Um astronauta com depressão

Leonardo
Leonardo
Sep 4, 2018 · 2 min read

Hoje foi difícil levantar da cama, o sol anuncia que aqueles dias estão chegando, antes esses tempos eram movidos a lágrimas e desamparos, hoje temos insônias e angústias — acho que é tão ruim quanto. Uma força tenta me puxar para a cama e me faz temer o dia. Falta a coragem, falta a força, falta as palavras, falta a fome, falta a fé. Falta tanta coisa. Mas eu resisto, me concentro em minha respiração e em meus pés, não deixo meu próprio corpo dizer que não sou capaz, desço as escadas fazendo o maior esforço dos últimos três meses, almoço. Uma, duas, três colheradas, eu sei que é difícil, mas você precisa comer mais — falo para mim mesmo. — quatro, cinco, depois de tanto lidar com esse lado, eu consigo negociar com ele. “Se você me deixar ir para a universidade eu posso voltar para a cama”, ainda não sei bem como faze-lo sair de mim ou consegui vence-lo, mas por enquanto negociar é o que está dentro das minhas possibilidades.

Na aula sorrio seco das piadas dos meus amigos, por um momento sou grato por estar vivo, mas mesmo assim ela sussurra que não é suficiente, que não sou suficiente. Não vou para a academia, volto direto para a cama como prometido, começo a pensar em quantos textos devo ler, quantas coisas devo fazer, o sistema certifica-se que irá me deixar acordado gritando aos meus ouvidos como sou improdutivo e o quanto sou incapaz, novamente tenho fome, mas não consigo comer. Tento distrair meus pensamentos autodestrutivos na internet, tento ler alguma coisa para enganar a mim mesmo que estou fazendo algo, mas tudo que consigo sentir é vazio, por mais esforço que tenha feito, como tentar encher uma bexiga furada, chega uma hora que não consigo mais soprar, meus pulmões secam, me concentro na respiração.

Me levanto novamente e tomo um banho, luto contra os leões suicidas e enquanto a água fria percorre meu corpo penso no fim. Não só no meu fim, mas na humanidade, todos esses anos de “avanços”, bondades e maldades, esperança e guerra, todas as artes, textos, palavras, humanos em uma enorme explosão, por um momento isso é reconfortante. Dizem que vai chegar um dia que o sol vai engolir a terra, por isso prefiro a lua, a madrugada, o silêncio, as estrelas, a escuridão me parece mais acolhedora, apago as luzes. A terra não explodiu ainda, mas eu consegui vencer aquele dia. Este foi um pequeno passo para a depressão, mas um salto gigantesco para um homem. Se você conseguir vencer um dia de cada vez, você consegue chegar a lua.

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Tento escrever nas horas vagas (nunca tenho hora vaga), as vezes publico umas palavras aqui e outras vezes no instagram @escrevidas.