Sarah Hegazi Presente! O drama das mulheres egípcias e a situação de lésbicas refugiadas no mundo.

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Sarah Hegazi protestando contra a guerra na Síria.
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Arte de Sophia Andreazza (instagram: @sophiaandreazza) em “femenajem” à Sarah na semana de sua morte.

O grito da lésbica torturada na família, nas prisões, nos manicômios permanece não escutado. Ela pode pedir ajuda a outros na sua dor, mas ela não pode ser ouvida por que ninguém parece estar escutando. Poucos ousam escutar. Quase ninguém toma posição. E eu acrescentaria que poucos parecem se importar com a sua tortura, talvez por ela ousar ser uma lésbica. (Susan Hawthorne — A Tortura de Lésbicas).

Na semana de conscientização sobre a situação de pessoas refugiadas no mundo e também semana de agitação por 3 anos do assassinato de Nicole Saavedra, lésbica chilena vítima de lesbocídio, ficamos sabendo da perda de mais uma vida lésbica: Sarah Hegazi, ativista lésbica egípcia refugiada no Canadá por motivo de lesboódio do Estado egípcio, comete suicídio. Por informações que coletei isso teria ocorrido no dia 14 de Junho. Sarah tinha 30 anos de idade, 4 a menos que eu.

Hegazi era como descreve seu instagram, socialista comunista, gay — não usava a palavra lésbica provavelmente devido a dificuldade ainda de acessar a palavra para uma mulher egípcia, vou comentar mais adiante, mas nós lesbofeministas usaremos e nomearemos Sarah assim — , e feminista. Trabalhava como desenvolvedora de software, uma área também desafiadora para mulheres. Sarah era uma revolucionária socialista presente na revolução egípcia durante a Primavera Árabe, e dava palestras sobre as revoluções no mundo árabe. Uma lésbica butch pelo que podemos perceber, sem performance de feminilidade, que deixou o hijab e dizia-se abertamente de esquerda e crítica da violência estatal, uma brava mulher corajosa e inteligente. Seus pais ficaram sabendo que era lésbica após o incidente que iria marcar sua vida: a perseguição e detenção de dezenas de lésbicas e gays egípcios por ocasião do show da banda libanesa Mashrou’ Leila cujo vocalista é Hamed Sinno é ativista abertamente gay. A banda enfrentou perseguições políticas, banimentos e ameaças em sua região de origem por advogar igualdade sexual e direitos LGBT. 56 pessoas foram presas depois dessa ocasião.

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Cena histórica onde um grupo levanta a bandeira gay, representado por Sarah que aparece por trás da bandeira nesta foto.
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Ocasião em que Sarah Hegazi levantou a bandeira LGBT, levando a prisão e perseguição de mais de 80 homossexuais no Egito em 2017, incluindo ela.

Em alguns países como Rússia por exemplo, levantar esta bandeira é crime. Mesmo assim ativistas dão um jeito de mostrá-la e levá-la num ato de desobediência civil, na Rússia alguns grupos conseguem trazer escondida e expôr bravamente nas manifestações do 1o de Maio, dia do trabalhador. Nunca é sem risco. Esse foi um momento de alegre rebeldia que virou um pesadelo na vida de Sarah:

“Foi um gesto de apoio e solidariedade, não apenas com o vocalista (perseguido em seu país por ser gay) senão com todos oprimidos (a bandeira acaba representando a luta por direitos humanos). Estávamos orgulhosos de levar a bandeira. Não teríamos jamais imaginado tamanha reação, tanto social como do Estado. Para eles eu era uma criminosa, alguém que buscava destruir a estrutura moral da sociedade” Diz Sarah.

Por meio desse gesto, cuja foto viralizou nas redes sociais enraivecendo o Estado Egípcio, Sarah se tornou um ícone das comunidades gays e lésbicas e ao mesmo tempo, infelizmente, um alvo para a violência estatal.

Logo do concerto, a mídia egípcia teve um papel fundamental em incitar a perseguição. Apresentadores religiosos de TV como Ahmed Moussa e Mohamed Al Gheit de grande público, começaram uma ampla campanha televisiva fomentando o ódio na opinião pública e cobrando do Estado que intervisse. E em seguida deu-se a prisão de inúmeras pessoas baseadas em suas sexualidades fossem supostas ou reais, assim como comportamentos fora do estereótipo sexual. A polícia egípcia se tornou notória globalmente pelos casos de perseguição de lésbicas e gays por meio de aplicativos de namoro por exemplo, contando com todo um aparato de vigilância tecnológico avançado para controlar a vida dos cidadãos. Também chegam a prender as pessoas nas ruas e em suas próprias casas. Muitas das pessoas presas em 2017 nesta caça às bruxas foram submetidas a testes anais forçados pela polícia. Duas das pessoas presas foram acusadas de violar a constituição e romper a segurança social e estatal, acusações que poderiam levar à 15 anos de prisão.

O objetivo desse evento foi de intenção de terrorismo de Estado na vida da população. De aí seguiu um estado de trauma e desespero na juventude egípcia, causando várias tentativas de suicídio, alguns destes concretados naquele momento. Ativistas ainda estão se recuperando do trauma desse backlash de 2017–2018. O apresentador de TV Mohamed El Gheity ficou preso um ano por receber um homem gay no seu programa.

Hegazi relata que foi torturada pelo governo egípcio ao longo dos três meses de sua detenção. Além disso, foi sujeitada a terapia de conversão por eletrocução e a violência sexual por outras mulheres presas à mando das ordens dos algozes que acreditavam que ela precisava ser punida. Relatou tudo isso numa publicação eletrônica do Partido da Aliança Popular Socialista. Sarah pretendia escrever um livro com as memórias da prisão de forma a ajudar todas e todos presos políticos sob Estados tirânicos árabes. Relata isso numa entrevista. Seguiu-se uma campanha de libertação em 2017, e depois de uns meses foi colocada em liberdade. Hegazi saiu com condenações de “promover deboche” e fazer parte de uma organização ilegal que “ameaça a paz pública e social, geralmente imputadas contra dissidentes políticos.

Sarah fica em liberdade apenas para descobrir que seus vizinhos e família a rejeitaram e que havia sido demitida de seu trabalho. De fato, o que poucos sabem na internet essa semana é que a sociedade egípcia celebrou o que aconteceu com ela, e mesmo essa semana com a notícia de seu suicídio houveram muitos haters na internet comemorando. A sociedade egípcia é conservadora e religiosa, marjoritariamente muçulmana mas também católica. Depois de tantos anos de teocracia e finalmente após a revolução árabe, segue com militares no poder. Uma sociedade que podemos dizer fascista, onde a população apoia o Estado guardião da sociedade e dos “bons costumes”, intervencionista na vida privada. Qualquer pessoa que se revolte contra a opressiva cultura patriarcal é estigmatizada. Nas palavras de Sarah, “A classe média egípcia assentou as bases para o ódio, a violência física e psicológica, o assédio sexual e o bullying. É a classe com mais voz na sociedade”. De acordo com o Centro de Pesquisa Pew, 95% dos egípcios crê que a homossexualidade não deve ser aceita pela sociedade. Tortura vigilante, agressões e execuções são tolerados pela polícia sendo cúmplice, se unindo à agressão ou simplesmente fazendo vistas grossas. Um relacionamento homossexual se faz-se público, a polícia poderá usar isso como evicência em um processo criminal pelas várias leis contra “Satanismo”, prostituição e imoralidade pública.

O irônico disso tudo é que a homossexualidade não é ilegal no Egito. Mas nos finais dos anos 90, a polícia passou a utilizar principalmente as figuras penais “anti-prostituição” e “contra o deboche” para prender e acusar jucidialmente a comunidade lésbica e gay. De tais leis, podemos imaginar a situação de mulheres em situação de prostituição — culpabilizadas pelo proxenetismo masculino, punidas e presas por serem exploradas sexualmente por homens, além da regulação do comportamento social das mulheres. Mas falaremos mais adiante sobre a questão da mulher egípcia.

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Sarah Hegazi em entrevista à CBC.

Traumas

Sarah é acolhida no Canadá como refugiada política logo após a sua libertação. Mas jamais o país representou um alívio ou um lar para ela. Com ela carregou o estresse pós-traumático após a prisão, os pesadelos, depressão profunda e ataques de pânico.

“Eu quero superar isso e quero esquecer, mas não, eu ainda me sinto presa na prisão”

O Canadá representou, penso eu como psicóloga, perdas profundas: a terra natal, a família, o trabalho, a comunidade na qual vivia, vínculos e o ativismo importante que realizava lá. Lá se viu em profunda solidão cultural e afetiva, apartada de sua mãe e irmãs e irmãos que permaneceram lá. Depois de um mês que Sarah chegou ao Canadá, sua mãe morreu de câncer e se encontrava em exílio, sequer pode velar ela. A perda da mãe causou profundo impacto emocional. Também outro aspecto que podemos imaginar é o da xenofobia e a dificuldade de habitar uma terra estrangeira.

“O Lar não é sobre terra e fronteiras. É sobre as pessoas que você ama. Aqui no Canadá, eu não tenho pessoas, não tenho família, não tenho amigos. Portanto não sou feliz aqui”.

Mesmo estando grata pelo acolhimento e proteção que Canadá proveu a ela, por meio da organização Rainbow Railroad, seu sonho realmente era retornar à sua terra natal e continuar sua luta contra a discriminação, o imperialismo ocidental e o capitalismo. Mas para que pudesse fazer isso ela precisava dominar o trauma da prisão que ela descrevia como uma tarefa quase intransponível. Ela queria se libertar desse fantasma para poder ajudar seu irmão e irmã e milhares de pessoas que sentia que precisavam dela.

Ela também queria chamar atenção não somente para si, mas para muitas outras pessoas definhando em prisões nas mãos de regimes ditadoriais.

O cantor Hamed Sinno vocalista da banda do concerto fatídico onde Sarah erguei a bandeira, disse em nota que “lamentava ter feito acreditarem que eles nos veriam como humanos”. Sim, como mulher cabeu a ela a pior parte Hamed. Não é a mesma coisa ser um preso político gay que ser uma presa política mulher lésbica, e toda violência sexual e ódio que os homens reservam à nossos corpos, ainda mais numa sociedade onde a misoginia é o cimento social como as teocracias árabes. Ao mesmo tempo essa frase me remete ao estatuto ontológico das lésbicas de expatriadas, antes mesmo de se localizarem num território. É somente uma verdade que se consuma com a violência, lesbocídios, discriminações que sofremos em todas sociedades do planeta, sejam nas democracias liberais às teocracias conservadoras. Todas tem em comum odiar as lésbicas. Lembro da figura da Mestiza de Anzaldúa também, quando vejo a dor de saudades de Sarah de sua terra natal, um sentimento complicado para as lésbicas, que ao mesmo tempo que se sentem parte daquela cultura, não se sentem. Se sentem rejeitadas, ejetadas daquela cultura, desleais, desobedientes, traidoras, e ao mesmo tempo, marcadas por aquela história, pela resistência à colonização, ao racismo, a preservação da cultura e tradições… o que faz da sapatão essa figura mestiça, essa mescla, de revolta e heresia mas de resgate cultural do seu território de nascença. Tenho certeza que Sarah vivia com esse conflito, um amor não correspondido pelo seu país, ou melhor, sua terra — pois ela mesma disse que não é sobre fronteiras e nações como boa socialista que era.

Sarah Hegazi (arquivo pessoal).

E no meio disso tudo, em meio a tantas referências gays, eu vejo o silêncio das lésbicas e o risco da suposta inexistência das lésbicas nessa narrativa toda. Realmente, Sarah, uma mulher, pagou um preço muito mais caro como presa política. Além de mulher numa sociedade egípcia, onde recusar e não usar o hijab significa estar exposta ao estupro e ser culpada por ele, ela era lésbica, a maior afronta ao Patriarcado. Sociedades como a egípcia vejo mais fortemente patriarcais até do que capitalistas, pela forma como neste caso a moralidade antes do que mercado, vindo o Estado a regular não o mercado simplesmente, mas a sociedade, intervindo na vida dos seus “cidadãos”. Pois se nas democracias liberais o que fez gays serem “respeitados” (tolerados e aproveitados) na verdade foram os interesses monetários no Pink Money.

A lésbica é, como diz Adrienne Rich, uma desleal à civilização. E portanto, como diz Virginia Woolf: “Como uma mulher, eu não tenho país/ Como uma mulher eu não quero país algum/ Como uma mulher meu país é o mundo inteiro’’. Virginia também se matou em sua época histórica, minha opinião como de outras como a também psicóloga Alice Miller autora da “A Revolta do Corpo”, é de que ela se suicidou devido ao silêncio do abuso sexual infantil. Mas também acredito que o fato de Virginia ser lésbica pesou nesse gesto. Ela se sentia alheia a cultura patriarcal, desterrada, sem pátria, cujo nome já revela que toda mulher em um patriarcado vive a experiência do exílio cultural e alheidade simbólica que nos empurra muitas vezes, na impossibilidade de gerar simbolização da experiência, à morte como saída.

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Palestra de Sarah Hegazi sobre estratégias de revolução nos países árabes. Em: https://www.youtube.com/watch?v=oQW5KCX4KeU

Quando soube da morte de Hegazi, me vi na necessidade de fazer o exercício da imaginação e alteridade, que tento realizar neste texto me aproximando da vida dela para além de um lesbocídio mais para as estatísticas globais de direitos humanos. Na idéia da Susan Hawthorne de superar o silêncio que circunda a tortura de lésbicas no mundo, por meio de metodologias de pesquisar a lesbiandade que permitissem ver nas entrelinhas, decifrar, interpretar… Eu resolvi fazer isso com os aspectos do LGBT e do socialismo, duas militâncias masculinas, na sua vida. Longe de diminuir o valor do que ela fazia, que era formidável e muito mais corajoso do que eu faço confortavelmente talvez apesar de toda perseguição que há hoje da mesma característica mas disfarçada de progressivismo principalmente à feministas críticas do gênero (deixarei para outro artigo), eu resolvi interpretar esses dados como a necessidade de obter uma humanidade por meio do reconhecimento que homens tem de humanos. Anna Lee, lésbica separatista negra, fala como os termos gay e queer eram confortáveis para ela por não explicitarem a mulheridade da condição lésbica, assim como foi sua trajetória política pelo socialismo e movimento negro. Sarah tinha muita bravura de também desafiar a protagonização masculina dos movimentos de esquerda, se colocar como esquerdista publicamente num regime sem aceitação da diversidade política, e principalmente imagino a socialização do homem árabe. A feminista radical egípcia Násara Lahdih Said, que vive atualmente na Espanha e mantém uma plataforma de atenção às mulheres árabes, contava em algumas lives que assisti recentemente como ela era criticada por homens de esquerda como abrindo espaço para os “colonizadores” e “racistas”, além da sua recusa do “feminismo islâmico” e todo fetichismo progressista do véu, para ela irrevogavelmente um símbolo de misoginia e violência. Cito Hawthorne novamente:

“É essa distância do suporte político dos outros, que se julgam eles mesmos progressivos, uma característica da existência lésbica. Lésbicas se uniram a outros grupos para apoiar e lutar por direitos políticos e sociais, mas frequentemente quando lésbicas pedem apoio à própria causa delas, a falta de resposta indica que ”apenas outras lésbicas têm orgulho das lésbicas” (Hanscombe 1992).”

Diz também Susan Hawthorne sobre a experiência do silêncio e apagamento de si lésbicos:

Um dos elementos definidores da existência lésbica no patriarcado é sua vulnerabilidade às demandas de sigilo, silêncio e não existência. Como outros grupos marginalizados e oprimidos, lésbicas são frequentemente presas em uma ”cultura de silêncio” (Freire 1972, 48). Mas as lésbicas continuam grandemente não reconhecidas quando se trata de sofrer o trauma do desaparecimento e negação, negação do governo quanto ao uso, por parte deles, da tortura. {9} No patriarcado a existência lésbica é negada, ou ilegal. Lésbicas que foram torturadas sofrem múltiplas camadas de silenciamento e negação. Lésbicas aparecem quando a atmosfera política está aberta, e desaparecem de novo durante tempos de repressão ou backlash.(…) Como a existência negra no Apartheid, a existência lésbica dentro do território inimigo é uma afronta à ideologia da hipermasculinidade. Quando a conformidade se torna a norma, quando o poder masculino é arraigado, e quando o governo sanciona abusos dos direitos humanos ou usa da tortura, lésbicas estão entre as vítimas.

Por isso também nessa linha de reflexão, penso como Sarah teve que cifrar a lesbiandade dentro de outro código mais aceitável dentro dos direitos humanos: o LGBT, a bandeira LGBT, pois homens gays são mais humanizados. Me imagino que o passo de tomar a palavra lésbica pra si ainda era um muito difícil se tinha pela frente toda violência imprimida na memória corporal e psicológica para dar conta.

Mas como Adrienne Rich diz, e o por que de reforçarmos Sarah como lésbica e não queer ou gay como vi em outros lugares:

“Tudo o que não é nomeado, não descrito em imagens, tudo o que se omite em biografias, o censurado em coleções de cartas, tudo o que se disfarça com um nome falso, o que se fez de difícil alcance e tudo que está enterrado na memória por ter se desvirtuado seu significado com uma linguagem inadequada ou mentirosa, se convertirá não apenas no não-dito, mas no inefável” Adrienne Rich, Sobre Secretos, Mentiras y Silencios, pg. 235.

Hawthorne diz em seu artigo também que há um problema de invisibilidade de refugiadas por motivo de lesboódio, pois muitas dessas lésbicas pedirá asilo por motivo de perseguição política, dada a dificuldade de legitimar a opressão das lésbicas como tortura política em si, além dos riscos de colocar sua razão de exílio por serem lésbicas, pois nenhum país do mundo aceita realmente a lesbiandade.

Sobre o suicídio de Sarah, pensei no momento que recebi a notícia de seu suicídio, que de fato, algumas mulheres não sobrevivem. E que não sabemos muito bem falar disso no ativismo feminista sobre abuso sexual e estupros, pois pode soar desestimulador, gatilho, derrotista e principalmente, restar reconhecimento às forças da mulher que luta com sua saúde mental para viver apesar do terror que experienciou. De certa forma, é um tabu falar sobre suicídio, ainda mais de lésbicas, por ser uma narrativa predominante de tragicidade supostamente determinista da nossa existência, pelos filmes e romances. Mas talvez seja preciso aceitar o gesto dessas companheiras, depois de realizado. Pois é impossível saber como é estar na sua mente, no seu lugar, e toda dor insuportável que não deram conta. Pode ser humanizador.

Lembro de uma frase que diz Bev Jo, lésbica estadunidense, no livro “Dykes Loving Dykes”, quando problematiza o conceito de sobrevivente:

“Sobrevivente” é um termo dos psicoterapeutas norteamericados que passa por cima do fato de muitas fêmeas não sobreviverem ao ataqueelas são mortas enquanto meninas ou se matam depois. Ainda que tenha por objetivo elogiar a resiliência feminina, isso na verdade agrava o segredo e a vergonha do estupro familiar, sugerindo que há algo inerentemente vergonhoso e sujo em ser atacada ou vitimada. O fato é que “sobrevivente” ligado a “incesto” faz isso particularmente suspeito — não somente não há estupro e estuprador, também não há vítima!”

Eu ainda acho importante o uso do conceito de sobrevivente, como psicoterapeuta. Pois é importante validar a pessoa e reconhecer toda sua força e tudo que fez para sobreviver, dentro da complexa psicologia do trauma. Mesmo sua suposta “cooperação” com o agressor, que é um fenômeno que pode ocorrer, é potência de afirmação da vida. Mas concordo com Bev que nem todas sobreviventes sobrevivem, o que está longe de representar uma derrota.

A forma que vejo de humanizar as lésbicas que cometem suicídio e de retirar a possibilidade de culpabilização que o conceito carrega, na suposta alegação de agência do ato, é entender como propôe o Dossiê Lesbocídio que lésbicas são suicidadas, propondo entender o suicídio lésbico como um crime de ódio coletivo:

“O suicídio lésbico é interpretado aqui como um crime cometido pela comunidade como um todo contra a vida daquela lésbica que não teve acesso às condições mínimas necessárias para compreender o seu papel dentro da sociedade, justamente porque o papel das lésbicas dentro da sociedade precisa ser reconhecido e valorizado de forma a ocorrer uma mudança de pensamento com relação ao padrão esperado para as mulheres que não se encaixam em normas heterossexuais.”

Na sua carta de suicídio dizia:

“Para meus irmãos: tratei de sobreviver mas falhei. Perdoem-me. A meus amigos: foi uma experiência difícil e estou demasiado debilitada para resistir. Perdoem-me. Ao mundo, você foi incrivelmente cruel comigo, mas eu te perdoo”

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Na sua última postagem no instagram, Sarah escreve: “O céu é mais belo que a terra. Eu quero o céu, não a terra”, e traz essa bela foto onde parece estar em paz e tendo seu corpo acariciado por ambos, o azul do céu e o verde da planeta terra colonizada por todos esses homens que aterrorizaram sua existência em curto tempo.

O suicídio de Hegazi e sua divulgação em redes sociais chamou atenção para a condição das mulheres no Egito, além da situação política do país

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Mulheres de Harém fazendo manifestação no Egito. Fonte: wikipedia

Para todas nós lésbicas e gays também que se sentem ameaçados nesse regime bolsonarista, com medos de retrocessos absurdos que experienciaram algumas sociedades como a russa e a iraniana e até o Afeganistão, onde mulheres tinham direitos e estes foram subtraídos como prediz Simone de Beauvoir na sua frase clássica “Basta uma crise política, econômica e religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados”, conhecer a história de Hegazi serve de alerta para nós que estamos na falsa tranquilidade das democracias liberais (enfrentando outras batalhas no entanto como é o caso do neoliberalismo do gênero e seu lobby proxeneta, mas entrarei em outro artigo). Isso nos leva a necessidade de lutarmos de forma internacionalista.

Alguns dados sobre a situação das mulheres no Egito:

Em uma pesquisa de 2010 realizada pelo “ Egyptian Center for Women’s rights”, 98% das mulheres estrangeiras (provavelmente não usam véu) e 83% das mulheres nativas disseram ter sido assediadas sexualmente no Egito. Dois terços dos homens assumem na pesquisa que assediam mulheres. Em 2013, 99.3% foi a porcentagem de mulheres egípcias que relatavam terem vivido assédio sexual.

“Assassinatos de Honra” (femicídios) ou “crime passional” como era chamado no Brasil, são frequentes no Egito.

Testes de virgindade eram realizados por militares em detentas até 2011.

Mutilação Genital Feminina é prevalescente no Egito, com a maioria das mulheres tendo sofrido alguma versão do procedimento. A prática está arraigada nas culturas tanto cristãs como islâmicas. O maior propósito seria de preservar a castidade. A MGF foi banida em 2008 mas o cumprimento e fiscalização da lei é fraco. Em 2016 foi transformado em delito. Muitas meninas morrem em decorrência de hemorragias em hospitais devido à prática.

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Filme Cairo 678, de Mohamed Diab, sobre a insurreição de mulheres egípcias contra o abuso sexual no transporte público.

Sobre direitos de herança, se morre alguém na família por exemplo os pais, a herdeira mulher recebe metade da herança que seu irmão recebe. Um sistema de empobrecimento das mulheres entre tantos.

Casamentos infantis constituem 15% de todos casamentos no Egito. Apesar da mudança legal da idade do casamento para 18 anos em 2008, o casamento infantil existe ao longo do país sobretudo em áreas pobres. De acordo com um estudo de 2013 do “National Council for Women”, 22% das garotas são casadas antes da idade dos 18. 19% das meninas casadas foram agredidas por seus maridos, e 41% destas foram agredidas durante a gravidez.

Também existe uma prática de prostituição que consiste em “casamentos temporários de verão” de acordo com o Informe de Tráfico de Pessoas de 2015. Indivíduos do Golfo vendem mulheres e meninas para propósitos de prostituição e trabalhos forçados, arranjos facilitados pelos pais das vítimas e despachantes que lucram de tais transações.

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A feminista radical egípcia Násara Iahdih Said, fundadora de ‘Amnat Thawra’. “Muitas mulheres muçulmanas não podem escolher sua vestimenta, publicar fotos ou sair com quem quiser por medo a sofrer represálias”. Leia mais em: http://www.femicadiz.es/articulo/entrevista/femicadiz-nasara-feminismo-patriarcado/20191011195525000975.html
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Mulheres na Revolução Egípcia

Estas condições sociais engendraram a existência política de Sarah Hegazi, que brilhou durante seu tempo nesta planeta, inspirou e deu esperança, bravura, incentivo à luta. Sua morte não será em vão. Hoje no mundo todo, são realizadas ações para lembrar sua luta e pedir justiça. Sarah se converteu num símbolo da luta de liberação das mulheres e humana no mundo árabe.

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Quem esquece das Mortas

Quem esquece das Presas

Esquece da Luta

Que nossa Memória

Construa Rebeldia.

Descanse no Poder Sarah Hegazi. Presente agora e sempre.

***

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Bibliografia:

ANZALDUA, Gloria. Borderlands: La Frontera — The New Mestiza. Aunt Books: San Francisco, 1999.

HAWTHORNE, Susan. Ódio Antigo e Sua Manifestação Contemporânea: A Tortura de Lésbicas. Em: https://medium.com/arquivo-radical/%C3%B3dio-antigo-e-sua-manifesta%C3%A7%C3%A3o-contempor%C3%A2nea-a-tortura-de-l%C3%A9sbicas-parte-i-34c89b8add76 e https://medium.com/arquivo-radical/%C3%B3dio-antigo-e-sua-manifesta%C3%A7%C3%A3o-contempor%C3%A2nea-a-tortura-de-l%C3%A9sbicas-parte-ii-deeadd9e392d

JO, Bev. STREGA, Linda. Dykes Loving Dykes. Em: https://medium.com/@lesbica/introdu%C3%A7%C3%A3o-de-dykes-loving-dykes-por-bev-jo-linda-strega-e-ruston-81d1905f7caf

LEE, Anna Lee. Por Amor ao Separatismo (1988). Em: For Lesbians Only: A Separatist Anthology. Onlywomen Press. 1991.

PERES, Milena Cristina Carneiro; SOARES, Suane Felippe; DIAS, Maria Clara. DOSSIÊ SOBRE LESBOCÍDIO NO BRASIL. De 2014 até 2017. Autoral Editora, Brasil: 2018.

RICH, Adrienne. La Lesbiana que hay en nosotras… (1976). En: Sobre Secretos, Mentiras y Silencios. Icaria Editorial: Barcelona, 1983. Pg. 235.

WOOF, Virginia. Three Guineas. New York: Harcourt Brace Jovanovitch (1966 edition).

FONTES PESQUISADAS:

Written by

Uma lésbica pensante compartilhando umas reflexões. Jan - psicóloga, lésbica/feminista, ilustradora.

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