A era do duplipensar

George Orwell

Os exemplos abundam. E qual é a nossa responsabilidade nessa história?

Já está batido falar da atualidade de George Orwell, mas é inevitável. O escritor inglês publicou seu épico “1984" há quase 70 anos, conseguindo relatar a essência e a universalidade do totalitarismo como ninguém.

É óbvio que Orwell inspirou-se no regime de Joseph Stálin na União Soviética de seu tempo. Mas pensar que os apontamentos do escritor se resumem ao governo comunista de então é ser simplório (ou tendencioso). Muitos dos elementos identificados na ideologia e na linguagem estão presentes por diversos matizes da política. Um dos principais e corriqueiros é o duplipensar.

A palavra é um neologismo criado por Orwell ao nomear uma estratégia do Partido, cujo significado é, nas palavras do narrador do livro,

Saber e não saber, estar consciente de sua completa sinceridade ao exprimir mentiras cuidadosamente arquitetadas, defender simultaneamente duas opiniões que se cancelam mutuamente, sabendo que se contradizem, e ainda assim acreditar em ambas; usar a lógica contra a lógica, repudiar a moralidade e apropriar-se dela, crer na impossibilidade da Democracia e que o Partido era o guardião da Democracia; esquecer o quanto fosse necessário esquecer, trazê-lo à memória prontamente no momento preciso, e depois torná-lo a esquecer; e acima de tudo, aplicar o próprio processo ao processo.

Não é preciso dizer que o cinismo era indispensável para levar o cabo tal mentalidade, com consequências práticas nas vidas das pessoas. Sem contar o calculismo. Ao final, o guardião do discurso estaria sempre preservado e com razão, dissimulando as causas levantadas contra si.

Vamos aos exemplos?

O mais notório deles já flerta com o folclore (ou a psicopatia). Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, disse com todas as letras à CPI da Petrobras: “Não tenho conta no exterior”. Dias depois, surgem os documentos, com foto e assinatura de Cunha, da abertura das contas — todas elas identificadas. A mentira pode ser caracterizada como quebra de decoro parlamentar e, assim, do mandato.

Com a opinião pública e até a oposição ao governo querendo sua cabeça diante das provas irrefutáveis, só restou a Cunha o duplipensar. Até então dizendo que só ia falar do tema na Justiça, passou a convocar ele mesmo entrevistas exclusivas para dizer, em resumo, o seguinte:

Não sou titular das contas, mas beneficiário do conteúdo delas. Logo, não tenho contas no exterior.

É, como diz Orwell, “usar a lógica contra a lógica”. Todos nós que temos conta-corrente e somos responsáveis pelo que fazemos com ela, sabemos que o argumento de Cunha é estapafúrdio, pra dizer o mínimo. Constrangeu os próprios aliados. Porém lá está ele, com seu olhar penetrante (aliás, que casal) a afirmar que está correto.

Outro exemplo recentíssimo é Pedro Paulo Teixeira, candidato a prefeito do Rio de Janeiro apoiado pelo atual alcaide, Eduardo Paes. Quando surgiu a notícia de que sua então mulher tinha dado queixa de agressão por parte do marido, PP acusou o golpe (com trocadilho, por favor). Compungido, também desandou a dar entrevistas de que aquela era a única vez que tinha acontecido:

“Mas é importante dizer que foi um episódio único na minha vida. Jamais tive qualquer atitude dessa com minha mulher, meus filhos.”

Até descobrirem outra agressão dois anos antes, na noite de Natal, diante da filha de 2 anos de idade. “Esquecer o quanto fosse necessário esquecer, trazê-lo à memória prontamente no momento preciso, e depois torná-lo a esquecer”. Pedro Paulo ainda soltou a pérola “Quem não exagera numa discussão?”, praticamente concordando com um ex-goleiro condenado a 30 anos de prisão.

Na vizinhança também encontramos o fenômeno. A campanha de Daniel Scioli, candidato a presidente apoiado por Christina Kirchner (e por Lula), reciclou um spot de TV da campanha de Aécio Neves contra Dilma nas eleições brasileiras de 2014. O marqueteiro responsável pela ideia rejeitou que seja um plágio respondendo assim:

“Não é uma cópia porque a ideia é a mesma”

Não é formidável?

Lula foi outro exemplo de usuário do mecanismo, assim como muitos de seu partido, sem perceber (ou admitir) o quanto isso compromete sua credibilidade com a própria militância. Em 2008 o então presidente comemorava o grau de investimento concedido ao Brasil pela agência Standard e Poor’s:

“Não sei nem falar direito a palavra ‘investment grade’, mas se fôssemos traduzir para uma linguagem que todos os brasileiros entendam, pode-se dizer que o Brasil foi declarado um país sério, que tem políticas sérias, que cuida de suas finanças com seriedade”

Sete anos depois, fica difícil entender qual é de fato a opinião do líder petista sobre o assunto, já que ela muda completamente:

“Isso [o grau de investimento] não significa nada, significa apenas que a gente não pode fazer o que eles querem. A gente tem que fazer o que a gente quer”.

Seria o caso de “defender simultaneamente duas opiniões que se cancelam mutuamente, sabendo que se contradizem, e ainda assim acreditar em ambas”? Com que propósito?

Diante de tantos casos (tenho certeza que há outros), faço questão de trazer o espelho pro meio da sala: e nós? Qual a nossa responsabilidade como cidadãos nesse cenário?

Primeiro, quando relativizamos o princípio da coisa. Não adianta relevar a mentira de Eduardo Cunha só porque ele pode favorecer o impeachment da presidência do PT. Não adianta relevar as contradições de discurso e prática de Lula porque seu governo tirou milhões da miséria.

Fazer vista grossa para os meios de olho na justificação dos fins é abrir passagem pra uma perigosa roleta russa. Um dia aquilo pode se voltar contra nós na mesma moeda. No mínimo, facilitamos a criação de um ambiente que permita esse tipo de atitude.

E, no caso dos políticos, quando chancelamos o mandato com nossos votos. Eu sei que pesamos um monte de coisas na hora de escolher votar em alguém. Talvez, em alguma medida, precisemos relevar determinados aspectos numa lógica de custo-benefício. Mas o que seria inegociável para nós? Ser flagrado na mentira ou bater na mulher me parecem critérios eliminatórios universais. Serve pra (não) escolher cônjuge, amigo, empregado e até representante político.

Os que se utilizam do duplipensar contam com nossos relativismos, jogam com o tentador movimento da Lei de Gérson — “o importante é levar vantagem em tudo”. Seja em aspectos financeiros, discussões acaloradas, ou no orgulho de fincar-se em radicalismos e tantas outras coisas que têm construído pontes de ódio e indiferença entre nós.

Enquanto isso, aqueles que sabem muito bem jogar o jogo orwelliano permanecem calmos, serenos e tranquilos.

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