Quando o amor bateu na minha porta
Da última vez que o amor bateu na minha porta ele vestia calças largas, uma camisa molhada da chuva ou de lágrimas e um chinelo que deixou na porta, eu deixei entra-lo, claro, até porque fui eu que o convidei. Nos abraçamos, eu não ligava se ele poderia me molhar, eu já estava molhada. Conversamos sobre nossa antiga faculdade que eu tenho certeza que ele odiava, sobre a arquitetura das casas dos meus vizinhos e sobre outros amores.
Eu soube que ele era o amor quando ele me contou seus planos para o futuro com os olhos brilhando, mesmo que fossem diferentes dos meus, eu não me importaria de mudar para fazer parte daquele sentimento de entusiasmo e alegria ao contar o nome dos seus cachorros. O amor bateu na minha porta outras vezes, por algum tempo, conversávamos sobre a vida em outro planeta e depois acabava em sexo ou brigadeiro, até que ele não precisava mais bater, eu não precisava mais convidá-lo, o amor já era de casa, mas sempre deixava o chinelo do lado de fora, o nosso futuro chegou e não foi como nenhum de nós dois planejávamos, meio que a gente gosta de surpresas, as discussões também vieram, mas sempre acabava em cafuné.
Um dia que o amor não voltou, não temi dele bater em outras portas, eu sei que ele sabia o caminho. O amor foi morar em outros planetas, eu sei que ele está planejando o nosso futuro lá, mesmo que não seja como o esperado, ele me deixou uma saudade no peito e o chinelo do lado de fora.
