Fortunati, o centroavante

Prefeito de Porto Alegre calça chuteiras, entra em campo e tenta balançar as redes
Um prefeito “diferente” daquele visto nos jornais

Por Leonardo Vieceli (texto) e Guilherme Rovadoschi (fotos)

A partida é amistosa. Mas apenas na teoria. Equipes amadoras de Porto Alegre, a SER Assis e o Gloriense esbanjam disposição para vencer o embate no Campo do Piriquito, na Vila Nova. Se em algumas jogadas faltam recursos técnicos aos atletas, sobram reclamações ao árbitro em alguns lances. “Tu louco, juiz?”, brada um reserva da SER Assis, que veste uniforme verde, branco e preto.

O relógio marca quase 11 horas quando a estrela do jogo chega ao local. Sorrindo, o camisa 7 do time tricolor aproxima-se dos colegas que assistem à partida no banco de suplentes. Destaca-se pelo porte físico: ele mede 1,98m. É o legítimo camisa 9, apesar de não carregar o número às costas.

Depois de sentar ao lado dos outros jogadores, o centroavante vai para o aquecimento no final do primeiro tempo. Ao estender as pernas no chão e apoiar-se sobre as mãos, sua posição lembra à de corredores antes da largada para uma prova de atletismo. No entanto, não é por conta da postura em campo que ele é reconhecido.

Aos sábados pela manhã, o prefeito de Porto Alegre, José Fortunati, 59 anos, abre mão das roupas formais para calçar chuteiras e jogar futebol com os amigos da SER Assis. Surge, então, um Fortunati diferente daquele que aparece nas manchetes da imprensa, atreladas ao seu trabalho na administração da Capital.

Mesmo com a 7, prefeito é centroavante de área

Colega de time e primo de Ronaldinho Gaúcho, Marcelo de Assis Machado classifica como “razoável” o desempenho do prefeito no gramado. “Ele joga quase todos os sábados. É um amigo nosso. Aqui, não o cobramos pelo conserto de um buraco na rua. Mas, se errar um gol, cobramos a chance perdida”, comenta Machado, que deixa escapar um sorriso no canto dos lábios.

Enquanto Fortunati segue distribuindo cumprimentos do lado de fora do campo, o Gloriense empata o jogo. Organizada pelo Grupo Canela Preta, a partida integra as comemorações da Semana da Consciência Negra no município. Além disso, o torneio serve para relembrar a luta contra o preconceito no futebol porto-alegrense entre o final dos anos 1910 e a década de 1930. À época, a Liga da Canela Preta reunia equipes da Capital formadas principalmente por atletas negros, que eram proibidos de frequentar clubes elitistas.

Questionado sobre a importância do evento para o combate ao preconceito racial, o prefeito é enfático na resposta. “Temos, sim, que debater esse assunto, porque acontece no dia a dia. A grande questão é criar políticas públicas para buscar a integração racial e o respeito mútuo. O torneio é uma forma de manter viva a chama da igualdade e da convivência”, afirma.

Assim que o árbitro apita o final do primeiro tempo, Fortunati e os demais jogadores reservas da SER Assis entram em campo para dar alguns chutes antes do reinício da partida. Por mais de uma vez, os toques na bola são interrompidos pelas fotografias tiradas junto ao prefeito. Depois de cinco minutos de aquecimento, ele caminha em direção ao centro do gramado e participa do pontapé inicial da segunda etapa.

Instintivamente, Fortunati se desloca ao campo de ataque. Parte em busca da grande área, o reduto de todos os centroavantes. Porém, as redes insistem em não balançar. A título de comparação, Fortunati sofre com o mesmo problema que o Grêmio — seu clube do coração — enfrentou durante a temporada de 2014: a dificuldade para criar jogadas de perigo aos adversários.

Em bom “futebolês”, a bola não chega. Os minutos passam, e a situação não se modifica. O centroavante se movimenta, mas as chances não aparecem. Mesmo quando o Gloriense está no ataque, a maioria dos olhares de fora do campo é direcionada ao mesmo alvo: o camisa 7 da SER Assis. “Toca pro prefeito!”, grita um rapaz, apoiado ao alambrado.

Vez ou outra, a partida esquenta. E Paulo Machado, um dos árbitros do jogo, é “elogiado” novamente pelos atletas. Enquanto isso, Fortunati continua a observar os lances de longe, com as mãos à cintura, comportamento que se repete por várias vezes. Apesar de não receber grandes assistências, ele não tira o sorriso do rosto. Talvez seja influência de Ronaldinho Gaúcho, que deu os primeiros dribles de sua vida ali, no Campo do Piriquito, e que costuma esbanjar alegria nos gramados mundo afora.

O prefeito, canhoto, até troca passes com a perna esquerda e disputa uma jogada aérea. Gols? Nada. Ao total, durante os 30 minutos da segunda etapa, Fortunati toca 10 vezes na bola. O empate persiste. E o juiz apita: final de jogo. “Até gostaria de dar um cartão vermelho para ele. Não tive essa oportunidade”, brinca Paulo Machado.

Da mesma forma que um jogador profissional, ainda dentro de campo, o prefeito-centroavante concede uma breve entrevista. “É mais fácil governar do que jogar futebol”, comenta. Antes de encerrar a sua fala, Fortunati é interrompido pelo árbitro reserva da partida: “Prefeito, quero que você dê um cartão vermelho para a Fernanda Melchionna e o Pedro Ruas (vereadora e deputado estadual, ambos do PSOL) pela troca do nome da Castelo Branco para Avenida da Legalidade e da Democracia”.

Faltaram assistências ao camisa 7 (Foto: Guilherme Rovadoschi)

Pedidos à parte, o camisa 7 prossegue a entrevista e toca em assuntos relacionados à bola. Diz que não compara o seu estilo de jogo ao de algum centroavante profissional. Entretanto, o porte físico lembra de certa forma os trejeitos do inglês Peter Crouch, que tem 2,01m de altura — três centímetros a mais do que ele.

Natural de Flores da Cunha, município da Serra Gaúcha com 27 mil habitantes, Fortunati foi reeleito em 2012 com 65,22% dos votos válidos à prefeitura da Capital, aquela que é, de fato, a sua grande área. É lá que os 1,4 milhão de moradores de Porto Alegre esperam que ele marque gols. Contudo, se a bola também estufar as redes no Campo do Piriquito, será ainda melhor.

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