, uma lágrima caiu de seus olhos, abaixou a cabeça melancólico. Ouviu passos vagarosos vindo em sua direção, levantou a cabeça ainda com lágrimas no rosto, com sua visão meio embaçada via a silhueta de alguém estendendo a mão em sua direção, tirou os óculos, limpou os olhos e piscava forte pra restabelecer sua visão turva.

*Ouvia como cânticos angelicais*

— Não fique assim, tudo vai ficar bem.

Lucas, já recuperado da visão, limpou os óculos sem reconhecer o olhar cândido de seu salvador.

— Meu nome é Jean, Jean Bastos. Bem vindo a minha fogueira — disse sorrindo.

Jean era dono da fogueira que Lucas havia descoberto para se aquecer e tentar acender seu Black cigarret’s. Confuso, Lucas pergunta a seu novo conhecido:

— Sua fogueira?

Com os braços abertos, girando o corpo num angulo de 360-graus Jean sentencia:

— Sim, e esta é minha casa!

Jean Bastos. século XVIII, pintura a óleo por: Felipe Calado

Jean era o homem mais rico da cidade, era dono do Banco Social e de mais algumas lojas no entorno daquela região. Sentia que a tudo ali o pertencia. Com sua vestimenta de pele de urso que ele mesmo havia caçado no último inverno, galochas da última tragédia que aquela cidade tinha sofrido. Usava luvas de boxe para aquecer as mãos e uma barba que remetia a tempos antigos onde Maomé tinha caminhado espalhando a palavra do divino.

Com o último cigarro entrelaçado em seus dedos Lucas diz a Jean que estava buscando apenas acender seu precioso amigo e que seu dia na fábrica não foi um dos melhores. Usando de sua empatia para ajudar seu novo amigo na sua busca pelo tabagismo, Jean convida Lucas a sua casa e diz que lá “teremos onde fumar e assar umas carnes.”

Esboçando um sorriso melancólico, Lucas aceita o pedido e, ao chegar na residencia de Jean notou que ele colecionava troféus e relíquias antigas de povos que não mais existiam. E viu na parede direita da sala um quadro pintado a mão. No quadro, uma torre, grande, verticalmente estendida e larga, tinha entradas e saídas para qualquer um dos pontos cardeais.

O quadro retratava a torre onde a fábrica que Lucas trabalhava cedia boa parte dos materiais de construção. Ele apontou para o quadro e disse em voz alta:

— “Conheço essa torre!! é a “Cuiabazinho Tower(Torre de Cuiabazinho)”, não é?”

—Sim. disse Jean, virando-se em direção ao quadro. — Já faz tempo, longos anos que estou por trás desse projeto. A torre a sua frente será a maior obra arquitetônica de Cuiaba e terá meu nome nela — acendendo um cachimbo.

Indo em direção ao seu mais novo amigo e, fazendo uma concha com a mão, Lucas pede para acender seu preciso BlacK. Tragando o charuto semi-aceso Jean acende o cigarro de Lucas e ambos sentam para conversar.

Em meio ao debate de crise geopolítica, remuneração e a suposta ascensão do proletariado da época. Por um acaso ou obra do destino não se deram conta que a cidade estava em chamas depois de alguma tentativa de revolução.

Sem notar que os pés das cadeiras que ambos estavam sentados haviam derretido e vinham vagarosamente se soldando ao chão, as almofadas das cadeiras grudaram nas vestimentas dos dois rapazes e, quando se deram conta já estavam presos de tal forma que se assemelhavam muito a dois insetos grudados em uma teia de aranha;

Com uma taça de vinho presa em sua mão, um short da penalty, Jean sucumbi a fumaça e morre dizendo suas últimas palavras.

— MK KIDS recruta 7x—

Sem conseguir se mover, Olhos arregalados e com o seu último cigarro preso a boca, Lucas dá o último trago no seu preciso BlacK. sorri e diz:

— Cuzão.

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